Memória

Murilo Santos

Foto de Murilo Santos usada no cartaz de Marémemória (1974), espetáculo multimídia (antes da palavra existir) em que o Laborarte adaptou ao palco o livro-poema homônimo (1973) de José Chagas.

Maré Memória

MURILO SANTOS
ESPECIAL PARA O BLOGUE

Já me perguntaram se essa foto é de minha autoria. Acho que sim. Coordenei o Departamento de Cinema e Fotografia do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), desde a sua fundação até meados de 1975. Antes disso, fiz parte do grupo que deu origem ao Laborarte, o Tefema, Teatro de Férias do Maranhão, fundado por Tácito Borralho em 1971. Desde então passei a fotografar e fazer iluminação de espetáculos. No Laborarte fiz fotos durante nossas pesquisas de campo e de espetáculos. A iluminação das peças também ficava a cargo do Departamento de Fotografia e Cinema. Lembro de ter feito uma foto semelhante a essa, desse mesmo ângulo. Lembro de ter aproveitado a placa de “proibido fumar” do Teatro Arthur Azevedo, enquadrando somente a palavra “proibido”, para sublinhar o tom de protesto do espetáculo e das músicas de Cesar Teixeira e Josias Sobrinho. Coisas da época. Se de fato a foto é de minha autoria, ela certamente foi feita durante um ensaio no Arthur Azevedo, momento em que eu aproveitava para sair da cabine de iluminação e fazer fotos para registro interno e divulgação dos espetáculos.

Com a adaptação da obra de José Chagas, Maré Memória, o Laborarte concretiza o sonho de integrar as diferentes linguagens desenvolvidas pelos chamados departamentos: Cênicas; Dança; Música; Fotografia e Cinema; Artes Plásticas e Artesanato; Propaganda; Imprensa.

O mastro que se vê na foto representa uma festa de São Benedito. Além das músicas compostas especialmente para o espetáculo, era cantado o tradicional bendito de São Benedito. Lembro que nesse momento os atores aceleravam progressivamente o cântico e o andamento de uma procissão em torno do mastro, até tornar-se uma correria. Geniais coisas do Tácito!

Para esse espetáculo, realizei dois filmes curtos em Super-8 filmados nas palafitas do bairro da Liberdade. Um documentário e outro que poderíamos chamar de experimental. A exemplo das músicas que eram cantadas e tocadas pelos músicos protagonistas da foto, assumindo personagens na cena, como forma de integrar também, o cinema ao espetáculo teatral, os filmes eram projetados num lençol estendido num momento determinado em um varal dessa palafita cenográfica que aparece na imagem. A ideia era fazer com que as imagens externas e reais compusessem a encenação no palco. Algo inédito para aquela época. Portanto, é em 1974, quando experimentamos de fato um laboratório de expressões artísticas integradas com Maré Memória é que se inicia o ciclo do Super-8 no Maranhão. Um início que tem na projeção desses filmes talvez as primeiras e únicas exibições para um público pagante

O curta experimental, se assim podemos classificá-lo, durava menos de três minutos. Neste filme, as imagens, quase sempre em closes, associavam estacas de palafitas aos buracos de caranguejos na lama, banhados pelo leve vai e vem das ondas da maré. O filme era projetado no instante em que o casal protagonista do espetáculo entrava em casa e se recolhia às suas intimidades. O público da peça pode ver o que podemos considerar talvez o único filme erótico do ciclo Super 8.

Guardo esta foto que registra as filmagens dos curtas para o espetáculo Maré Memória. No cenário de mangue e lama, a câmera Super-8 (uma Canon 1014 recém doada ao Laborarte) acha-se protegida por um saco plástico.

De pé no mangue (e lama) filmando para Maré Memória, o cineasta Murilo Santos fotografado por um palafitado