“Momentos que roubamos do mundo”*

Forte apache. Capa. Reprodução

 

Certa vez em uma rede social o poeta Marcelo Montenegro relatou um encontro com um amigo. Passaram horas conversando sobre tudo e, ao se despedir, o interlocutor observou: “nem falamos de poesia”. Ao que o poeta retrucou: “como assim? Falamos o tempo inteiro”.

Marcelo Montenegro é poeta em tempo integral: seja dando aulas de História (sua formação acadêmica), seja escrevendo roteiros (ocupação de que tira o sustento), fazendo a luz de espetáculos de teatro (função lembrada no poema Memórias de um operador de luz), escrevendo prosa (deve-nos um livro) ou poesia.

Sua poesia esbanja musicalidade, não à toa ele apresenta há mais de década o espetáculo Tranqueiras líricas, que virou disco no fim do ano passado, além de ser parceiro de nomes fundamentais da atual cena que vale a pena, entre os quais a banda Fábrica de Animais e a cantora e compositora Vanessa Bumagny.

Forte apache [Companhia das Letras, 2018, 115 p.; R$ 40; leia Três pensatos, poema que abre o livro] é um feito raro, ao reunir três livros de Marcelo Montenegro: além da seção de inéditos que dá título ao livro, o volume traz reedições de Garagem lírica (2012) e Orfanato portátil (2003) – este último coloca o poeta em condição de talvez único poeta brasileiro vivo com um livro de poesia já em sua terceira edição.

Sua poesia é coalhada de referências da cultura pop, do universo do cinema, da música, da literatura, entre citações, colagens e epígrafes (Tom Waits, Elizabeth Bishop e Murilo Mendes), que ele costura como um ás. Como no poema-título, que cita, entre outros, Noel Rosa, Elvis Costello, Laura Riding, François Truffaut e Ferreira Gullar.

Espécie de “Manoel de Barros da cidade grande”, como anota o ídolo Chacal na orelha de Forte apache, Montenegro é dono de uma sensibilidade aguda capaz de eternizar aquilo que geralmente tomamos como banal. Como em Spoiler: “Lembro que você me contou/ uma história incrível./ Embora não lembre a história,/ sou capaz de soletrar,/ inclusive, a brisa que,/ por um microssegundo,/ inflou a cortina da sala.”.

Tudo é matéria-prima para a poesia de Marcelo Montenegro. A desprezada “ponta do pão Pullman”, “o baque da privada gelada” e “os ingredientes do Toddy” (em Velhas variações sobre a produção contemporânea), “Um gosto/ de obturação na boca”, “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato” “E aquela música linda/ que nunca toca no rádio” (em Buquê de presságios) – dois dos poemas mais bonitos já escritos neste século.

Volto ao poema-título e uma de suas citações: “Elvis Costello disse que o rock’n’roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu”. Podemos dizer o mesmo em relação à poesia. Quantas vezes o leitor, mesmo aquele que não arrisca versos, não se pegará pensando, ao longo da leitura de Forte apache, parafraseando Itamar Assumpção (outra referência, citado no poema Bildungsroman): “por que é que eu não pensei nisso antes?”.

Os poemas de Marcelo Montenegro são sofisticados em sua aparente simplicidade. Dão a falsa impressão de que poderiam ter sido escritos por qualquer um, mas, como alertou Leminski, “um bom poema/ leva anos”.

Poetas moram dentro de seus poemas e “Cantar é roubar/ uns minutos da morte” (Literatura comparada). Uma singela e rara cumplicidade se estabelece entre autor e leitor: seus versos nos tornam íntimos do poeta, transformando-nos em seus companheiros de aventuras, Estabanados aprendizes dos feiticeiros: “Contemporâneos de cada estilhaço./ Furtando taças de vernissages./ Bebendo vinho em copos de plástico.”.

&

*verso de Eu costumava grifar meus livros.

2984

– incorporando Clara Crocodilo e o Bandido da Luz Vermelha

assim falou Zaratustra
ao Recruta Zero: quem tiver de sapato
não sobra

office-boy com mortadela
na diarreia de dr. Phibes
Clarabela de biquíni
num anúncio de soda

sorrisos de latas de ervilha
e holofotes de esparadrapo
na sucursal
do Grande Frigorífico

enquanto estereofônicos repolhos
zombam de tudo isto
e nada disso

Desembucha, canalha!
gargalhadas de Rosebud
nos buchos do precipício

corta essa, nenhum grilo
esculhamba e avacalha
o Bandido da Luz Vermelha
aos gritos
de Clara Crocodilo

Durango Kid Alighieri
Perfume de Gardênia

uma lâmina no olho
e o cérebro equipado
para a próxima amnésia

*

Poema do Marcelo Montenegro, de seu Orfanato portátil [AtritoArt, 2003; Annablume, 2012, p. 52-53], que ele autografará na Ilha, em breve, bem como o mais recente, Garagem lírica. O poeta é um dos autores convidados da 7ª. Feira do Livro de São Luís. Este poema o blogue dedica ao professoramigo Flávio Reis.

Poesia não é acessório

Poesia é necessário!

Há alguns dias li no blogue de Ademir Assunção este poema:

Homem-homenagem

Excelentíssimo senhor
Com diplomas,
comendas e louvor.
Aplaudido de pé,
todo condecorado.
Nos palanques
sempre um bom lugar
A ele é reservado.
Cidadão honorário
Verbete de dicionário
Patrono da turma
Já é nome de rua.
Na galeria de retratos
sua foto avulta.
Em suma, um grande
filho da puta.

É de Fabrício Marques, no recém-lançado A fera incompletude (Dobra Editorial). Como diria Flávio Reis, “bateu”. Escrevi, há alguns anos, sobre Dez conversas – diálogos com poetas contemporâneos, livro em que ele entrevista 10 do subtítulo, ele mesmo um (não, não tem uma autoentrevista lá).

Ainda no blogue de Ademir, leio este, dele, de seu novo livro, A voz do ventríloquo (Edith), que recebi ontem, via Celso Borges, que encontrei na plateia de Chico Saldanha e Josias Sobrinho, no Chico Discos:

Bang bang no sábado à noite

um olho dois olhos um eco
um estampido morcego
estranho tiroteio de cego

garrafas estilhaçadas no saloon
caubóis saltando de lugar nenhum

balas chegando em câmera lenta
perfurando vísceras sem pedir licença

alguém vai tombar atrás do balcão
outro no banheiro não passa do chão

a face caída na poça de mijo
o jorro de sangue na testa um nojo

maluco faroeste ao vivo e em cores
sábado que vem num mocó da Travessa das Dores

leve a namorada e não esqueça das flores

Aí eu vejo o anúncio do lançamento de Garagem lírica e do relançamento de Orfanato portátil, de Marcelo Montenegro, de capas lindas e conteúdos idem. E lembro deste poema, que já postei aqui no blogue:

Gerúndio Jazz

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele texto
enquanto lota o Especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – Alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma das mãos
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro – Agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que nem deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém, no quinto sono,
deve estar virando para o outro lado;
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

Marcelo é este grande poeta que faz poesia com qualquer coisa do dia a dia, já o chamaram “Manoel de Barros urbano”. Dá uma imensa alegria saber dos lançamentos, eu que acompanho à distância os trampos do cara, e me somo ao coro dos que ao longo do tempo se tornam chatos, com a mesma pergunta de sempre, “e o próximo livro, quando?”, desde que ainda se chamava Hemingway Hotel. Grande honra ter um exemplar autografado do esgotadíssimo Orfanato portátil, que me chegou num envelope junto com alguns poemas inéditos, em papeis que ainda tenho guardados. Já fiz encomenda da nova edição, seja, meras desculpas para justificar a aquisição de um livro que já se tem, pela capa ou pelo texto de apresentação da querida Angélica Freitas. Pra mim Angélica Freitas é Marcelo Montenegro de saias. E Marcelo Montenegro é Angélica Freitas de calças.

Uma vez quase nos trombamos, eu e ele, em Imperatriz, numa Feira do Livro em que a poeta Lília Diniz aceitou umas sugestões minhas e a gente levou pra lá nomes como Artur Gomes, Celso Borges, João Paulo Cuenca e Marcelo Montenegro. O trabalho me obrigou a voltar antes à São Luís e acabei não vendo, por exemplo, a leitura que CB e Marcelo fizeram de Fotografia aérea, de Ferreira Gullar.

Há tempos, aliás, Marcelírico me fala da vontade de trazer suas Tranqueiras líricas à Ilha. Livros novos são ótimo mote para trazê-los, ele, Ademir, Fabrício e tanta gente boa que tá se mexendo por aí, fazendo coisas bonitas como a que você, caro leitor, cara leitora, leu, só neste post. Imaginem as outras páginas dos livros! Sobre eles, aliás, volto a falar em breve. Por enquanto fiquem com Marcelírico dizendo o poema acima:

Velhas variações sobre a produção contemporânea

Gerúndio Jazz

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele texto
enquanto lota o Especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – Alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma das mãos
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro – Agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que nem deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém, no quinto sono,
deve estar virando para o outro lado;
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

Poema do querido Marcelo Montenegro, que, grande notícia!, lança em novembro que vem Garagem Lírica e relança no mesmo mês o esgotado e ótimo Orfanato Portátil. Do livro novo e do inédito, alguns poemas compõem Matinê (título de outro belo poema que está lá), coletânea distribuída gratuitamente em SP e que pode ser baixada em pdf, a exemplo de outros títulos da coleção Poesia Viva.