Os herdeiros de José

Júlia Konrad, Erasmo Carlos e Jaloo em cena de Paraíso perdido. Frame. Reprodução

 

A princípio, é a trilha sonora que tem garantido bom público a Paraíso perdido [drama/musical, Brasil, 2018, 110 min.; classificação indicativa: 14 anos; em cartaz no Cine Lume, Sessão Vitrine Petrobras], novo filme de Monique Gardenberg, diretora do exitoso Ó paí, ó [2007] e do subestimado Benjamim [2003, baseado no livro homônimo de Chico Buarque]. Mas é preciso dizer: à frente da ótima trilha sonora há um enredo múltiplo, com diversas histórias se cruzando, em um roteiro muito bem urdido.

Paraíso perdido é uma boate com ares de cabaré e certa sofisticação perdida ao longo do tempo neste tipo de ambiente – falo do luxo do lugar e do capricho dos números musicais. A casa é administrada por uma família, cujo patriarca é José, na interpretação papo firme de Erasmo Carlos. Neste ambiente familiar sui generis os artistas da noite são os próprios filhos e netos de José.

“Esqueçam a vida lá fora e sejam felizes aqui no Paraíso perdido, o lugar para aqueles que sabem amar”, José faz o convite aos frequentadores de sua boate – e este se estende a nós, espectadores, que por quase duas horas nos emocionamos, contemos as lágrimas (ou não) e por vezes seguramos o ímpeto de cantar junto e aplaudir ao final de cada número.

A partir daí, diversas histórias se cruzam, costuradas por uma trilha sonora que funciona como uma espécie de antologia sentimental que vai de Reginaldo Rossi a Roberto Carlos, de Raul Seixas a Waldick Soriano, de Odair José a Carly Simon, de Ângela Maria a Márcio Greyck, de Paulo Sérgio a Belchior, entre outros, desfiladas entre (poucas) versões originais e (muitas) releituras por um elenco de híbridos: Seu Jorge, ator e cantor cujo talento já foi posto à prova em vários discos e filmes, o cantor Jaloo, que dá conta do recado ao interpretar Ímã, e Júlio Andrade, ator que se sai bem fazendo covers no papel de Ângelo. A direção musical é de Zeca Baleiro.

O tributo à música cafona não se encerra no soundtrack: personagem central na trama, o policial vivido por Lee Taylor chama-se Odair.

Amores perdidos (e re/encontrados) são o pano de fundo de um filme que joga holofotes sobre temas urgentes como a violência contra a população LGBTI, os direitos de idosos, pessoas com deficiência e detentos, os “bicos” de policiais, a covardia e brutalidade da ditadura militar brasileira, instalada com o golpe de 1964, e o momento político conturbado que vive o Brasil desde o golpe de 2016.

Tantos temas são encaixados com maestria no roteiro de Monique Gardenberg sem o menor risco de o filme tornar-se panfletário desta ou daquela causa, e inteligentemente propor o debate sobre todas elas, ao menos a quem procurar ir além da superfície. Mas mesmo a quem se contentar com ela, perceberá tratar-se de um filme sobre amores e afetos, artigos tão em falta no Brasil de hoje.

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Veja o trailer de Paraíso perdido:

Zeca Baleiro relê assuntos populares e lados b de Zé Ramalho

Chão de giz. Capa. Reprodução
Chão de giz. Capa. Reprodução

 

Há quase 20 anos, quando estreou no mercado fonográfico com Por onde andará Stephen Fry? [1997], Zeca Baleiro já mostrava a que veio. Revelou-se compositor de talento, acima da média, além de intérprete original. Em um disco quase completamente autoral, gravou Essas emoções (Donato Alves), toada do bumba meu boi de Axixá.

Parte da crítica, mais acomodada e afeita a rótulos, não hesitou em cravar no artista que então aparecia a alcunha de “o novo Zé Ramalho” ou coisa que o valha, talvez por conta da proximidade temática de Heavy metal do senhor, que abre a estreia do maranhense, e A peleja do diabo com o dono do céu, faixa título do segundo disco do paraibano – a análise, com quase duas décadas de distância, é do próprio Zeca Baleiro, em texto de apresentação de seu novo trabalho.

Em Vô imbolá [1999], seu segundo disco, Zé Ramalho daria as caras – e a voz. Cantariam juntos Bienal, música de Baleiro inspirada no universo dos repentes e violas, em que tira um sarro do mercado de artes.

Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho surgiu após um desafio aceito pelo primeiro, não após certa hesitação. Com curadoria de Monique Gardenberg, o projeto BBCovers, do Centro Cultural Banco do Brasil, teria diversos artistas interpretando a obra alheia, e ao maranhense cabia justamente a obra do “admirável bardo” paraibano. Há alguns anos, Baleiro havia dividido um disco de inéditas com Fagner [Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003], outro nome da chamada geração Nordeste 70, outro artista admirado pelo garoto nascido na terra de João do Vale na década anterior.

Lançado em cd e dvd, Chão de giz passa por grandes hits de Zé Ramalho, repetidos à exaustão por qualquer cantor em qualquer barzinho, mas traz também lados b. “Um “tributo” a um cara como Zé, com cerca de 40 anos de carreira e um repertório consolidado, não poderia omitir seus sucessos populares, concorda? Mas fazer um show só com os hits seria tedioso e acomodado. Juntei as canções-estandartes, como Avohai e Admirável gado novo a lados b que gosto muito, como Um pequeno xote e Kamikaze, além de algumas pérolas esquecidas”, contou Baleiro com exclusividade ao blogue.

Para Ave de prata, que abre Chão de giz, Zeca Baleiro (voz, violão, ukelele e guitarra) chega de capa e chapéu, acompanhado por Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais), Fernando Nunes (contrabaixo, violão sete cordas, triângulo e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais) e Tuco Marcondes (guitarra, violão, mandolin, sitar, banjo e vocais).

O próprio Zeca Baleiro considera a experiência curiosa, já que em sua fase de barzinhos, antes de deixar São Luís e estrear em disco, não lembra de ter cantado Zé Ramalho. “Não me lembro de ter cantado Zé quando cantava na noite. Meu repertório era muito insólito, talvez por isso não tenha feito “sucesso” como músico de bar [risos]. De todo modo, é certamente uma volta à origem, à época da minha formação, de quando começava a tocar violão e surgia essa turma do Nordeste – Zé, Belchior, Fagner, Ednardo, Alceu [Valença], Geraldo [Azevedo], Vital [Farias]”, enumera.

No dvd há projeções de Ivan, o terrível [1944], de Sergueï Einsenstein, ilustrando Kriptônia, e Powaqqatsi [1988], de Godfrey Reggio, em Admirável gado novo, num interessante diálogo visual com as músicas, de certo modo ajudando a garantir certo tom sombrio, talvez apocalíptico, profético, para ficar em adjetivos quase sempre usados para se referir ao repertório ramalheano. “É estranho, porque não é Brasil, mas tem tudo a ver”, afirmou Baleiro sobre a segunda, como nos conta a diretora Monique Gardenberg em texto de apresentação ao projeto.

Em alguns momentos Baleiro suaviza Ramalho, noutras mantém os arranjos próximos aos originais, sempre com uma pegada original, sem se contentar com o conforto da posição de cover. Ele é parceiro de Zé Ramalho em O rei do rock, música já gravada pelo homenageado em Parceria dos viajantes [2007]. “Eu escrevi a letra de O rei do rock inspirada no Zé, na sua persona artística, esse misto de caubói, profeta, justiceiro, visionário. Ele musicou e gravou, numa onda meio “rock cigano”, mas refiz o arranjo e o rock ganhou uma pitada de rap”, comentou. Em Bicho de sete cabeças [Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha], Baleiro opta pela versão instrumental, anterior à com letra, que já tinha gravado para a trilha do filme homônimo [2001], de Laís Bodanzky.

Em roteiro bem construído e edição caprichada, Chão de giz guarda ainda ótimos momentos em seus extras. Quando canta Frevo mulher cita Bob Dylan – artista reverenciado tanto por Baleiro quanto por Ramalho – e é imediata a cumplicidade da plateia; lá também está o registro da única música não composta por Zé Ramalho, mas cuja gravação definitiva, inclusão em trilha de novela e execução à exaustão, fazem muita gente crer nisso: Entre a serpente e a estrela [de Frevoador, 1992], versão de Aldir Blanc para Amarillo by morning (Terry Sttaford e P. Fraser).

O próprio Zeca, antes de aceitar o convite para reler a obra do autor de Vila do sossego, afirmou, também no texto de apresentação, a admiração pela obra de outros nomes da música brasileira, entre os quais Luiz Melodia, Martinho da Vila, Tom Zé, Jackson do Pandeiro e Sérgio Sampaio, de quem já produziu disco póstumo [Cruel, de 2005] e relançou Sinceramente [1982], por seu selo Saravá Discos.

Sabedor de sua citada admiração por outros nomes, sobretudo os nordestinos surgidos na década de 1970, indago-lhe se há algum outro artista com quem Baleiro tenha vontade de dividir disco, show e/ou se tornar parceiro. Ele responde, terminando a conversa com um sorriso: “Todos. A obra de Belchior merece um belo tributo. Mas minha carreira de “crooner da caatinga” se encerra aqui [risos]”.

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Confiram Zeca Baleiro em Não existe molhado igual ao pranto [Zé Ramalho e Lula Côrtes]: