Graphic novel mergulha na vida e obra de Carolina Maria de Jesus

Carolina. Capa. Reprodução
Carolina. Capa. Reprodução

 

O professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença causou polêmica ao ecoar recentemente racismo, machismo e classicismo acadêmico em um evento em homenagem a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. Para ele, a principal obra da ex-favelada e ex-catadora não é literatura – o livro está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp. O professor foi rebatido pelos poetas Ramon Mello e Elisa Lucinda, que saíram em defesa da escritora e de seu legado, já reconhecido por nomes como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector – que esteve na noite de autógrafos de seu livro de estreia, em 1960.

“A menina Bitita, mineira de Sacramento, arrombou a porta estreita e branca da elitista literatura brasileira ao tornar-se Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora de Quarto de despejo: diário de uma favelada. O livro, quando lançado em agosto de 1960 em sucessivas edições, alcançou a marca de 100 mil exemplares vendidos em poucos meses, superando em vendas naquele ano, Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado, e foi publicado em 40 países e 14 línguas”. Assim a professora Sirlene Barbosa inicia o artigo que serve de posfácio a Carolina [Veneta, 2016, 128 p.; R$ 39,90], graphic novel biográfica da escritora, com pesquisa e argumento dela e roteiro e desenhos de João Pinheiro.

Ele já havia dedicado graphic novels a biografias de escritores antes: Kerouac [Devir, 2011] e Burroughs [2015, Veneta]. Uma característica de seu trabalho é seu traço versátil adaptar-se às realidades de seus personagens reais: o preto e branco de Carolina parece imitar carvão ao dar o tom certo à miséria humana vivida pela escritora e seus vizinhos de favela do Canindé – onde hoje está localizado o estádio da Portuguesa de Desportos.

Carolina Maria de Jesus foi personagem complexa e por vezes contraditória. Enfrentou preconceitos os mais diversos: por ser negra, pobre, mulher. Aliás, passados 40 anos de sua morte, continua enfrentando, como demonstra o episódio envolvendo o professor. Sirlene Barbosa e João Pinheiro mergulham profundamente na tragédia humana que lhe cerca, mostrando a realidade nua e crua e por vezes cruel. Muitas vezes a escritora foi vítima de preconceito entre seus iguais, isto é, os vizinhos de barracos no Canindé.

A narrativa de Carolina é bastante apoiada em Quarto de despejo: diário de uma favelada, que teve a primeira edição publicada por iniciativa do jornalista Audálio Dantas, que descobriu a escritora meio que por acaso ao cobrir uma pauta para a então Folha da Noite: Carolina ameaçava tornar seus vizinhos personagens do livro que estava escrevendo, reagindo à antipatia deles, para quem ela não passava de uma pobre solteirona metida e fedorenta – às vezes faltava dinheiro para comprar sabão e não foram poucas as vezes em que passou fome junto com os filhos.

“Não são ratos, não são abutres…”, “… são gente”, dizem os quadrinhos a certa altura, apresentando a paisagem violenta por todos os ângulos: desagregação familiar, violência contra a mulher, abuso de álcool e a disputa entre humanos e animais por comida, evocando o poema O bicho (1947), de Manuel Bandeira: “Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio/ catando comida entre os detritos/ (…)/ o bicho, meu Deus, era um homem”.

Carolina passeia pela vida e obra da escritora que lhe batiza, certamente ajudando a jogar luzes sobre aquela e angariar novos leitores para esta, que segue sendo apontada como influência: Quarto de despejo: diário de uma favelada foi o primeiro livro lido pela também escritora, negra e mineira Conceição Evaristo, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) este ano e atualmente é tema de uma Ocupação no Itaú Cultural.

Linguagem: vírus e vício/s de Burroughs

Burroughs. Capa. Reprodução
Burroughs. Capa. Reprodução

 

Burroughs [Veneta, 2015, 128 p.], de João Pinheiro, outro brasileiro de reconhecimento internacional, é um mergulho profundo na atormentada mente do escritor beat – o quadrinista já havia hqbiografado outro da geração, em Kerouac [Devir, 2011]. A impressão arroxeada do miolo da graphic novel lembra as provas mimeografadas da escola da infância.

“A linguagem é um vírus vindo do espaço”, determina um dos primeiros quadros da história. O big bang de William Burroughs (1914-1997) foi o assassinato de sua esposa Joan, numa brincadeira de de seu xará Tell.

A HQ retrata um Burroughs perseguido por fantasmas, escrevendo para fugir deles, seu processo criativo, o método cut up utilizado por ele, Mugwumps, drogas, alucinações, o famoso inseto de Kafka, sua bissexualidade, a interzona e o Almoço nu – levado ao cinema por David Cronenberg. Também estão lá a violência – sobretudo contra homossexuais – e a sociedade que a aplaude, aos gritos de “bandido bom é bandido morto”.

“Morfina, heroína, dilaudid, eucodal, pantopom, diocodid, diosane, ópio, demerol, dolofina, paufium… comi, cheirei, injetei, enfiei no reto… o método não importa, o resultado é sempre o mesmo: dependência”, revela a certa altura. “Foram 15 anos no vício. Aos quarenta e cinco anos de idade, me livrei da doença da dependência. (…) Registrei minhas alucinações em centenas de páginas que mais tarde seriam publicadas sob o título Almoço nu”, continua. E arremata: “A única coisa real sobre um escritor é o que ele escreve, e não a sua vida. (…) Sinto-me forçado à conclusão apavorante de que nunca teria me tornado um escritor… sem a morte de Joan”.

Burroughs é, em suma, a história da busca de seu protagonista, um artista que viria a influenciar gerações, por salvação através da literatura, sua única crença possível.