Olha, moço, eu vim parabenizar Josias Sobrinho

O compositor Josias Sobrinho, circa 1970. Foto: acervo pessoal
O compositor Josias Sobrinho em show em Teresina/PI, circa 1978. Foto: Assaí/ Acervo pessoal/ Josias Sobrinho

 

Certa feita brinquei com Josias Sobrinho: seu estúdio deveria se chamar Tramaúba, não Opus. Tramaúba, o nome do povoado que ele nasceu, à época Penalva, hoje Cajari. De Cajari pra capital, de pra lá da Ponta d’Areia para o mundo. Falo de um de nossos maiores compositores, gravado por nomes como Betto Pereira, Cláudio Pinheiro, Ceumar, Chico Maranhão, Diana Pequeno, Flávia Bittencourt, Leci Brandão, Lena Machado, Papete, Rita Benneditto e Xuxa, entre muitos outros.

Conheci Josias Sobrinho antes mesmo de conhecê-lo, embalado por suas toadas que conheço, aprecio e canto desde a infância, com que fui ninado e com que ninei meu filho. Cara de pau que sou, há muito tempo entreguei-lhe em mãos um poema que escrevi, quando ele dava expediente em sua extinta livraria Espaço Aberto, na Rua do Sol. Levou mais de 10 anos, mas ele musicou o poema – que virou uma toada de boi de zabumba. Depois eu colocaria a letra na melodia de um tango seu e até aqui este é o tamanho de nossa parceria musical.

No início do mês, entrevistei-o numa edição do TimbirAlive; quem perdeu (ou quer ver de novo) pode conferir no IGTV da Rádio Timbira AM (@radiotimbira, no instagram). Um bate-papo descontraído, em que ele brindou a audiência e o repórter com duas de suas antológicas criações: Engenho de flores e Bacurau pragueiro. Só então me toquei que nunca o havia entrevistado, não formalmente, não diante de câmera ou com um gravador ligado – apesar dos muitos anos de amizade, parceria, alguns espaços comuns de trabalho e a admiração que nutro desde sempre por este cidadão do mundo que não tira o chapéu pra qualquer vagabundo.

Se uma entrevista formal, digamos, era algo inédito, não faltam ao currículo generosas doses de boa conversa regada a laudas e laudas de cachaça temperada, sobretudo no balcão do Batista, a lendária cachaçaria na Travessa da Lapa, no Desterro, onde é proibido fotografar e, por conta de uma selfie, uma vez fizemos um juramento ao proprietário de nunca mais por os pés ali – quebrado quase imediatamente após a cura da ressaca, potencializada pela mistura decorrente de querermos sempre experimentar ou relembrar vários sabores, o máximo de sabores, numa mesma rodada.

Se as regras de isolamento social têm nos impedido de atualizar o papo pessoalmente e de dar um abraço idem no dia de seu aniversário, vulgo hoje, significa apenas uma coisa: no capitalismo afetivo, tudo o que atrasa também deve ser pago com juros e correção etilírica.

*

13 músicas para você conhecer ou admirar ainda mais Josias Sobrinho:

Solidariedade e agricultura familiar em pauta

17 grupos produtivos em 12 municípios maranhenses são beneficiados com iniciativa. Pautados pela solidariedade, eles superam problemas simples com soluções idem.

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: ACERVO CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL MARANHÃO

Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís
Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís

Com mais de 60 anos de atuação no país, a Cáritas Brasileira tem um sólido legado na organização de grupos e comunidades, pautada por princípios solidários, sustentáveis e de autogestão.

Recentemente, através de um projeto apoiado pela Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão está apoiando ações que culminam na criação de um fundo rotativo solidário, cujo montante chega a 130 mil reais, beneficiando 17 grupos produtivos de agricultores familiares em 12 municípios maranhenses.

O regulamento do fundo prevê a devolução de 100% dos valores recebidos, acrescido de 4,5% de juros – valores estes que serão reinvestidos em ações produtivas de outros grupos. Algumas diferenças básicas entre este tipo de empréstimo e os comumente oferecidos por instituições financeiras são autogestão (a taxa de juros, por exemplo, foi definida pelos próprios trabalhadores que acessam os recursos) e a carência – que varia conforme a atividade produtiva: seis meses para horticultura, polpa de frutas e beneficiamento de farinha, um ano para criação de animais, e 18 meses para o plantio de mandioca.

O engenheiro agrônomo Marciel Bento dos Santos, 36, destaca a permanência das pessoas na terra a partir de uma iniciativa muito simples. “A partir deste projeto, os trabalhadores produzem para consumo e comercialização, realizada em feiras locais e territoriais”, comenta.

Ele também aborda as diferenças entre a operacionalização do fundo rotativo solidário e de um empréstimo comum, num banco. “Quando é no banco, se vê a atividade que as pessoas vão fazer, mas já chega um prazo tabelado; o banco é engessado; você chega ao banco, pega ficha de vida, se é de família tradicional, se tem posição, para poder o banco lhe dar o empréstimo”, compara.

O grupo produtivo que ele integra acessou 9.680 reais para plantar mandioca e adquirir motor, bomba, mangueira e tubulação para irrigar, além de estacas e arame para cercar a área. Começará a devolver o recurso a partir de setembro de 2020.

Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras

A agricultora familiar Antonia Pereira de Sousa, 57, vive em Nova Descoberta, povoado de São Raimundo das Mangabeiras. Através do projeto para acessar os recursos do fundo rotativo solidário, na ordem de 10 mil reais, seu grupo plantou melancia, banana, caju, acerola, milho, feijão, arroz e mandioca, além de adquirir material de irrigação e conseguir escavar um reservatório para 120 mil litros de água oriundos de um poço artesiano. Apesar de a carência ser de seis meses, o grupo já começou a devolver os recursos ao fundo.

“Já venho acompanhando a Cáritas e já conhecia seu trabalho em outras comunidades. Antes, aqui, a gente não podia expandir [as atividades] por que a bomba era fraca”, explica. A venda da produção é realizada diretamente na praça da cidade, pelos mais de 80 membros da cooperativa. “É muito melhor. Não tem burocracia para acessar [os recursos]. É rápido. Por bancos, assentamentos não conseguem acessar. Não conseguia na época de Lula e Dilma, imagina com esse aí”, diz, referindo-se ao presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Antonia lembra ainda de um crédito obtido através de empréstimo junto a um banco, cerca de um quinto do valor acessado através do fundo da Cáritas/IAF. “Só cerquei o quintal e nem os animais eu consegui comprar. A terra não é dividida, é no nome da associação, aí o banco não quer trabalhar de jeito nenhum”, explica.

Elmir Eurides dos Santos Andrade, 56, mais conhecido como Bebé das Lagoas, é lavrador em Belágua. O grupo produtivo de que é membro acessou 7,9 mil reais em fevereiro de 2019 e plantou seis hectares de mandioca, com colheita prevista para agosto de 2020. A expectativa é produzir cerca de 3 mil quilos de farinha. “A ideia é passar a produzir para vender, não apenas para comer, e tentar vender direto na cidade, sem a figura do atravessador”, afirma ele, que continua plantando milho e arroz para consumo.

“A estratégia da Cáritas está em um processo de fortalecimento de ações que ela já desenvolve com a Rede Mandioca. O fundo de crédito constituído tem a perspectiva do fortalecimento da agricultura familiar como um horizonte maior: fortalecer as ações junto a grupos produtivos de agricultores familiares e extrativistas, articulando uma rede de agricultores e agricultoras, com a perspectiva de envolvimento comunitário, geração de trabalho e renda, fortalecimento do trabalho coletivo, de ter alimento saudável na mesa, de segurança alimentar para o campo e para as cidades”, afirma Lucineth Cordeiro, assessora de Desenvolvimento Solidário e Sustentável da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“O fortalecimento dessas iniciativas é uma forma também de contribuir para que essas comunidades tenham condições de permanecer em seus territórios, de fortalecer sua resistência, sua identidade e seus modos de vida”, complementa Lena Machado, secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“Quando se fala de um projeto todo mundo se empolga”, reflete o lavrador Josemar da Conceição Oliveira, 37, do município de Água Doce. “Somos capazes, mas precisamos nos empenhar para alcançar os objetivos”, continua. E provoca: “se se faz um empréstimo num banco e de um jeito ou de outro se paga, por que não um valor desse, que vai beneficiar outros grupos?”.

Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce
Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce

O forte da produção do grupo integrado por ele é a mandioca, mas Josemar afirma ter um escape: “é o peixe, algo fácil de fazer um troco mais rápido”, revela o lavrador que também cria tambaquis em cativeiro. O peixe ele vende de porta em porta, sob encomenda. Com 7,5 mil reais seu grupo produtivo construiu quatro tanques, que receberam 2.000 alevinos. Ele finaliza: “a palavra-chave é solidariedade, é se preocupar com o próximo que irá receber [os recursos]”.

Festival apresentou resultados do projeto “Catadores de Direitos”

Sábado passado (26/10), no Festival Estadual “Nossos Talentos, Nossos Direitos”, crianças e adolescentes mostraram o que aprenderam em projeto realizado pela Cáritas no Maranhão

Foto: Elson Paiva
Foto: Elson Paiva
Foto: Elson Paiva
Foto: Elson Paiva

O time de Buritirana goleou um combinado de vários outros municípios maranhenses por 4×0. A partida durou meia hora. Caíque, de 11 anos, cursando o quinto ano, Luciano Jr., 10, também cursando o quinto ano, e Alan, 8, do terceiro ano, eram só alegria, pela vitória, terminando de gastar as energias que sobraram do amistoso pelos brinquedos e equipamentos de ginástica da Praça do Letrado, no Vinhais, em São Luís. “Sim” foi a resposta em uníssono quando indaguei-lhes se queriam ser atletas profissionais. O mais velho e o mais novo são flamenguistas; o do meio, são-paulino.

O conselho que lhes dei, “não basta ser bom de bola, não pode parar de estudar”, eles devem ouvir repetidamente. O trio integra o conjunto de crianças e adolescentes filhos e filhas de catadores e catadoras de materiais recicláveis ou de famílias de baixa renda atendidos pelo projeto Catadores de Direitos, realizado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão com apoio da Kindermission desde 2012 – e de forma ininterrupta desde 2017.

É uma manhã ensolarada de sábado e estamos no “Festival Estadual Nossos Talentos, Nossos Direitos”, que ocupou a praça pública em São Luís, após ter etapas regionais realizadas nos municípios de atuação do projeto: Bacabal, Balsas, Imperatriz, Lago da Pedra e Loreto. Futebol, roda de capoeira, música, poesia, dança e teatro integraram o cardápio do festival, uma mostra de talentos a demonstrar o que a gurizada aprendeu durante o projeto, que passará por avaliação em novembro, ocasião em que definirá novos municípios de atuação. Também para novembro está previsto o lançamento de um vídeo-documentário sobre o projeto, em fase de finalização.

“Em alguns municípios as equipes estão bem organizadas e continuarão o trabalho. A  Cáritas está aberta a parcerias”, destacou Lucineth Cordeiro, da coordenação colegiada do organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Maranhão, reforçando o princípio de rotatividade do projeto e das ações da Cáritas.

Luziane Alves é mãe de quatro filhos atendidos pelo projeto Catadores de Direitos. “Percebi que eles melhoraram em casa e no desempenho escolar, são interessados em leitura”, afirma sobre os filhos, que têm entre oito e 13 anos.

Instrutor de capoeira, Onivaldo de Assis, 44, atua há dois no projeto, em Bacabal. “É um longo trabalho de conscientização. É preciso despertar a vontade de querer aprender, valorizando o esporte e a cultura, fazendo essa moçada crescer como pessoas, ser alguém na vida. É um trabalho árduo, que une conhecer direitos com ter saúde”, comenta.

Gleicilene Araújo, 13, conta ter aprendido capoeira, carimbó, futebol e violão – ela foi uma das que se apresentou ao instrumento, cantando uma música sobre o meio ambiente. “É um projeto importante. Conheci pessoas que passaram a ir e conseguiram sair do mundo das drogas”, revela.

O sol a pino não esmorecia os presentes, animados pelo mestre de cerimônias Tedd Mac, que sabe unir bom humor e dicas úteis para a garotada – em perfeita sintonia com os valores ensinados aos beneficiários do projeto. Motivos para sorrir não lhes faltavam: estavam ali a exibir seus talentos e ganhar medalhas, que penduravam no pescoço, orgulhosos, conscientes de seu papel de sujeitos de direitos, mesmo que uns insistam em negar ou dizer o contrário.

“Os meninos e meninas e o povo no poder eu quero ver”, era palavra de ordem, grito de guerra – ou de contra-ataque, com endereço certo. “Criança tendo voz, vez e lugar: esse é o país que a gente quer”, afirmou Lena Machado, secretária executiva da Cáritas no Maranhão. “Eles não precisam de sorte, é de oportunidades que precisam, de respeito a seus direitos, para que cresçam em graça e sabedoria”, finalizou, certa da missão ao mesmo tempo cumprida e em progresso.

(texto originalmente publicado no JP Turismo, Jornal Pequeno de hoje)

O Maranhão investe 144 milhões de reais no Centro de São Luís

A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro
A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro

Há alguns dias a Praia Grande, bairro do Centro Histórico de São Luís, tornou-se uma espécie de Torre Eifel, Estátua da Liberdade, Cristo Redentor: um lugar onde todos querem tirar fotos. Além da beleza do conjunto arquitetônico do lugar, a decoração para o período junino chama a atenção: as tradicionais bandeirinhas formam diversas imagens ligadas aos folguedos, num enorme mosaico colorido.

O fluxo de turistas cresceu, a partir também da inauguração de espaços como o Museu do Reggae do Maranhão (que completa um ano e meio em funcionamento em junho) e o Museu da Gastronomia, recém-inaugurado, ambos na Praia Grande. A isto, somam-se eventos já fixados no calendário cultural da cidade, como a Feirinha São Luís e o Choro na Tralha, que acontecem aos domingos, respectivamente na Praça Benedito Leite e nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, também no Centro.

No último dia de São João (24 de junho) o governador Flávio Dino, em solenidade no auditório do Palácio dos Leões, assinou um decreto criando o Programa Nosso Centro, iniciativa ousada que pretende injetar um total de R$ 143,7 milhões na área, em diversas frentes, algo mais abrangente que o inacabado projeto Reviver, realizado durante o governo de Epitácio Cafeteira, que teve tanta repercussão que até hoje é como parte da população chama o bairro da Praia Grande.

Durante a solenidade Dino revelou que a inspiração é o PAC Cidades Históricas, lançado no governo de Dilma Rousseff – cujas ações alcançaram a ilha maranhense. Os investimentos se darão em várias frentes: habitação (moradia popular), tecnologia (incentivo à instalação de startups no local), cultura (ações permanentes), turismo, lazer, comércio, gastronomia e institucional (com a região voltando a ser ocupada por órgãos públicos), além de ações de infraestrutura e segurança.

O Programa Adote um Casarão pretende reformar prédios e destiná-los à habitação e comércio, através de incentivos tributários – empresas que se dispuserem a participar poderão deduzir a totalidade dos recursos investidos em tributos estaduais, notadamente o ICMS.

“Vivemos um momento em que a conjuntura econômica é desfavorável, mas o Maranhão está na moda. São Luís hoje é a prova viva disso. Inclusive aqui no Palácio dos Leões, onde recordes de visitação são sucessivamente quebrados. Teremos, com este programa, uma convergência de esforços, feito pelo Governo Federal, representado pelo Iphan, pela Prefeitura de São Luís e pelo Governo do Estado, o que transcende o governo, numa interação com a sociedade. É um ótimo negócio investir no Centro Histórico de São Luís. O Programa Nosso Centro vai fortalecer vocações já instaladas na região”, afirmou o governador durante a solenidade, quando antecipou o anúncio que deverá fazer, nas próximas semanas, da revitalização do Largo do Carmo e da Praça João Lisboa, dois cartões postais da capital maranhense.

​Denis Cutrim de Lima, diretor da Associação de Moradores do Centro Histórico, se mostrou otimista: “Esse diálogo com a comunidade é importante. Há um déficit habitacional no Centro Histórico. Não se pode construir nem ampliar [determinados prédios tombados] por conta da legislação. É importante falar do patrimônio humano, as pessoas que fazem a história fluir. Não é só pedra e cal. Só assim se dá vida ao Centro Histórico. Sem o elemento humano não há vida, que dirá preservação, manutenção desse patrimônio. O principal fator é estabelecer nesse projeto essa perspectiva de tanto crescer em matéria econômica, com o desenvolvimento do turismo, que é a terceira maior indústria do mundo, mas preservando seus moradores”, afirmou.

[textinho nosso originalmente publicado na revista CartaCapital, edição nº. 1.061]

A Jamaica brasileira invade a Pauliceia

Cultura da radiola terá destaque na Virada Cultural, em São Paulo. Duo Criolina e convidados farão 12 horas celebrando ritmos jamaicanos e maranhenses.

Pouco tempo depois de inventado na Jamaica o reggae se consolidou como preferência popular no Maranhão. Não à toa a capital São Luís recebeu a alcunha de Jamaica brasileira. O gênero musical e seu principal porto brasileiro serão lembrados durante a programação da Virada Cultural, em São Paulo, entre os dias 18 e 19 de maio. Num palco comandado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, o reggae à maranhense comparecerá, com as presenças do poeta Celso Borges, dos djs Otávio Rodrigues, Joaquim Zion e Vanessa Serra e da atriz Áurea Maranhão.

Ano passado a Semana Internacional da Música (SIM-São Paulo) levou representantes maranhenses para uma noite, também numa parceria com o Festival BR-135, organizado pelo duo Criolina. Desta vez serão 12 horas de reggae, entre às 18h de sábado até às 6h de domingo, celebrando a cultura da radiola – lá fora conhecida como sound system –, muito difundida no Maranhão.

O duo Criolina. Foto: Layla Razzo

Representando o Maranhão, “Criolina, Radiola e convidados” será uma das festas de rua que acontecerão durante a Virada Cultural. As demais irão representar algum aspecto cultural dos estados da Bahia, Pará e Rio de Janeiro. “A Virada é o maior evento cultural do planeta, um festival com 24h de programação, gratuito e além de ocupar as ruas, conta com programação em centros culturais das periferias, as unidades do Sesc, teatros da cidade e vários equipamentos culturais. É ótima e uma boa desculpa para ocupar as ruas com arte, sair de casa e afirmar a nossa cultura como expressão popular e cidadã”, advoga a cantora Luciana Simões.

“Diminuíram consideravelmente os recursos nacionais para a cultura e justamente por ser um espaço de fomento devemos estar presentes e resistentes. A proposta de colocar o Maranhão no mapa também segue como uma grande bandeira pra nós. Eu acho que o espaço oferecido ao Criolina é um reconhecimento ao Maranhão, e uma ótima oportunidade para se mostrar a cena reggae, que é uma forte cena de rua, representativa e que causa bastante curiosidade”, pondera Alê Muniz, seu companheiro de Criolina.

Joaquim Zion também comenta o interesse dos paulistanos pela cultura reggae, mas aponta algumas diferenças entre as cenas. “A cultura reggae é bem forte em  São Paulo. Já há alguns anos vem crescendo a cultura sound system, que é um pouco diferente do estilo Inna Maranhão das radiolas daqui, porque lá eles tocam com radiolas, DJs e MCs rimando nas bases e o estilo basicamente é ragga, enquanto aqui o nosso lance é one drop, lovers rock, essa batida que chamamos para dançar agarrado a dois. Mas a mensagem é a mesma”, pontua. Ele comenta também sua expectativa: “é máxima pra gente, e o público pode esperar um grande set de hits, clássicos e raridades que fazem parte do imaginário do regueiro do Maranhão. São Paulo tem muitos maranhenses e tenho certeza que será uma grande festa”, promete.

O jornalista e dj Otávio Rodrigues diante de uma radiola. Foto: divulgação

Alcunhado Doctor Reggae, o jornalista e dj paulista Otávio Rodrigues ajudou a difundir o reggae no Brasil e consolidar São Luís como uma de suas principais praças, quando morou na cidade, na década de 1990. “Minha relação com o Maranhão é orgânica, me sinto como se tivesse nascido aí também. Morei na Ilha, viajei bastante pelo interior, fosse em busca de manifestações folclóricas, paisagens ou reggae – ou as três coisas juntas”, lembra.

Ele discotecará e dividirá o palco com o poeta Celso Borges; juntos, apresentam o espetáculo Poesia Dub, em que misturam poesia, com elementos de música jamaicana e da cultura popular do Maranhão. “No Poesia Dub, eu e Celso resgataremos algumas gemas do nosso repertório, como Morto vivo, Matadouro, Bumba meu dub e Linguagem [lista títulos de poemas apresentados no formato], e também mostraremos coisas novas, algumas com participação de Gerson da Conceição, gravadas pouco antes de sua súbita partida”, anuncia, lembrando o amigo baixista que se somava à trupe, recém-falecido.

O poeta Celso Borges. Foto: Layla Razzo

O poeta Celso Borges relembra as origens do espetáculo: “Eu costumo dizer que eu tenho dois santos em minha vida: São Luís e São Paulo. Cidades que estão entranhadas na minha alma, no meu coração. Morei 20 anos na Pauliceia. Aquela cidade, o tempo que eu morei lá, foi um tempo de muita alegria, de muita celebração, encontros com muitas pessoas, muitos artistas, fiz muitas amizades, tive diálogos maravilhosos com poetas, compositores, letristas. E foi ali também que eu, junto com Otávio, desenvolvi o Poesia Dub, a partir de 2004, 2005. É uma alegria enorme poder voltar a São Paulo e voltar fazendo uma nova apresentação do Poesia Dub. Vai ser uma grande celebração, estou muito animado”. O espetáculo é composto por poemas de Celso Borges, com citações de obras de Torquato Neto, Allen Ginsberg, um poema de Bandeira Tribuzi, e trilhas de Otávio Rodrigues.

“Na marcação de baixo poderosa que ele fazia, ele fazia também os vocais, a gente vai usar bases gravadas dele, e vou ler uma parceria nossa”, antecipa a homenagem a Gerson da Conceição, que estaria no palco com eles.

A estrutura do palco maranhense incluirá uma radiola de sete metros de largura, que tocará reggae, ritmos caribenhos e os gêneros musicais que permeiam a cultura popular do Maranhão, com destaque para o bumba meu boi e o tambor de crioula. A dj Vanessa Serra, que também esteve na Sim-SP, anuncia seu set list, reverenciando grandes nomes: “Vou levar um set com hits da música jamaicana e maranhense, que ouvíamos nas festas, nas rodas de violão e nas rádios de São Luís. Expoentes como o som de Nonato e Seu Conjunto, Humberto de Maracanã, Nicéas Drumont, Betto Pereira, Papete, João do Vale, Jacob Miller, Eric Donaldson e Beto Douglas não vão faltar”.

“Radiola e tambor de crioula são duas coisas que não podem faltar numa autêntica festa maranhense. Muito mais do que minha opinião, esse é o testemunho de alguém que já viu festejos no Maranhão de ponta a ponta: onde quer que se vá, na hora de celebrar tem de ter radiola e tambor”, finaliza Otávio Rodrigues.

Serviço

O palco maranhense fica na Rua Cásper Líbero (ao lado da Igreja de Santa Efigênia). Os shows são gratuitos. Conheça os horários das apresentações:

18h – Criolina + Luh Del Fuego
19h – Vanessa Serra
20h – Poesia Dub
21h – Joaquim Zion
22h – Otávio Rodrigues
23h – Criolina + Luh Del Fuego
0h – Vanessa Serra
1h – Poesia Dub
2h – Joaquim Zion
3h – Otávio Rodrigues
4h – Criolina + Luh Del Fuego
5h – Vanessa Serra.

Antes das apresentações do Poesia Dub e Criolina haverá performances da atriz Áurea Maranhão.

Jornalista Zema Ribeiro celebra 15 anos na blogosfera

[release]

Blogue Homem de vícios antigos tem a cultura como principal pauta. Mesa redonda e festa marcam comemoração.

Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros em Marémemória, encenada pelo Laborarte em 1973, baseada no livro-poema homônimo de José Chagas. A foto de Murilo Santos tornou-se marca do blogue

O blogue Homem de vícios antigos, majoritariamente dedicado a pautas culturais, editado pelo jornalista Zema Ribeiro, completou 15 anos no ar em abril. Para celebrar a data estão programadas uma mesa-redonda e uma festa, que acontecerão no próximo dia 11 de maio (sábado, véspera do Dia das Mães).

“Iniciei o blogue como um exercício, assim que entrei na faculdade. Era um espaço de divulgar agendas de artistas amigos, depois evoluiu, se profissionalizou. Acabou virando literalmente um vício”, conta Zema Ribeiro, que tem 15 anos de profissão, tendo atuado principalmente em jornalismo cultural e assessorias de organizações de direitos humanos.

Além de editar o blogue, Zema Ribeiro atualmente apresenta, na Rádio Timbira AM, os programas Balaio Cultural (com Gisa Franco, aos sábados, de meio-dia às 14h) e Radioletra (com Suzana Santos, aos sábados, às 22h), é colaborador do site de jornalismo musical Farofafá e diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem). Sua trajetória profissional é marcada também por colaborações com todos os jornais de São Luís, além das revistas Top (São Luís), Overmundo (Rio de Janeiro) e Brazuca (França, bilíngue). O jornalista também foi colunista do site do Instituto Itaú Cultural.

Mesa redonda – O bate-papo terá como tema “Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos” e, além do editor do blogue, terá as presenças de Alberto Jr. (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, apresentador do programa Quintal Cultural, na Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (jornalista, editor de cultura da revista CartaCapital e do site Farofafá) e Polyana Amorim (radialista, Mestre em Cultura e Sociedade/UFMA, coordenadora do curso de Comunicação Social do Ceuma).

“Os escafandristas que virão explorar as ruínas da antiquada civilização na qual vivemos atualmente vão encontrar pouca coisa memorável. O blogue do Zema Ribeiro, Homem de vícios antigos, que professa paixão pela obsolescência tecnológica do ferramental que se alimenta do humano – os livros, os discos, o jornalismo –, certamente será um notável resgate. Porque se nutre daquilo que não envelhece jamais: o espírito. A boa música, a boa literatura, a fabulosa história em quadrinhos, a fantástica cultura popular. No presente, todos os microblogs serão famosos durante 15 segundos, mas o macroblogue do Zema já viveu mais do que 15 anos: viveu para sempre”, declarou Jotabê Medeiros.

A mesa redonda acontecerá no auditório do Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro), dia 11 de maio (sábado), às 16h, com entrada franca. Com capacidade para 180 lugares, é necessário se inscrever pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com

Baile de debutante – “Não existe 15 anos sem baile de debutante”, brinca Zema Ribeiro, ao anunciar a festa, que acontecerá no Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados), na mesma data, às 19h, e terá como atrações a dj Vanessa Serra e o Regional Choro da Tralha. O grupo é formado por Gabriela Flor (pandeiro), Gustavo Belan (cavaquinho), João Eudes (violão sete cordas), Chico Neis (violão), João Neto (flauta) e Ronaldo Rodrigues (bandolim).

Ao saber do aniversário, completado no último dia 28 de abril (data, em 2004, da primeira postagem), Vanessa Serra se manifestou em uma rede social: “Parabéns! E viva o Jornalismo feito com amor e seriedade! E umas doses de brilho!”.

“O [blogue] Homem de vícios antigos é, sem dúvida, um espaço onde é possível sentir algum alívio perante a desumanização dos tempos atuais. A começar pelo nome, que logo desperta curiosidade naqueles/as que ainda insistem em manter hábitos quase esquecidos, o blogue desempenha um papel que vai além de trazer informação sobre fatos, produções e atividades culturais e artísticas. Informa, mas também forma, mexe com nossas memórias, provoca, diverte, emociona”, elogia Gabriela Flor.

Chico Neis completa: “Além do visível compromisso com a arte e a cultura, vemos também uma forte presença maranhense, em textos apurados, coerentes e bastante acessíveis, o que não é tarefa fácil – o mais difícil é fazer o simples bem feito. Para resumir: um blogue necessário”.

“Desde que o blogue completou 10 anos a gente vinha pensando em realizar algo, mas nunca dava certo, eu mesmo não dava importância e a coisa não andava. Agora alguns amigos somaram, se doaram e a ideia deixou a cabeça e ganhou o Centro Cultural, o Chico Discos, e vai acontecer. Agradeço a todo mundo que embarcou nessa viagem maluca, com destaque para o amigo Otávio Costa, um leitor fiel do Homem de vícios antigos”, agradece Zema Ribeiro.

“Vanessa Serra é uma das djs mais requisitadas do cenário ludovicense e das rodas dominicais do Choro da Tralha, no sebo Feira da Tralha, que acabou por emprestar nome ao grupo, virei habitué. É uma enorme honra contar com suas presenças na festa, além dos amigos que, à tarde, estarão na mesa, meu professor Jotabê, um ídolo que virou amigo, e os amigos Alberto e Polyana, certamente teremos dois momentos com um nível excelente, sem falsa modéstia”, continua. “Todos eles, de algum modo, fazem parte da história do blogue, desses 15 anos de trajetória”, arremata.

SERVIÇO

15 ANOS DO BLOGUE HOMEM DE VÍCIOS ANTIGOS

Mesa redonda

Uma experiência de jornalismo cultural no Maranhão: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Zema Ribeiro, Alberto Jr. (Rádio Timbira AM), Jotabê Medeiros (CartaCapital, Farofafá) e Polyana Amorim (Ceuma).

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 16h.

Onde: Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro).

Quanto: grátis. Inscrições pelo e-mail zemaribeiro@gmail.com (capacidade do auditório: 180 lugares).

Festa

Baile de debutante: 15 anos do blogue Homem de vícios antigos. Com Regional Choro da Tralha e dj Vanessa Serra.

Quando: dia 11 de maio (sábado), às 19h.

Onde: Chico Discos (Rua de São João, 289-A, Altos, Centro, esquina com Afogados).

Quanto: R$ 20,00 (capacidade do bar: 50 pessoas).

Lição

Foto: Gilson Teixeira

 

Em abril de 2016, na sessão da Câmara dos Deputados que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) dedicou seu voto à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, seu ídolo. O pesselista não sofreu nenhuma sanção por quebra de decoro e pouco mais de dois anos depois, em uma campanha baseada em fake news e no elogio à violência, tornou-se presidente da república, eleito pelo voto popular.

O deputado federal Márcio Jerry (PCdoB) apresentou recentemente projeto de lei (PL 1798/2019) que criminaliza a apologia ao retorno da ditadura militar, tortura ou pregação de rupturas institucionais. Um passo importante em um país que, ao contrário dos vizinhos latino-americanos, para ficarmos em exemplos mais próximos, não acertou suas contas com o passado: agentes da repressão envelhecem tranquilamente sem nenhuma punição, sequer no campo simbólico.

Um ato realizado ontem (30) no Memorial Maria Aragão, na praça homônima, prestou homenagens à médica que dá nome ao logradouro, ao poeta, jornalista e economista Bandeira Tribuzi e a Manoel da Conceição. O governador Flávio Dino assinou um projeto de lei que concede pensão especial ao líder camponês, vítima da ditadura militar.

O compositor Cesar Teixeira cantou Oração latina, de sua autoria, verdadeiro hino de movimentos sociais maranhenses, cujos versos “com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar/ ninguém vai ser torturado com vontade de lutar” foram cantados a plenos pulmões, enquanto os presentes agitavam bandeiras e rosas brancas.

“Em nosso governo, todos os dias, temos procurado reparar injustiças. Essa é uma reparação ínfima, diante do que Mané sofreu”, afirmou o governador, referindo-se às torturas sofridas por Manoel da Conceição, que teve um prego martelado no pênis e perdeu uma perna em decorrência de uma gangrena ocasionada por tiros, não tendo o atendimento médico sido realizado em tempo hábil. Parece cruel descrever sua tortura, mas é um exercício necessário: lembrar, para que nunca mais aconteça.

Gabriela Campos, neta de Bandeira Tribuzi, relatou casos de familiares que sofreram com a ditadura. Sua mãe nasceu prematura, pois sua avó foi vítima de violência durante o estado de exceção. A revelação contraria o falacioso argumento da direita que elege torturadores como ídolos, de que a ditadura militar brasileira só “mexia” em quem “fez algo errado”.

O advogado Mário Macieira, ex-presidente da OAB/MA, neto de Maria Aragão, celebrou: “é bastante simbólico que este ato esteja sendo realizado em uma praça com o nome de Maria Aragão, que combateu a ditadura militar, e não com o nome de um general, de um torturador”. Cabe lembrar que o projeto arquitetônico da praça é de Oscar Niemeyer, outro respeitado comunista.

“Aqui no Maranhão não se celebra ditadura, não se exalta torturador”, afirmou Flávio Dino em meio a palavras de ordem do público: “Manoel, guerreiro do povo brasileiro!” e “Lula livre!” foram as mais ouvidas. “É contraditório que alguém democraticamente eleito faça apologia a um regime que cassou mandatos e fechou o congresso nacional”, continuou.

“Quais os pecados de Bandeira Tribuzi, de Manoel da Conceição e de Maria Aragão?”, perguntou Flávio Dino. Ele mesmo respondeu: “Bandeira Tribuzi compôs o hino de São Luís [Louvação a São Luís, no ato interpretado por Serginho Carvalho], que fala nos “claros sóis da liberdade”; Manoel da Conceição queria que os trabalhadores do glorioso Vale do Pindaré se organizassem e tivessem acesso a terra; e Maria Aragão, uma médica que não enricou, atendia mulheres humildes sem cobrar nada e reunia a juventude na sala de sua casa para realizar cursos de formação política. Percorro mentalmente os códigos de processo penal de hoje e da época e não encontro o crime. Não há crime! O crime está na cabeça de quem não aceita quem pensa diferente”, finalizou.

O Maranhão deu ontem mais um belo exemplo ao Brasil. Mirem-se!

A repórter e a cidade

Cidade espanto. Capa. Reprodução

 

Impressiona a maturidade e o pleno domínio da linguagem de Clarissa Carramilo em seu romance de estreia, Cidade espanto [Editora Oito e Meio, 2018, 94 p., R$ 36,00]. A escritora prova já ter nascido pronta, presenteando os leitores com um enredo bem urdido, em que várias tramas se cruzam, sem perder a mão ou exagerar.

O título refere-se ao fato de a cidade de São Luís ser personagem – o parágrafo inicial, por exemplo, dialoga diretamente com o de O mulato (1881), de Aluízio Azevedo.

“Os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção”, adverte a autora, como de praxe, mas ficção e realidade convivem na escrita ousada da autora, que mete o dedo em diversas feridas abertas, bastante conhecidas pelos que habitam a capital maranhense – mas que, no entanto, não tornam a leitura mais difícil ou menos desagradável para gente de outras plagas.

Clarissa Carramilo se vale de suas experiências profissionais para inventar personagens – ou apropriar-se delas –, inclusive a cidade de São Luís.

Antonela Azevedo, a protagonista, um alter ego da autora, é repórter destemida, que deixa claro de que lado está, sem tornar sua literatura algo panfletária: comprometida com a defesa dos direitos humanos, contrária ao golpe político-jurídico-midiático que destituiu do poder a presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff, que ousa peitar os patrões pelas coisas e causas que acredita.

Jornalista de formação, a escritora tira onda com a própria profissão, apontando contradições aparentes que acabaram naturalizadas com o tempo: chefes que conhecem menos o ofício que seus subordinados, a ditadura dos textos curtos (pois leitor de internet só curte textão em treta de rede social), a interferência da ideologia dos patrões (os donos dos veículos) sobre a redação final, jornalistas que não leem, além das relações com a ansiedade e o álcool.

A autora equilibra-se ainda entre o thriller, cada capítulo batizado por uma mulher são os bastidores das pautas em que Antonela Azevedo se envolve, enredando também o leitor, e histórias de amor, contadas ou vividas.

Serviço

Autora e obra em uma das paisagens do romance. Foto: divulgação

Clarissa Carramilo lança Cidade espanto amanhã (5), às 19h, na Livraria Leitura (São Luís Shopping). A noite de autógrafos contará com bate-papo da autora com a escritora Camila Chaves e a jornalista Bruna Castelo Branco. A obra foi selecionada pelo Edital de Apoio a Publicação de Obras Literárias da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

Por dentro do boi, para além do espetáculo

Nas entranhas do bumba meu boi. Capa. Reprodução

 

Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018, 112 p.; R$ 25,00, à venda na Banca do Dácio (Estacionamento da Praia Grande) e na Feira da Tralha (Edifício Colonial, próximo ao Teatro Arthur Azevedo)] é justamente o que o título anuncia: um mergulho visceral nos bastidores de um dos mais tradicionais grupamentos da manifestação cultural: o Boi da Liberdade (ou de Leonardo).

Publicado com apoio da Fapema, o livro é a dissertação de mestrado da autora, Marla Silveira, em Cultura e Sociedade, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Um texto leve, agradável e em certas passagens bem humorado, para ser lido dentro e fora do ambiente acadêmico, por interessados, apaixonados e curiosos em geral.

Além do próprio convívio da pesquisadora com o grupo ao longo de vários anos, Marla se vale de teóricos da cultura popular – destaque para a saudosa Maria Michol Pinho de Carvalho – e da administração para compreender as dificuldades e estratégias para “botar o boi na rua”, suas relações com o sagrado e com instituições públicas e privadas, mantendo-se fiel às tradições, num tempo em que a “modernização”, para inglês ver, é quase uma exigência.

O Boi de Leonardo (ou da Liberdade) foi fundado em 1956, como pagamento de uma promessa de seu fundador a São João. É do sotaque de zabumba ou Guimarães, município litorâneo de origem do mais antigo dos sotaques de bumba meu boi.

A herdeira – e atual ama do boi – Cláudia Regina Avelar, quinta filha de Leonardo Martins dos Santos (1921-2004), acompanhou os passos da manifestação desde a infância, mas de longe. Nunca havia dançado no boi ou no Tambor de Crioula Poderoso Padroeiro (a outra manifestação que integra esta Sociedade Junina).

Com a morte de seu fundador, ela assumiu a direção, num processo cheio de percalços. Não faltou quem a acusasse de “salto alto”, de prever que ela acabaria com o que o pai construiu ou mesmo que estava ali apenas para ganhar dinheiro. Nas entranhas do bumba meu boi é também uma história de empoderamento feminino e superação de preconceitos.

O livro de Marla demonstra também que o Boi de Leonardo é um dos mais organizados do Maranhão, apto a receber e movimentar recursos públicos de qualquer esfera – é Ponto de Cultura, através de convênio firmado com o Ministério da Cultura (MinC) –, servindo de exemplo a outros grupos, sobretudo de um sotaque erroneamente tido como menos importante, já que supostamente menos atrativo a turistas.

Entre uma visão mais “conservadora”, “dos tempos de Leonardo”, quando o boi era mais fechado com base na opinião “dos antigos”, e a atual, que dialoga com ferramentas da modernidade e com a juventude, o reconhecimento do esforço de se manter viva uma tradição, da qual muitas vezes conhecemos apenas uma nesga que descortinamos por entre 40 minutos e uma hora – tempo médio de uma apresentação num arraial.

Serviço

O pré-lançamento de Nas entranhas do bumba meu boi acontece hoje (31, sábado de aleluia), às 22h, no Ponto de Cultura Boi de Leonardo (Rua Alberto de Oliveira, 150, Liberdade).

O lançamento acontece dia 4 de maio, às 19h, durante a reinauguração do Memorial Cristo Rei (Praça Gonçalves Dias, Centro).

O embaixador

Foto: Rose Panet

 

Radicado há mais de três décadas em São Paulo, onde mantém as tradições maranhenses com o Bumba meu boi de Cupuaçu, no Morro do Querosene, o que lhe ensejou o merecido título de cidadão paulistano, outorgado há alguns anos pela Câmara Municipal da capital paulista, Tião Carvalho, maranhense de Cururupu, subiu ao palco do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), ontem (23), para um show em que passeou por repertório autoral e clássicos de autores maranhenses.

“Muito obrigado pela presença de todos vocês”, agradeceu Tião, reafirmando o prazer de cantar no Maranhão, para maranhenses, após abrir sua apresentação com Dona tá reclamando (Domingos Minguinho), gravada pelo Cupuaçu em Toadas de bumba meu boi [Núcleo Contemporâneo, 2000].

Tião estica sua presença na ilha: ele veio participar do desfile do bloco Bota pra moer, na segunda-feira gorda de carnaval (12), capitaneado pelo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, em cujo Radiola em transe, disco mais recente da dupla, sua A menina do salão dialoga com A mulher mais bonita do mundo (Tião Carvalho), lançada por Tião em seu solo de estreia, Quando dorme Alcântara [Por do Som, 2003], também presente ao repertório de ontem. Além de ontem no Buriteco, ele anunciou nova apresentação na próxima sexta (2 de março), às 22h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro).

Quando cantou De Teresina a São Luís (João do Vale e Helena Gonzaga), a flauta de Zezé Alves puxou O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos) como incidental. O flautista deixou seu microfone às pressas para salvar o óculos – que Tião Carvalho carregou mas não usou durante o show –, de ser pisado, enquanto o músico trocava o cavaquinho pelo triângulo.

A banda se completava com João Simas, que tocava sua guitarra com as pernas em posição de lótus na cadeira, a gaúcha Mariele Costa (percussão) e Erivaldo Gomes (percussão) – este o único abrigado ao lado de Tião no pequeno tablado do Buriteco.

Com um disco inteiramente dedicado à obra de João do Vale [Tião Canta João, Por do Som, 2006], o pedreirense foi dos mais presentes ao set list da noite: Baião de viola (João do Vale e Flora Matos) evoca as belezas (e de forma poética as misérias) de sua cidade natal, trazendo em si a típica sabedoria que lhe valeu o epíteto de “poeta do povo”.

Quando cantou a toada Itamirim (Chico Saldanha), Tião lembrou-se que foi ele quem gravou a música no elepê de estreia de Chico Saldanha, de 1988. “Se não me engano é Itamirim o nome do elepê”. O disco leva apenas o nome do compositor, mas o equívoco é compreensível: a última faixa do lado A foi o maior êxito do disco e é, até hoje, um dos maiores da carreira do rosariense.

Tião cantava e contava histórias: o samba Pantanal (Tião Carvalho) alude a um bar que frequentava, e Canção de ninar (Tião Carvalho), que começa como anuncia o título e torna-se um samba, foi feita para sua filha, “quando ainda estava na barriga”.

Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça), com seu refrão envolvente, botou o público para acompanhar nas palmas, um dos grandes momentos do show – não foram poucos. Quando dorme Alcântara (Tião Carvalho) evoca outro bar, em São Luís, onde Tião e uma turma iam tocar e à meia noite viam as luzes da cidade, do outro lado da baía, se apagarem, quando o gerador era desligado, à época. Invariavelmente ouvia-se o comentário: “Alcântara dormiu”. “Com essa música eu participei do último grande festival promovido pela Rede Globo. Estive em três, primeiro acompanhando Giordano Mochel, depois acompanhando Ubiratan Sousa, e por último já com uma música minha”, contou, revelando parte da nobre linhagem artística a que pertence.

Cantou o Fogo de palha de Josias Sobrinho. Quando lembrou que dele havia gravado Dente de ouro em Quando dorme Alcântara – à venda ontem, bem como Tião canta João –, o público pediu o clássico. “Não estava no roteiro, mas nós vamos ter que fazer”, nem Tião nem a banda titubearam e o público cantou junto.

De sua irmã Ana Maria Carvalho, parceira do Boi de Cupuaçu, trouxe Até a lua, que emendou com Lua cheia (Bulcão e Godão), clássico de outro boizinho, o Barrica. O passeio musical de Tião foi até Cajapió (Erivaldo Gomes). Na sequência atacou com um medley de inéditas: Coco da minha sinhá (Tião Carvalho) e Coco das meninas (Graça Reis).

“Vamos fazer a saideira, lembrando essa figura que foi muito importante pra minha carreira, é pra mim uma espécie de madrinha musical. Todas as gravações que ela fez dessa música”, começou, referindo-se a Cássia Eller, que popularizou o samba Nós (Tião Carvalho).

Aos insistentes pedidos de “mais um”, Tião virou-se para a banda, sinalizando que atenderia. A noite foi fechada com um medley de João do Vale: Uricuri (Segredos do sertanejo) e Carcará, ambas em parceria com José Cândido.

Embaixador da cultura popular do Maranhão em São Paulo, onde vive, e por onde andar, ontem Tião Carvalho contrariou o dito popular: santo de casa faz milagre, era o que atestavam os rostos satisfeitos do público, mesmo a parte que ficou em pé, na calçada, do lado de fora do Buriteco.

Rita Benneditto: uma artista em constante reinvenção

Foto: Márcio Vasconcelos

 

O público maranhense tem reencontro marcado com Rita Benneditto na próxima sexta-feira (8), aniversário de São Luís, ocasião em que a artista fará um show dentro da programação do Governo do Maranhão pelos 405 anos da capital. Ela sobe ao palco do Espigão Costeiro da Ponta d’Areia às 21h.

Como seu conterrâneo Zeca Baleiro, Rita também está completando 20 anos de carreira fonográfica em 2017: seu primeiro disco foi lançado em 1997, com produção dele e Mário Manga (ex-Premeditando o Breque), e repertório que incluía Antonio Vieira, Carlos Careqa, Márcio Greyck e Vital Farias, entre outros.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, por telefone, ela comentou o repertório do show, o início da carreira, influências, a importância do Maranhão em seu fazer artístico, as parcerias com Jussara Silveira e Teresa Cristina, novos projetos, a mudança de nome artístico e, assunto inevitável nestes tristes tempos, política.

Foto: Marcos Morteira

Você é uma das artistas maranhenses mais bem sucedidas nacionalmente, ao lado de Alcione e Zeca Baleiro, mas por outro lado faz poucos shows por aqui. A que você acha que se deve essa ausência e qual a sensação de reencontrar o público maranhense numa ocasião como o aniversário da capital do estado?
Eu lamento muito que eu vá muito pouco a São Luís, que é a minha terra. Eu acabo tendo que concordar quando muita gente diz que santo de casa não faz milagre [risos]. Eu gostaria de ir sempre, uma ou duas vezes por ano, no calendário de festas de São Luís. É meu porto seguro, é o lugar onde eu comecei, são minhas referências, onde eu formatei toda minha história. Eu tenho um trabalho de pesquisa muito grande com a cultura popular brasileira, e especialmente a cultura do Maranhão. Eu sempre digo em qualquer lugar onde eu vou, que o Maranhão, junto com Pernambuco e Bahia, é a tríade máxima do Nordeste e da cultura. É o alicerce, por que as tribos africanas, o povo africano, o povo que se deslocou para essas regiões, o povo negro e ameríndio, tem um poder muito grande, concentrou um poder muito grande e estabeleceu uma cultura muito forte. Mas geograficamente o Maranhão se prejudica um pouco, por que não está muito próximo desses eixos aqui onde as coisas normalmente funcionam mais. Eu lamento muito que eu não consiga. Quando eu vou eu tento fazer um show no teatro, as pessoas acabam nem indo, meu ingresso custa 80, 60 reais, elas querem pagar 400 reais num desses caras aí. O Nordeste tem uma cultura popularesca muito grande, um consumo de sofrência e popozão [risos], eu não tenho como questionar, eu tenho um trabalho específico. Eu lamento que eu vá muito pouco a São Luís, eu me ressinto disso, mas tá tudo bem, a gente quando vai, vai feliz. Minha expectativa, sempre que eu vou, é maravilhosa, por que eu vou encontrar o público maranhense, eu vou fazer o melhor de mim cantando coisas minhas, coisas da minha terra, ainda mais quando é uma festa tão especial como o aniversário da cidade, por que concentra um número maior de pessoas, é público, é de graça, de graça entre aspas, por que nós pagamos impostos [risos].

Falando nisso, o que o público pode esperar em termos de repertório? Que banda te acompanha? Fale um pouco do show.
Na verdade eu tou com uma banda agora um pouco reduzida, um trio, power trio mesmo, bateria, baixo e guitarra. É o Ronaldo Silva, que é filho do Robertinho Silva, que é um grande músico, percussionista, baterista, o Pedro Dantas, que é meio maranhense, carioca, foi criado aí no Maranhão, é baixista, toca hoje com a Lucy Alves, com a Vanessa da Mata, garoto novo e muito bom, e o Fred Ferreira, que é guitarrista aqui do Rio de Janeiro, está comigo já há um tempão, faz a direção. Eu reuni na verdade músicas de vários de meus trabalhos, não dá para fazer tudo, é apenas um show, tem outras atrações, o espaço dos shows serão divididos entre as pessoas que vão se apresentar [além dela sobem ao palco Carlos Gomes, Cláudio Fontana, Criolina e Tom Cléber]. Eu reuni canções de meus discos anteriores, Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, Divino, que é meu com Zeca Baleiro, tem De mina, de Josias Sobrinho. Eu quero cantar Ilha bela, tem um tempão que eu tenho vontade de cantar, que é do Carlinhos Veloz e ele faz uma homenagem linda a São Luís do Maranhão, Tambor de crioula, de Oberdan e Cleto Jr., as coisas do Tecnomacumba, que todo mundo curte e gosta, Cavaleiro de aruanda, Moça bonita, Deusa dos orixás, estou pensando em fazer um reggae mais clássico, o Police and thieves, que foi um dos primeiros reggaes que eu ouvi, do Junior Murvin, quando eu morava na Cohab. Eu reuni várias coisas, quero fazer um show dançante, a gente vai estar na rua, na beira da praia, quero fazer uma festa bem legal. Vai ter reggae, vai ter macumba [risos], vai ter balada. Eu espero agradar meu público maranhense, eu não tenho o que dizer, nem reclamar, eu me sinto muito bem recebida pelo público do Maranhão. Mesmo indo pouco aí eu sei que as pessoas gostam de meu trabalho e a gente tem que ir na luta, fazendo, trabalhando, sempre com amor e alegria.

Tua carreira começa colada com Zeca Baleiro, vocês lançam os discos de estreia juntos, o teu primeiro produzido por ele com o Mário Manga, mas passado algum tempo vocês se descolam. Foi um processo natural esse afastamento? Ou é um afastamento só ilusório, vocês não se afastaram? Como é essa relação, hoje?
A gente ficou muitos anos muito juntos, unha e carne. Eu sempre digo que eu sou a voz das canções de Zeca Baleiro [risos], e que ele é meu compositor, por que a gente tem realmente uma afinidade musical muito grande e também afetiva, nós somos do mesmo estado, a gente cresceu em São Luís. Eu acabei indo pra São Paulo, depois acabei convencendo-o a ir a São Paulo para morar, ele foi quem dirigiu meu primeiro show no Maranhão, o Cunhã, depois quando ele foi pra São Paulo ele acabou participando junto com Mário Manga da direção do meu primeiro disco. É uma pessoa extremamente presente no meu trabalho e eu tenho muito orgulho disso. Mas o tempo e o fato de ele ter ficado em São Paulo e eu ter vindo morar no Rio, isso naturalmente afastou a gente, afastou bastante. A gente tem pouco contato, porém, sempre que a gente tem contato é sempre amoroso, é sempre com afeto e boa memória das coisas. Agora mesmo ele me convidou para participar aqui de uma noite de forró que teve na Fundição Progresso. Foi ótimo nosso reencontro, a gente cantou várias músicas juntos. Sempre que a gente pode estar junto, a gente está, mas não mais como era antigamente, aquela coisa bastante presente e constante como era no período em que a gente se conheceu e no período em que eu morei em São Paulo. Acho que é natural, ninguém se perdeu, mas ninguém está mais tão próximo, a vida vai seguindo, a gente com ela, e as coisas vão mudando naturalmente. Mas eu tenho muito amor e muito respeito a Zeca, ao trabalho dele e tudo o que a gente viveu junto.

Ele acabou de lançar um álbum digital de duetos iniciando as comemorações de 20 anos de carreira, que é uma marca que você também atinge agora em 2017, do ponto de vista fonográfico. Vocês já tinham carreiras antes, mas o marco que se considera para efeito de comemoração, como ele me disse em uma entrevista, é o lançamento do primeiro disco. Você está preparando algum trabalho específico para celebrar este marco?

Encanto. Capa. Reprodução

Pra te falar a verdade eu nunca fiquei muito ligada nessa coisa de tempo. Tempo no sentido “ah, 25 disso, 30 daquilo”, acho que o tempo é muito relativo em relação a isso. Eu não gosto de demarcar esse tipo de tempo pro meu trabalho, tudo é tão cíclico, tão permanente e impermanente, que eu prefiro ir fazendo as coisas. Como hoje as mídias mudaram muito, os discos físicos quase não vendem, a gente está tendo que se desdobrar em formas de lançamento. Eu sempre tive como ponto forte de meus trabalhos os meus shows, os meus projetos. Por exemplo o projeto Tecnomacumba começou sem disco nenhum, só depois de três anos lançado que eu fui gravar o primeiro registro dele em estúdio. Ele durou 12 anos em cartaz, muito em consequência dos shows que eu fiz. Eu estou muito mais envolvida com os shows, os projetos de shows, do que necessariamente os registros disso, o disco. A produção é muito alta e acaba não tendo retorno do investimento. Mas a gente tem que estar lançando, sempre. Eu estou optando por lançamentos pequenos, de EPs ou single, não necessariamente um disco de 14 músicas. Estou com dois projetos agora em cartaz, o Zabumba Beat, que eu estreei aqui em São Paulo em agosto, que é uma reverência aos tambores do Brasil, de norte a sul, especialmente a zabumba, que é um instrumento africano que está presente em vários ritmos brasileiros, especialmente os ritmos do xote, forró, que junto com a sanfona e o triângulo formam a trindade máxima das festas juninas do brasil. Zaumba Beat por que de novo eu estou explorando os timbres eletrônicos, as possibilidades todas que a tecnologia pode nos dar, ressaltar o som original dos tambores, os couros verdadeiros, grandes, ancestrais. É um show que deu megacerto, além do Ronaldinho Silva eu chamei o Donatinho, que é o filho do João Donato para fazer toda a parte eletrônica, dos sintetizadores. E paralelo a isso eu também estou com um projeto chamado Suburbano Coração, que é totalmente diferente, sou eu e o maestro Jaime Alem, que foi maestro de Maria Bethânia durante muitos anos. A gente sempre quis estar junto, sempre quis fazer um trabalho nosso, e a gente se juntou em voz e violão, viola, são instrumentos de cordas. A gente estreou no circuito Sesi, agora está indo pra São Paulo, está começando a rodar. São dois projetos que eu estou bastante envolvida no momento. Paralelo a isso eu continuo fazendo o que eu hoje chamo de Tecnomacumba Encantada, por que eu juntei o Tecnomacumba com o Encanto, estou fazendo este show com os dois discos de carreira misturados.

Adorei os nomes dos projetos, Suburbano Coração e principalmente Zabumba Beat.
Eu abro o projeto com Urrou, de Coxinho, uma vinheta, depois engato ele no Mimoso, de Ronald Pinheiro. Eu vou costurando, minha ideia é ressaltar os ritmos. Mesmo que eu escolha músicas tradicionais, como músicas de Luiz Gonzaga, ou João do Vale, Coroné Antonio Bento, a ideia é ressaltar os ritmos brasileiros onde a zabumba é muito presente. Estou tentando com isso destacar mais a ritmia do Maranhão. As pessoas conhecem pouco a ritmia do Maranhão, por que o compasso do Maranhão é diferenciado do resto do país. Enquanto todo mundo trabalha em quatro por quatro, no Maranhão a gente trabalha em três [risos]. Todos os ritmos são ímpares, o tambor de mina, o divino, as pessoas talvez tenham dificuldade em assimilar um pouco isso. Parece besteira mas não é. Tem De mina, que é uma música que eu gravei no Encanto, de Josias Sobrinho, eu quis destacar justamente o ritmo do tambor de mina, mas eu gravei num gênero que é extremamente atemporal, que é o rock. Por que tudo é rock! Destacar isso de uma maneira sem perder o valor do ritmo, sem perder a força da mina, por que é tão rica a nossa ritmia do Maranhão, que eu não sei nem te dizer quanto. Então eu quero nesse Zabumba Beat destacar mais ainda o tambor de crioula, o boi de zabumba, aquele ritmo alucinante do sotaque de zabumba, de Pindaré, de uma maneira que possa chegar a todos os lugares do mundo. Não tou preocupada em ser purista, nem quero destruir o que é original, e o que é a célula mãe. Eu quero apenas destacar a ritmia do nosso estado que é fantástica.

O nome inevitavelmente me lembrou o Bumba Beat de Otávio Rodrigues, eu não sei se você lembra do programa de rádio.
Sim, eu me lembro. Me lembro muito disso, do Doctor Reggae e o Bumba Beat dele. Eu não podia botar Bumba Beat por que já tinha marca registrada.

Falar em marca registrada, você mudou o nome, há cinco anos, de Rita Ribeiro para Rita Benneditto, com dois n e dois t. Como é que você avalia essa mudança hoje, passados estes anos. Mudou algo na própria Rita ou foi só o nome artístico mesmo?
Menino, eu já assimilei, graças a Deus, muito rápido.

O público também, não?
Muita gente do Brasil, de vários lugares, ainda me conhece por Rita Ribeiro. Eu não entrei em nenhuma paranoia por isso. Eu não fiquei neurótica, nem reclamando. Me chamam de Rita Ribeiro, eu digo “olha, agora mudou”, na boa. Acho que tem tempo para ser assimilado. Acho que o que me deu muita força, me respaldou muito na mudança de nome foi descobrir que eu não tinha um público qualquer, eu tenho um público extremamente fiel a meu trabalho. Não é mais nem fã, é fiel mesmo. As pessoas estavam mais interessadas na minha música, na minha voz, do que necessariamente no fato de eu ter trocado o nome. Tem gente que “ah, eu preferia Ribeiro”, “ah, mas Benneditto tá lindo”. Eu acho maravilhoso, quisera eu há muitos anos já ter pensado nisso, por que é o nome que está dentro da minha história toda, meu pai se chamava Fausto Benedito Ribeiro, eu nasci na cidade de São Benedito do Rio Preto, aí perto dos Lençóis, eu sou devota de São Benedito, o preto velho das almas de angola, que eu reverencio na umbanda brasileira, e Benedito quer dizer abençoado. É um processo realmente lento, eu preciso cada vez mais ir enfatizando, mas já está tão assimilado, muita gente já me chama de Rita Benneditto, muita gente já se identifica, tanto é que meu próximo trabalho, quando eu resolver fazer um disco novo, eu não sei quando, vai ser Benedito seja, o nome.

Você tá ótima de títulos, hein?
[Risos] Ai, que bom! Rita Benneditto, Benedito seja, tem até música. Eu fiz uma brincadeira com um repentezinho com meu nome. Eu sei que é um processo, não foi fácil, construir uma carreira de 20 anos, com Rita Ribeiro e ter que mudar, você tem que ter muita coragem, muita segurança no que faz, e paciência para fazer essa transição. Graças a Deus eu tive tudo isso e depois de cinco anos eu posso dizer que estou cada vez mais Benedito seja.

A gente falou já um pouco de Zeca Baleiro, você citou no repertório que está preparando para o show nomes como Carlinhos Veloz e Erasmo Dibell, e agora nestes novos projetos o Ronald Pinheiro, o Coxinho. Antes de vocês saírem para São Paulo e você migrar para o Rio, aqui você trabalhou com gente como Cesar Teixeira, Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Eu queria que você comentasse um pouco a relação com estes mestres e apontasse outros nomes da música do Maranhão que você admira, respeita, reverencia, enfim, que são importantes para tua formação.
Olha, você já falou tudo. Na verdade esses caras são a minha escola, mesmo. Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira. É uma galera que eu tenho um grande respeito, são grandes mestres mesmo. Sem falar nos outros mestres, que são anteriores a eles, que são Mestre Felipe, Leonardo, Pai Euclides, e tantos outros mestres onde eu bebi na fonte. Eu tenho uma bagagem muito grande de coisas muito boas e ricas do Maranhão. Eu tive que sair da minha terra, infelizmente num período em que a gente não tinha muita opção de viabilização do trabalho local, por que, como eu te falei, geograficamente fica um pouco deslocado e a gente precisa circular. Mesmo o Rio de Janeiro sendo o caos que é, e é realmente um caos, as pessoas têm uma ilusão às vezes que o Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade onde tudo acontece, mas não é tanto assim. O caos impera aqui, é muita gente batalhando por seus espaços, mas é necessário, por que tá tudo muito próximo de tudo. Se você precisa de um contato, de viabilização de alguma coisa, as coisas acontecem, eu não sei te explicar. É uma dinâmica outra, natural, é uma cidade cosmopolita, é uma cidade com uma projeção mundial. Eu trago mesmo comigo, “trago no bolso um colar e uma bola de meia” [cantarola De Cajari pra capital, de Josias Sobrinho], eu trago essa referência muito grande, fica muito claro para o povo daqui o quanto eu sou reverente a estrutura musical da minha terra. A maneira que eu canto, meu canto é muito influenciado por esse compasso que eu te falei. Eu, por exemplo, gravando Encanto, eu gravei Santa Clara clareou, de Jorge Benjor, ela é uma música feita em compasso quatro por quatro, “Santa Clara clareooou” [cantarola], eu transferi pro ritmo da mina, o Benjor pirou, ficou enlouquecido com o arranjo, eu mudei o compasso dela, eu desestruturei para torná-la uma oração dentro do tambor de mina. A mesma coisa eu fiz com Água do Djavan, “água pra encher” [cantarola], que eu trouxe para o universo do divino espírito santo, eu tenho naturalmente uma forma de cantar diferenciada sob influência da ritmia do Maranhão. Por tudo que eu vivi, absorvi, por ter nascido aí, por ter esse negro dentro de mim, o negro maranhense, do Daomé, do Guajajara, por ter essa influência do nosso povo muito naturalmente na minha história. Como disse Itamar Assumpção, que fez uma música pra mim, tá na cara que tá no sangue. Então, esses caras me influenciaram muito, são mestres comprometidos com a palavra, com a poesia, são mestres que têm um compromisso com a história, sem falar nos poetas todos, maranhenses, que são fantásticos. Nossa terra é muito rica. Eu lamento ainda que não tenha havido uma projeção a nível nacional do poder cultural do Maranhão, de uma forma comercial, mercadológica, do nível de Pernambuco e Bahia, só pra dar um exemplo. O Maranhão tem um potencial absurdo, era para ter um calendário de atividades culturais durante o ano, era para ter um carnaval multicultural, um São João multicultural, era para ter um intercâmbio. Isso é só o que eu acho, eu não tenho fórmula para nada. Mas eu acho que a gente já deveria estar num nível, não só eu, Alcione e Zeca Baleiro, mas tantos outros com potencial tão grande quanto o nosso, ou até maior, que possa projetar mais ainda a nossa cultura, tornar o Maranhão mesmo um estado… o norte está se projetando absurdamente, com a referência muito do bumba meu boi do Maranhão, e a guitarrada, o tecnobrega, o norte está bombando no sul do Brasil, não é só o açaí não [risos]. E a gente precisa entender, precisa se unir mais, por que a Bahia funciona? Por que os baianos se juntam para projetar essa história toda pra fora.

Você falou em multiculturalidade e intercâmbio. Em sua carreira você já dividiu discos com Teresa Cristina e Jussara Silveira. Eu queria que você comentasse um pouco as dores e as delícias desses processos.
[risos] Quando a gente começa um projeto a gente tem sempre as expectativas de que ele seja o melhor possível, a gente quer, a gente acredita. As meninas são extremamente talentosas, cada um tem sua carreira. A ideia do projeto é minha, inclusive o nome, Três meninas do Brasil, meu pai tocava muito essa música pra mim, Meninas do Brasil, de Moraes Moreira [e Fausto Nilo], era eu e Teresa, a princípio, a gente acabou chamando a Jussara. Foi feito pela Manaxica Produções, que é meu selo fonográfico, produtora. A gente estava assim, aquela coisa, estávamos a fim de fazer. Ah, vamos fazer um disco de samba? Não, vamos fazer um disco que passe pela história do Brasil, contando coisas, referências minhas, de Jussara e de Teresa. Aí eu chamei o maestro Jaime Alem, foi meu primeiro contato com ele, nessa época ele estava envolvido demais com Maria Bethania, aí eu acabei envolvendo Maria Bethania na história, perguntei se ela não queria lançar o disco pelo selo dela, ela tem um selo chamado Quitanda na Biscoito Fino, o maestro fez a ponte, ela adorou o projeto, acabou que a gente gravou pelo selo dela. Foi um encontro feliz. A gente ficou dois anos só fazendo este projeto, a gente lançou o disco, fez shows, tinha sempre aquela dificuldade de conciliação de agendas, de cada uma ter seus projetos, sua carreira, acabava ficando conflitante, não casavam as datas, aí a gente resolveu encerrar. A gente já fez o disco, fez os shows, não conseguimos percorrer o Brasil todo, temos um disco aí lançado para a eternidade e um encontro nosso também marcado por um tempo. Foi muito bom. Depois eu gravei um outro disco com Jussara, lançado em 2014, chama Som e fúria, nós fomos para a Chapada Diamantina, é um disco surreal, sem comprometimento comercial nenhum, a gente queria fazer uma viagem pelos cantos matriciais brasileiros, onde a voz é o fio condutor, e a gente se meteu num sítio no Capão, na Chapada Diamantina durante 25 dias, produzidas por José Miguel Wisnik e Alê Siqueira, e saiu um disco assim que mais parece uma trilha sonora de um balé, de um filme. Eu particularmente gosto muito, uma viagem bem rica. Foi um desdobramento de meu encontro com Jussara, depois de Três meninas. Com Teresa a gente não realizou mais nada, com Jussara ainda deu esse fruto que é Som e fúria, a gente vai fazer show em novembro em São Paulo.

Além desse show no aniversário de São Luís, tua vinda te permite, dessa vez ou normalmente, passear, fazer coisas que você gosta no Maranhão? Em tua memória, o que você recomenda a turistas e nativos? O que não se pode perder em estando no Maranhão?
Eu sempre dou um jeito de ir e tentar ficar um tempo. Eu vou ficar uma semana, estou louca para ir aos Lençóis, ficar pelo menos dois dias, tomar um axé daquela terra, daquele vento, daquela coisa toda, daquele portal. Pra mim os Lençóis são um portal, é uma riqueza, uma maravilha do mundo. Aquilo é um portal mágico, transcendente, você vai ali você se revê em todos os aspectos, como ser humano, você se redimensiona em todos os aspectos. Isso é uma coisa que eu pretendo fazer, pretendo também matar minha saudade da minha juçara, do meu banho de mar marrom, encontrar meus amigos, eu tenho observado que São Luís está com um movimento cultural bastante intenso, o Samba da Fonte, o reggae lá na Praia Grande, as coisas estão se movimentando, as pessoas estão se mexendo. A gente nunca foi de esperar por governo nenhum, sem desmerecer governo de ninguém, a cultura maranhense sempre foi independente nesse sentido, as pessoas sempre se reinventaram, as festas sempre aconteceram nas suas fontes. Se eu puder ir à Casa Fanti Ashanti eu vou, quero ver minhas amigas que eu amo. Quero ver se eu encontro Joãozinho [Ribeiro], Cesar Teixeira, meus queridos que eu gosto muito de estar junto. Tanta coisa que eu gostaria de fazer, ficar com a família, a família é enorme, sempre tem um evento, sempre a gente quer estar junto. É pouco tempo para fazer tudo que eu quero, mas eu quero usufruir o máximo que eu puder da minha terra e recomendo a quem vá a São Luís conhecer a cidade, a cidade é linda, o Centro Histórico eu não sei como está agora, a última vez que eu vi fiquei muito triste, estava muito detonado, isso me angustiou, mas a cidade continua com sua magia. Todas as pessoas que vão ao Maranhão, a São Luís, que voltam e me falam, ficam extremamente encantadas com o lugar, com a energia do lugar. E olha que a gente sabe dos problemas todos que nossa terra tem, as dificuldades todas. Eu não entendo por que reelegeram esse prefeito, um homem que não tem compromisso nenhum com a cultura, que não se identifica, não estimula, nem tem cuidado com a cidade. São coisas que eu não tenho resposta, só tenho a lamentar quando vou e vejo que a cidade fisicamente está abandonada, um patrimônio histórico desses jogado, sem nenhum cuidado. Também sei que tem muitas coisas boas acontecendo e eu quero só pensar nas coisas boas e nas mudanças. Acho ótimo que a gente esteja com outra administração no governo, por que isso nos tira um pouco daquela aura de poder oligárquico, que a gente vinha há 40 anos, acho que a mudança de poder é importantíssimo, para que a gente possa ter a capacidade de escolha, de avaliação. Então, eu acredito muito na minha terra, no potencial de minha terra e quero poder, na medida do possível, com meu trabalho, com minha voz, levar o Maranhão, para onde eu for.

Ainda falando um pouco das paisagens, dos pontos turísticos. Não sei se vai dar tempo ou se você vai passar por lá, faltou um que você cantou, com Edvaldo Santana, em seu último disco, você fez uma participação especial, em Ando livre.
Ah, no [Bar do] Léo! Ah, eu quero ir. Você viu que música linda que ele fez? Linda aquela música, boleraço, maravilhoso. Eu falei: “cara, você fez essa música para eu cantar”. E ele disse: “foi”. E me botou pra cantar num tom altíssimo. Mas eu adorei, falei: “oh, que maravilha”. Mas eu vou lá sim, quero ir lá, inclusive para ouvir essa música com ele. Olha aí que lugar, que maravilha que São Luís tem, um lugar como esse. Aquele menino do Centro, também, como é?

O Chico Discos?
Chico Discos também, que figura! Como é que essa figura construiu esse espacinho tão especial? Por isso que eu digo que o maranhense se reinventa. As coisas não param, as pessoas estão em movimento, precisam estar em movimento para que as coisas aconteçam. Aí é que o governo, as pessoas percebem que o movimento aconteceu. Mas eu acho o seguinte: mesmo vendo a dificuldade que todos os grupos culturais estão tendo no Maranhão, eu vi isso num São João em que eu fui, acho que ano passado, eu ainda vejo que os mestres estão ali na luta, na guerra, na batalha, para manter suas tradições vivas, por que não pode morrer, não tem como morrer. A gente tem que manter isso vivo na memória e no corpo dos jovens de hoje, para fazer a coisa continuar. É um trabalho bonito, e ficar pra história. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão” [lembra o título da toada de Humberto de Maracanã].

Uma pergunta inevitável nestes tempos: você mora no Rio de Janeiro, onde a gente tem percebido de modo mais acentuado essa crise política e econômica, professores com salários atrasados, universidades correndo o risco de fechamento. Com que sensação você tem acompanhado ao longo do último ano e meio o noticiário político brasileiro?
Cara, eu acho que nós estamos vivendo uma era do cão. Caótica e, sei lá, extremamente negativa e trevosa. Eu não sei por que tanto retrocesso, eu não sei como é que a gente pode avançar e a gente avançou, e depois retrocedeu de uma forma tão bruta. Ficou tão evidente que nós fizemos realmente uma situação ainda de escravidão, de subserviência, de ditadura, e na verdade estava assim um pouco camuflado por alguma teia que a gente não conseguia ver, mas que na verdade está enraizada demais na estrutura política e social brasileira. Realmente o pequeno grupo de empresários, gente que domina, a corte, pode-se dizer assim, ela não quer abrir mão de nada pelo povo, ninguém está interessado no povo, ninguém está interessado na melhora do país. Você vê, um cara desses ainda estar no poder, diante de tantas acusações, diante de tantas evidências, é por que ele não está sozinho, ele está com uma corja de abutres do mesmo nível dele, sustentando o processo que está lá. O Rio de Janeiro foi o estopim da história, a cidade está caótica, a violência voltou como uma onda imensa, assustadora, um tsunami, a gente dorme com rojões, tiros, parece assim que a gente está num desses países tipo Iraque, ou coisa parecida. A gente não sabe o que está acontecendo. Eu, graças a Deus, nunca sofri, nenhum tipo de violência, eu vivo realmente, posso dizer, até um mundo à parte dentro do universo carioca, mas eu vejo como é que a cidade está depredada, no sentido da insegurança das pessoas, do medo, do desespero, da revolta, da impaciência, da intolerância. Ninguém tem tolerância com nada, as pessoas estão se agredindo no meio da rua umas às outras. Isso está acontecendo num nível nacional e universal, mundial. Nós estamos vivendo momentos de grandes tensões mundiais, o planeta está realmente num processo de transmutação, é doloroso. A gente é uma transição, estamos passando por este processo de mudança, que a gente não sabe onde vai dar. Eu, como sou uma figura muito espiritualizada, eu sempre penso no melhor, eu sempre penso que todo caos gera mudança e é uma mudança sempre positiva, mas o processo está sendo muito doloroso, pra nós artistas, então, a gente tem sofrido baque assim brutal, sabe? De viabilização dos projetos, verbas despencando, até o sistema Sesc, que é um dos maiores sistemas culturais do Brasil, despencou nos orçamentos, os empresários locais não têm mais estrutura para levar os shows, os cachês caíram horrores, o Ministério da Cultura é uma coisa que a gente não sabe pra que serve nem o que é. Sucatearam a cultura brasileira. Em nível de criatividade, nós também estamos um pouco perdidos, o que está predominando hoje no Brasil, eu não estou aqui condenando nada, mas é o funk, o sertanejo e o brega, é só isso que a gente vê. Isso está sufocando a outra parte criativa da música, especificamente da música, tem muita gente fazendo coisa legal, mas tem oportunidade nenhuma, condição nenhuma de levar adiante, sem estrutura. Realmente é um momento extremamente delicado, não sei o que vai dar, não sei como é que a gente não consegue tirar esse cara, eu não vejo solução de ocupação. Ocupação pra mim é entrar naquele congresso e tocar uma bomba.

Concordo.
É preciso inverter aqueles polos daquelas duas bacias, nada se justifica mais, a gente está se repetindo nas redes sociais, todo mundo “fora, Temer!, fora, Temer!, Temer, fora!”, e nada acontece, eles estão cagando e andando pra gente: “fodam-se vocês, nós vamos fazer o que a gente quiser, nós vamos aprovar leis que a gente quiser, nós vamos fazer e acontecer aqui e vocês não vão dizer nada”, e a gente não está dizendo nada, a passividade do povo brasileiro está num nível que a gente diz assim: “vamos pra onde, gente?” Eu não sei o que fazer, sinceramente eu não sei o que fazer. Tem horas que eu me sinto tão impotente. A minha maneira de protestar é através da minha arte, é através do meu canto, chamando a atenção das pessoas para o que a gente pode fazer juntos, o que a gente pode mudar, o que a gente não pode desistir, mas é pouco, é muito pouco diante da situação que a gente está vivendo, é nada. Eu sempre digo assim: “o palco é um palanque, o artista, um militante”. A gente tem que continuar resistindo, mas tá danado, tá puxado, tá difícil. E essa mudança estrutural da política, uma democracia em que você é obrigado a votar, eu não entendo isso, nunca entendi por que você é obrigado a votar em uma democracia, que gera esse bando de candidatos que na verdade são um bando de gente que vem pendurada em outros, só pra ocupar espaço, esses salários exorbitantes desses caras. Nem partidos de esquerda, que a gente já nem tem mais, se dignam a diminuir esse valor desses salários. Isso aí é um gasto absurdo para o povo brasileiro manter esses caras lá, no nível que eles vivem e usufruem. Cara, tudo errado! Universidades sucateadas, saúde sucateada, a dignidade do povo sucateada. Olha, eu realmente não estou com palavras muito boas para te dizer em relação a isso.

*

Veja Rita Benneditto em De mina (Josias Sobrinho):

Lula cá

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Luis Jorge Gonçalves dos Santos, 62 anos, responde minhas perguntas, nem vejo sua boca se mexer, oculta por uma enorme barba grisalha. É dessa semelhança física com o Lula roots candidato à presidência pela primeira vez em 1989, que ele ganhou o apelido que batiza a Barraca do Lula, há oito anos na Praça Deodoro – logradouro em que o maior líder político da América latina fez comício naquela campanha, com direito a show da banda punk Amnésia, que tinha Marcos Magah no vocal, mas isto é outra história.

Lula foi garçom, maitre de restaurante, camelô e feirante, “sempre na dificuldade”, qual o xará e sósia famoso. Quando pergunto se ele topa me dar uma entrevista rápida ele aperta minha mão e diz para deixar para uma próxima oportunidade. Espero-o atender uma moça de vestido azul que pede uma água de coco e insisto, tendo por mote a visita do presidente metalúrgico à Ilha amanhã. Ele topa e ligo o gravador por menos de 10 minutos.

“Meu pai morreu eu tinha nove anos de idade, fui criado por padrasto e caí na vida, estou aqui até hoje, graças a Deus. Minha vida é essa. Lula e Lula mesmo. Sempre votei nele e vou votar para sempre. Com muita emoção”, revela o evangélico hoje afastado da igreja, fanático pelo líder petista.

Lula é casado, tem cinco filhos, quatro netos e retira o sustento da barraca, ornamentada por frases como “se a sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”. Ele não tem cadastro em nenhum programa social.

Por que Lula? “Pela capacidade, trabalho, honestidade, é um homem direito, trabalhou para o pobre. Não existe outro presidente sem ser ele. Em primeiro lugar, Deus, depois ele. Lula é Lula. É indo e voltando Lula. Pode viver 10 anos, 20 anos, ele pode estar preso eu voto nele”.

Pergunto se ele participará do ato amanhã (5), às 17h, na Praça Pedro II, Centro. “Estou com uma esperança louca de ir lá. Vou falar com meu filho para ficar aqui amanhã. Nem que eu feche eu vou lá amanhã”.

Sobre o governo da sucessora, comenta: “A Dilma foi uma ótima mulher, o negócio é que se entregou pro Temer. A confiança foi tão grande nele que ele traiu ela, uma mulher guerreira”. Um homem aparece pedindo para trocar 50 reais. “Não tenho”, avia Lula, que já havia tido dificuldade para tirar o coco de 20 reais. “A esperança é essa, é que Lula volte e ela volte também”, continua. “Eu espero que Lula volte, em nome de Jesus. Ninguém vai tirar ele, não tem aquele tal de Moro. Por que ele não prende Temer, que é o chefe da quadrilha? Foi tudo descoberto, mas ninguém tem coragem de prender. O que Lula fez? Dar trabalho pra pobre, colocar negro na universidade, ter casa, ter seu carro, ter sua moto, tudo. Deficiente empregado, com seus direitos”, enumera.

E como Lula avalia o governo do ilegítimo? “Péssimo, daí pra pior. Não tem pra onde correr. Um homem desses já era para estar preso. Aqui no Brasil não tem lei. Por que Lula está hoje sofrendo? Por que é guerreiro, não se entrega, e não se entrega por que não deve. Isso é um meio de tirar o homem do poder”.

Golpe após golpe, desde o que apeou Dilma Rousseff do poder, comento a possibilidade de não haver eleições em 2018. O Lula da Deodoro vaticina: “Não tem pra onde correr. Tem eleição direta, já. E o homem é Lula. Não tem ninguém para botar frente a Lula”.

Pergunto se ele já foi filiado ao Partido dos Trabalhadores e Lula revela uma árvore genealógica petista: “Meu tio era do PT, foi vereador, mas já faleceu. Era um camelô, Pilão”. No entanto não sabe precisar quando foi sua legislatura. “Faz mais de 20 anos, já”, arrisca.

“Outro que é guerreiro também, o [hoje no PcdoB e prefeito de Paço do Lumiar Domingos] Dutra. Lutou, foi perseguido por que trabalha certo. Quando se trabalha certo os maiores perseguem para tomar o poder, para fazer merda, avacalhar. Mas Deus não vai deixar”, lista colocando Dutra ao lado de Lula.

Sobre perseguidos e perseguidores, indago-lhe sobre a aliança de Lula com Sarney. “Sinceramente o Lula fez uma grande besteira ao se unir com Sarney. Podia ter sido melhor ainda, sem Sarney. Todo político é obra de Sarney”. Espanto-me: todo? “É, a maioria é, o único que não é, é Lula. O único que não foi obra de Sarney, mataram, que foi o doutor Jackson Lago”.

E o governador Flávio Dino? “Ele tá trabalhando, com toda dificuldade, sem dinheiro, está trabalhando. Para trabalhar aqui no Maranhão tem que ter dinheiro, ele está sem dinheiro, mas está trabalhando”.

Observo o entorno, a Praça Deodoro tomada por barracas. Lembro de episódios envolvendo a Blitz Urbana, derrubando até mesmo construções de alvenaria em alguns pontos da cidade. Indago-lhe se não teme o futuro. Ele afirma, convicto, logo voltando à pauta de nossa conversa: “Camelô não é invasor. Tem sindicato, associação. Se Lula ganhar, melhor ainda. Com o apoio de Lula, o apoio de Flávio Dino, nós vamos ficar para sempre aqui. Até Deus mandar ele [Lula] embora. A perseguição a Lula foi grande, ainda é, matou a Marisa, mas Deus é maior”.

Agradeço a gentileza do papo e peço uma água. Ao sacar a grana para pagar ele abre um sorriso e manda: “cortesia do Lula!”.

Touchê em turnê: uma divertida aventura literária

O autor cercado por atrizes da Xama Teatro e estudantes de uma escola pública em Santa Inês/MA. Foto: Sheury Neves

 

Com a Caravana Passeios pela História e Cultura do Maranhão o escritor Wilson Marques está circulando diversas cidades maranhenses, acompanhado da trupe da Xama Teatro e de Touchê, seu personagem infantil que angaria leitores por onde passa.

Na última quinta-feira (1º.), foi a vez de Pedreiras, terra de João do Vale, já biografado pelo autor – e recentemente tema de biografia-mirim lançada recentemente pela jornalista Andrea Oliveira. O município encerrou a primeira etapa do projeto, que, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, já passou, além de Pedreiras, por Imperatriz, Açailândia, Timon, Caxias, Pinheiro, Viana e Santa Inês.

O kit Touchê. Reprodução

“Para quem escreve, o contato com seu público é quase tão importante quanto publicar livros. É bom para o pequeno leitor, que ao final desmistifica a ideia de que o escritor é uma figura distante, inacessível. E, para o autor, uma oportunidade de se retroalimentar, se energizar”, comenta o escritor. Em suas viagens, os lançamentos têm sido realizados em escolas públicas ou espaços culturais, com distribuição dos kits de Touchê, com seis livros, ilustrados por Kirlley Veloso: Touchê em a invasão francesa e a fundação de São Luís, Touchê em uma aventura pela “Cidade dos Azulejos”, Touchê em a revolta de Beckman e nos tempos de Pombal, Touchê em uma aventura em noite de São João, Touchê em o mistério da serpente e Touchê em Balaiada, a revolta.

Indago se estreitar este convívio com os pequenos leitores é uma tentativa de virar o jogo: livros perdem cada vez mais espaço na disputa de preferência com tablets e celulares, entre outros. “Com relação aos eletrônicos, acho que o mal uso deles pode ser bastante daninho principalmente para mentes em construção. Por outro lado, acredito que não devemos demonizá-los, ou criar cabos de guerra tendo de um lado livros e do outro tablets, etc. Acho sim que podemos tirar partido deles a fim de difundir cada vez mais os bons conteúdos, pois ao final é isso que realmente importa”, opina.

A rota de Wilson, Touchê e do Xama Teatro, que faz apresentações baseadas nos enredos das obras, após um descanso, será retomada em agosto, quando visita São José de Ribamar (dia 2), Paço do Lumiar (14) e São Luís (23), encerrando o passeio.

“Em todas as cidades em que passamos a receptividade superou minhas expectativas, tanto por parte de alunos como professoras, diretoras e gestores de educação municipais. Isso tem sido muito legal porque demonstra que existe em todos um interesse, uma necessidade inata por arte, por histórias, por teatro, por livros. Por outro lado, revela um aspecto que me entristece um pouco: o fato de a Caravana despertar ainda mais interesse na medida em que muitas escolas se encontram em estado de carência no que diz respeito à oferta desse tipo de ação. De qualquer maneira o projeto tem ajudado a reacender essa chama, e isso a gente pode constatar pelo entusiasmo e alegria com que somos recebidos”, comenta.

Jornalista de formação, Wilson Marques, além de João do Vale, já biografou o violonista João Pedro Borges. Seu personagem de maior sucesso, no entanto, é mesmo Touchê, através do qual ele aborda aspectos da história e da cultura do Maranhão. Pergunto se o incomoda o fato de a faceta infantil de sua obra ser mais conhecida que o trabalho, digamos, adulto.

“Nunca tinha pensado nisso e acho que vou continuar sem me preocupar com esse aspecto do meu trabalho. Mesmo porque esse raciocínio pode levar à ideia de que um tipo de fazer literário é mais nobre que o outro. Tipo, escrever para adultos é mais nobre do que escrever para crianças. E não me parece que seja assim. Uma coisa, entanto, posso afirmar: pra mim, escrever para crianças é muito mais divertido do que escrever para adultos. E, no final das contas, o que vale é a gente se divertir”, finaliza.

Delícias do Mar(anhão)

O Fideuá Casa d'Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR
O Fideuá Casa d’Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR

 

Nem só de língua de boi vive o homem – e a mulher (grávida) –, dona Catirina! Ao menos é o que demonstra o II Festival Gastronômico, promovido pelo Sebrae/MA, que agrega 47 restaurantes em nove municípios maranhenses, com pratos à base de frutos do mar – Delícias do mar é o tema desta edição, que também contempla sobremesas à base de frutas regionais – lista completa de municípios, restaurantes, pratos e sobremesas no site do festival.

Lançado hoje (5), em evento para convidados no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, o festival acontece até o próximo dia 23. Além da lista no site e em material impresso de divulgação, os restaurantes terão banners identificando sua presença no circuito. Os presentes puderam degustar as delícias dos 18 restaurantes de Raposa, São José de Ribamar e São Luís que participam.

A iniciativa é importante: quem souber do festival, procurará conhecer os restaurantes participantes e, por sua vez, os pratos preparados especialmente para a ocasião – vendidos a preços mais baratos.

O aumento da participação é visível: na primeira edição, em 2015, eram 21 restaurantes. Gosto de pensar também na contribuição para o turismo e a superação de preconceitos: muita gente, ao ver o número de restaurantes em determinado município já não pensará naquela localidade como algo inferior, indigno de atenção, mas como um polo gastronômico, boa oportunidade de conhecer este ou aquele lugar – e seus respectivos pratos.

Percorrendo os stands – que eu prefiro chamar de barracas – degustando os diversos pratos, se percebe também a heterogeneidade dos participantes: da franquia China in Box, passando por casas, digamos, mais chiques, como o Feijão de Corda, Thai e a Pizzaria Vignoli, até estabelecimentos, digamos, mais roots, como o Por do Sol, em Raposa, para ficarmos em exemplos apenas entre os que estavam neste lançamento – outros eventos acontecerão em outros municípios.

Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR
Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR

Gastronomia é cultura e os que já estávamos provando de tudo um pouco antes e durante as falas das autoridades presentes, continuamos ao longo do pocket show do Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões acompanhados de João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado e sanfona) –, que, não à toa, começou por Catirina (Josias Sobrinho), a quem aconselhamos no início deste breve e pantagruélico relato.

Entre o que experimentei hoje destaco o Fideuá da Casa d’Arte, o Canelone de caranguejo da Casa Rossini e a Mariscada do Léo da Tia Mundoca (em que a tarioba se sobressai deliciosamente) – o primeiro e o último, em Raposa.

Certamente vale a pena (tentar) conhecer todos os restaurantes e (tentar) provar todos os pratos. O Delícias do Mar é um festival de muito bom gosto. Literalmente.

Gerô duplamente lembrado nos 10 anos de seu martírio

Foto: Ronald Almeida Silva
Foto: Ronald Almeida Silva

 

Há exatos 10 anos o artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, foi torturado até a morte por policiais militares. A partir de 2008, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy, o dia 22 de março foi instituído como Dia Estadual de Combate à Tortura.

No fim da tarde de 22 de março de 2007, Gerô foi supostamente confundido com um assaltante nas imediações da cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade. Ali começou seu calvário, que duraria algumas horas até o óbito. Gerô era negro. Escrevi um texto na ocasião, indignado com o acontecimento.

No ano seguinte, o Bloco Tradicional Pau Brasil, do bairro do Anjo da Guarda, homenageou o artista. O samba-tema Salve Gerô! (ouça aqui) tem música de Gigi Moreira e letra de Gigi Moreira, Jeovah França, Josias Sobrinho e deste blogueiro.

O episódio cujo desfecho trágico foi seu assassinato não era o primeiro nem o único em que Gerô foi vítima de racismo. Lembro-me de uma vez em que estávamos em um bar, na Praia Grande, e o artista foi arrancado à rua com seu violão. Supostamente buscando alguma droga, Gerô foi revistado de forma vexatória, ao tempo em que tirava onda dos policiais: “eu carrego é na mente”, gritava com sua voz peculiar, lutando contra as injustiças sem perder o bom humor.

Gerô publicou diversos cordéis com o pseudônimo Linguafiada. Nunca se furtou a denunciar a violência, opressão, racismo, desigualdade social. Sempre teve lado: o dos oprimidos.

Após sua morte, a então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) lançou A peleja de Gerô, disco compilando gravações que havia deixado, entre as quais Canto de passarinho, parceria com o violonista Domingos Santos que, defendida por Fátima Almeida no Festival Viva de Música Popular de 1985, acabou por dar nome artístico a uma de nossas mais populares cantoras: Fátima Passarinho.

O martírio de Gerô e seu legado serão lembrados hoje (22), às 17h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), por iniciativa do cordelista Moisés Nobre, seu parceiro. O evento contará com exposição de objetos pessoais de Gerô, debate sobre direitos humanos, igualdade racial e combate à tortura, além de sarau poético-musical.

Entre os nomes confirmados estão os secretários de Estado Francisco Gonçalves (Direitos Humanos e Participação Popular), Gerson Pinheiro (Igualdade Racial), além de artistas como Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Fátima Passarinho, Arlindo Carvalho, Gigi Moreira e Rosa Reis, entre outros.

Na próxima sexta-feira (24), às 18h30, Gerô será homenageado também na Faculdade Estácio, por iniciativa do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, professor da instituição, no evento As várias mortes de Gerô.

O debate contará com a presença de diversos docentes da Estácio, além de Moisés Nobre, Carlos Antonio (advogado do caso Gerô, que garantiu a indenização paga recentemente à família), o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, além deste que vos perturba. Ambos os eventos são abertos ao público e têm entrada gratuita.