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Cinemulher

Foto: Zema Ribeiro

 

A pesquisa Participação feminina na produção audiovisual brasileira, da Agência Nacional do Cinema (Ancine), publicada em 2016, norteou os debates da mesa A mulher no cinema, ontem (13) à tarde, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Um bom público, formado por homens e mulheres, prestigiou a mesa mediada por Thais Nunes (ao microfone, na foto), com (da esquerda para a direita) Ana Mendes, Thais Fujinaga, Nayra Albuquerque, Isa Albuquerque, Tata Amaral, Rose Panet e Maria Thereza Soares.

As profissionais partilharam experiências e dificuldades, dialogando com os números alarmantes da pesquisa. A equação não fecha: se as mulheres são a maioria da população brasileira, como elas estão sendo representadas na telona, em um cinema predominantemente realizado por homens, brancos e heterossexuais?

Rose Panet tomou como exemplo um catálogo da Ancine, com as obras selecionadas e realizadas com verba do Programa de Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), em que consta seu documentário Manuel Bernardino: o Lenin da Matta (2017), que participa da mostra competitiva nacional nesta edição do Guarnicê. “Entre os filmes do catálogo, com mais de 90 obras selecionadas entre quase 800 inscritas, menos de 30 eram dirigidas por mulheres. Na categoria a que concorri, de filme único, eu era a única mulher diretora. O cinema é uma representação da sociedade e há uma subordinação histórica da mulher. Nosso corpo não é de musa, é um corpo funcional. Ser mulher no mundo é um processo de luta. Ser mulher é uma condição e isto não pode nem deve ser definidor nem limitador”, afirmou.

Tata Amaral destacou que “temos um audiovisual hétero, cis, macho, branco e falocêntrico”. Elogiou o Guarnicê na escolha do tema em 2018 – “tElas”, destacando a presença e o protagonismo femininos no cinema brasileiro, mas ressaltou que isto não deve acontecer apenas em uma edição, por conta do tema. “Isso precisa acontecer sempre”, enfatizou.

Thais Fujinaga destacou que o ambiente dos curtas-metragens é aparentemente mais democrático. No entanto ressaltou a ausência de mulheres negras e indígenas e classificou o debate de ontem – e de resto, todo o 41º. Festival Guarnicê de Cinema – como superimportante.

Para Nayra Albuquerque, ter começado a carreira sob a égide do digital, torna mais fácil a produção e veiculação de seus trabalhos. Ressentiu-se porém de mulheres exercendo papéis em curadorias e júris – no que o Guarnicê também acerta este ano.

“A consolidação de políticas públicas como a regionalização da produção aponta para o surgimento de um novo cinema atento a questões de gênero e étnicas”, destacou Isa Albuquerque.

“O Brasil é o quinto país do mundo em violência contra a mulher. Dados nos dizem algo. É necessário fazer levantamentos e a partir deles, fazer algo. A política de cotas é algo sensacional e vem para corrigir distorções históricas. Essa cultura do patriarcado não nos representa”, finalizou Tata Amaral.

Transmúsica

As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit
As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit

 

O grupo As Bahias e a Cozinha Mineira fez um dos mais surpreendentes discos da música brasileira em 2015. O álbum intitula-se simplesmente Mulher, o que por si só pode parecer provocação: as duas vocalistas são transexuais.

Assucena Assucena é baiana de Vitória da Conquista; Raquel Virgínia é paulistana, mas morou em Salvador, onde chegou a cantar em trios elétricos em carnavais. Ambas têm 27 anos, cursam história na USP e o mesmo apelido: Bahia – são as cantoras as Bahias do nome do grupo.

Entre suas principais referências musicais estão a Gal Costa tropicalista e o Clube da Esquina mineiro – hoje, apenas um músico da formação é da terra de Beto Guedes; antes, eram todos, daí vem a segunda parte do nome do grupo.

Mulher. Capa. Reprodução
Mulher. Capa. Reprodução

A capa do disco, do artista plástico Will Cega, outra provocação, traz uma textura rubro-negra, que evoca símbolos femininos: um púbis que parece contrariar a ditadura da depilação total, arrodeado pela menstruação nossa de cada mês.

As letras, outra provocação, tapas na cara de uma sociedade que ousa abordar senhores compositores – literalmente – apenas por conta de suas (coerentes) convicções políticas. Sua música transita entre o carnaval e o protesto. Mulher está plenamente sintonizado com as discussões feministas que ocuparam sobretudo as redes sociais nos últimos meses.

Apologia às virgens mães, Josefa Maria, Lavadeira água e Uma canção pra você (Jaqueta amarela) contam as histórias de mulheres simples, com rara beleza e força poética. “Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?/ Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?/ Quantos beiços beberam do teu peito o afã?/ e dos seios sugaram o suco sem dor, dos teus zelos/ Senhora de saia, de ventre pré-destino/ quantos tempos cruzaram num ponto de cruz teu destino?”, perguntam-se na primeira.

Além de Assucena e Raquel, As Bahias e a Cozinha Mineira é formado pelos músicos Carlos Eduardo Samuel (eletroacústica), Danilo Moura (percussão), Rafael Acerbi (guitarra e violão), único mineiro da formação, Rob Ashttofen (contrabaixo elétrico e fretless) e Vitor Coimbra (bateria). Produtor musical da banda, Deivid Santos gravou piano e teclado no disco.

Mulher é recheado de participações especiais: André Andrade (beat e programações), Chico Ceará (acordeom), Joabe Reis (trombone), João Paulo Ramos Barbosa (saxofone tenor), Marcel Martins (cavaquinho), Mestre Dinho Nascimento (berimbau), Sarah Alencar (flauta e vocais), Sérgio Barba (cuíca), Sidmar Vieira Souza (trompete) e Vinicius Chagas (saxofone tenor).

Uma primeira tiragem promocional do disco está esgotada. Mulher pode ser ouvido na íntegra no youtube.