Os ringues de Fernando Abreu

Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução
Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução

Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.

Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.

Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.

Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.

Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].

É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.

Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.

Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.

“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.

De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.

A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.

Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.

O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.

Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.

Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).

Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:

DA BOCA PRA FORA

vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir

DE UM COMERCIAL DE TV

depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis

PARALELAS

qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?

[pp. 31, 33, 35]

Joãozinho Ribeiro autografa Milhões de uns no Malagueta

[release]

Show acontece sexta-feira, 31, com participações especiais de Adler São Luís, Célia Maria e Milla Camões

Divulgação
Divulgação

 

Ilha adentro, o compositor Joãozinho Ribeiro segue sua turnê-maratona de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro de 2012, com a participação de diversos artistas, entre os quais Chico César e Zeca Baleiro.

Recentemente Joãozinho esteve no Bip Bip, em Copabacana, Rio de Janeiro, mítico cenário da música e boemia cariocas, ocasião em que (re)encontrou diversos amigos maranhenses, autografou seu disco e prestigiou uma roda de choro que contou com a presença de uma lenda viva da flauta: a francesa Odette Ernst Dias, radicada no Brasil, uma das fundadoras do Clube do Choro de Brasília.

A próxima aparição de Joãozinho Ribeiro com a turnê de Milhões de uns será no Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Jardim Renascença II, telefone: (98) 32273000), nesta sexta-feira, 31, às 21h30. Os ingressos individuais podem ser adquiridos no local e custam R$ 20,00.

Na oportunidade Joãozinho Ribeiro contará com as participações especiais de Célia Maria, Milla Camões e Adler São Luís, seu primo. Anfitrião e convidados serão acompanhados por Celso Bastos (saxofone, flauta e clarinete), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (viola, violão sete cordas e guitarra) e Rui Mário (sanfona).

Convidados – Célia Maria iniciou sua carreira artística no tempo em que as rádios eram dotadas de auditórios, e parte da programação era preenchida com música ao vivo, entre calouros e profissionais. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conviveu com nomes como Nelson Cavaquinho e Cartola. Seu disco de estreia – e até aqui único gravado – leva apenas seu nome e foi lançado em 2001 e rendeu, no ano seguinte, o Prêmio Universidade FM de melhor compositor a Joãozinho Ribeiro por Milhões de uns.

Carioca de nascimento, maranhense de adoção, Milla Camões está gravando seu disco de estreia. Reconhecida na noite ludovicense, já venceu o Prêmio Universidade FM na categoria Talento da Noite. Versátil, transita pelos universos do samba, da bossa, do choro e do jazz com igual desenvoltura. Em 2012 foi escalada para a primeira noite do espetáculo de gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro. Cantou Coisa de Deus, blues parceria dele com Betto Pereira. Ovacionada pela plateia, precisou ser escalada para a segunda noite, interpretando a mesma canção.

Primo de Joãozinho Ribeiro e Arlindo Pipiu, Adler São Luís deixou a cidade natal que lhe dá nome artístico após concluir o ensino médio – então segundo grau – no Liceu Maranhense na década de 1970. A ideia era cursar Engenharia Química no Rio de Janeiro. Mas a música falou mais alto. Na década de 1980 gravou Tambô de criola, com a banda de Elba Ramalho e participações de nomes como Manassés, Marcos Suzano, Paulo Moura e Luiz Melodia. Em 1981, sua música Couraça foi gravada pela potiguar Terezinha de Jesus em Pra incendiar seu coração (CBS). Em 2012 lançou o livro de poemas Substância rara. Radicado em São Paulo há 20 anos sempre vem ao Maranhão para recarregar as baterias.

Em clima de festa e reencontro a noite de autógrafos de Milhões de uns promete ser mais uma celebração à amizade e à boa música. De avalistas, o espírito agregador e a vasta obra musical de Joãozinho Ribeiro, talento reconhecido como um dos compositores mais gravados do Maranhão.

A música é a arte dos encontros

Joãozinho Ribeiro autografa hoje Milhões de uns – vol. 1 no Bip Bip, em Copacabana. Foto: Paulo Caruá

 

Mesmo de férias, o compositor Joãozinho Ribeiro não baixa a guarda. Explico: funcionário público federal, ele está no Rio de Janeiro, acompanhado da musa Rose Teixeira, a quem dedicou, entre outras, Te gruda no meu fofão, tema de espetáculo homônimo encenado pelo Laborarte em tempos idos. Pois se o funcionário público goza férias, o artista não. Ou ao menos não completamente: poeta e musa estarão hoje (20) à noite no mítico Bip Bip, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, onde o primeiro autografa Milhões de uns – vol. 1 para cariocas e turistas que aparecerem.

Alfredinho, proprietário do mítico Bip Bip. Foto: Dario de Dominicis/ CartaCapital

A escolha não poderia ter sido mais apropriada e é cercada de coincidências. Tanto o Bip Bip quanto Joãozinho Ribeiro são menos conhecidos do que deveriam, dadas suas importâncias, um para a boemia carioca, outro para a música produzida no Maranhão, ambos para a cultura brasileira de modo geral. O bar foi fundado em 13 de dezembro de 1968, data da promulgação do famigerado Ato Institucional nº. 5, que acirrou as trevas da ditadura militar brasileira, de que o artista foi bravo combatente, destacado militante da greve da meia passagem, em São Luís do Maranhão, setembro de 1979.

As coincidências não param por aí: tanto João Batista Ribeiro Filho, o artista, quanto Alfredo Jacinto Melo, atual proprietário do bar, que adquiriu em 1984, são conhecidos por diminutivos. Outra coincidência reside no futebol: tanto Joãozinho quanto Alfredinho atualmente frequentam a segunda divisão, com seu “glorioso” Botafogo.

Como todas as noites (o bar abre às 19h30), a de hoje será pautada pela arte, cultura e solidariedade, além da confiança mútua entre proprietário e frequentadores, desta feita somada à do artista que, aproveitando um passeio, resolve estreitar os laços entre a cidade maravilhosa e a ilha magnética.

A noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro no Bip Bip tem entrada franca. Milhões de uns – vol. 1 será vendido por R$ 20,00 na ocasião.