Artistas da rua

A Mórula Editorial disponibilizou gratuitamente o e-book “Aldir 70”

A medicina bate à porta

TENHO TANTA RAIVA DE TELEFONE que costumo atender com um rosnado.

— Blanc?

— Infelizmente.

— É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.

— Tá.

— Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:…

— Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.

— Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.

— Hum… Que tipo de exame?

— Glicídios, lipídios, adílios, otacílios…

— Você já bebeu hoje?

— Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.

— Eu também, Baiano. Parei por causa disso.

— Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo…

— Higiênico.

— Hein?

— O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.

— Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.

— Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura… Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.

— Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você…

— Isso não tem nada que ver com o Vasco.

— Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer… bem… sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.

— Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?

— Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.

— ???

— O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

*

Aldir 70. Capa. Reprodução
Aldir 70. Capa. Reprodução

Crônica do imenso Aldir Blanc, que deixou o Brasil mais triste, sem graça e menos inteligente no último dia 4 de maio. A Mórula Editorial, que publicou cinco livros do compositor e cronista em 2016, por ocasião de seu aniversário de 70 anos, disponibilizou, gratuitamente, o e-book Aldir 70, reunindo algumas crônicas daqueles volumes. Acesse o site da editora para baixar.