Exceção e regra em Encruzilhada

Encruzilhada. Capa. Reprodução

 

Marcelo D’Salete é uma exceção: um quadrinista negro de sucesso no Brasil. Sua obra é regra: sua ficção documenta a realidade cotidiana de periferias das grandes cidades e o massacre diário da juventude negra e pobre. Mas sua obra é, ao mesmo tempo, exceção, já que não é qualquer artista que se interessa por abordar tais temas sob tais perspectivas, dando voz aos oprimidos.

A violência policial já não nos choca, pois está estampada nas edições diárias dos jornais impressos ou circula em sites e grupos de whatsapp. D’Salete no entanto não alivia: o traço sujo traduz a vida sofrida dos que habitam a periferia e vivem sob o jugo dos agentes da lei – que em geral desrespeitam-na. “Com polícia a gente fica quieto” é o mantra repetido por uma personagem em Risco, história inédita que se soma à reedição de Encruzilhada [Veneta, 2016, 160 p.], originalmente lançado em 2011.

São cinco histórias que não causariam estranhamento a quem acompanha o noticiário, sobretudo através de programas policialescos sensacionalistas – redundância intencional –, em que sangue é sinônimo de audiência. São Paulo está perfeitamente traduzida no preto e branco – e cinza – dos quadrinhos de D’Salete, cujos grafites, espalhados por paredes e muros, e marcas, por outdoors, neons e embalagens, garantem autenticidade às narrativas, jogando o consumismo (e o capitalismo) no cerne da questão urbana e sua onda de violência, que atinge “trabalhadores, ladrões, policiais, camelôs” e usuários de crack.

As histórias de Encruzilhada – a grafia do título na capa do álbum não por acaso evoca um picho – não são fábulas com moral; antes evocam uma amarga realidade, causando incômodo e propondo reflexões, exceto a quem já perdeu qualquer grau de humanidade ou sensibilidade, anestesiado pela “normalidade” do status quo, justamente contra o que mira a arte consciente de D’Salete.