Dissecando Joãozinho

Ricarte Almeida Santos, Joãozinho Ribeiro e o blogueiro, em alguma edição do Clube do Choro Recebe. Autor desconhecido.

Daqui a pouco, às 16h, participo do “Café com Direitos Humanos – Lives em tempos de pandemia”, atividade semanal que a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) inventou para não deixar cair a peteca dos debates acerca do tema, diante da impossibilidade dos encontros presenciais, em razão do isolamento imposto pela crise sanitária causada pela covid-19.

O tema de hoje é “Cultura e resistência: obra e arte de Joãozinho Ribeiro” e além daquele cujo engenho criativo será dissecado na cerca de hora e meia de programação, estará comigo o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos; ou seja, estou em casa, em vários aspectos: numa live realizada por uma entidade que assessorei e presidi, ao lado de dois amigos de copo e de cruz.

Vida, obra e militância em Joãozinho Ribeiro são praticamente uma coisa só: poeta, compositor, gestor cultural e funcionário público aposentado, seu livro (Paisagem feita de tempo, de 2006, há tempos merecendo uma reedição), seu disco (Milhões de uns – vol. 1, de 2013, há tempos merecendo um segundo volume) e seus poemas e canções (registradas por inúmeras vozes ao longo destes mais de 40 anos de carreira) não raro trazem preocupações e questionamentos políticos e sociais, embora, obviamente, não se limite a estes temas.

A foto que abre-ilustra este post, cuja autoria me foge à memória, é de alguma edição do saudoso Clube do Choro Recebe, que Ricarte Almeida Santos produziu entre 2007 e 2010 no Restaurante Chico Canhoto, de saudosa memória, projeto que assessorei, continuando trajetória iniciada justamente com Joãozinho Ribeiro: meu primeiro trabalho remunerado, como assessor de comunicação, foi justamente seu projeto Samba da Minha Terra (2002-3), que levou o samba e o choro – talvez os “departamentos” mais inspirados de sua música – a diversas comunidades da ilha, com vários convidados especiais a cada edição. Merecidamente vencedor de diversas categorias do também saudoso Prêmio Universidade FM.

Por falar em convidados especiais, arremato com um deles: certo dia, ao fim do expediente, encontrei-o na banca de revistas de Dácio, no estacionamento da Praia Grande. Paisagem feita de tempo, então recém-lançado e ainda encontrável nas melhores casas do ramo, figurava nas prateleiras. O compositor Antonio Vieira, referendando a qualidade da obra poética de Joãozinho, abriu o livro numa página, recitou uma quadra – “Debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida” – e arrematou: “é poeta!”.

A transmissão da live acontece pela página da SMDH no facebook. Até lá!

Serviço:

Divulgação

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”

São Luís e os outros 400

“Cidade és minha paisagem / feita de tempo e de mim / de tudo aquilo que somos / e o que seremos, enfim”.
 
O que será que lateja no coração de uma cidade às vésperas de se tornar quatrocentona, cercada de celebrações que não disfarçam uma disputa sem precedentes ou pudores pela sua direção política para os próximos anos? O que será que anda nas cabeças e nas bocas dos seus habitantes, confinados no breu da escuridão da cidadania, reduzida a manifestação solitária de uma cabine eleitoral, por meio de uma convocação obrigatória a cada quatro anos?
 
“Debaixo da ponte há um mundo / feito de gente esquecida / crianças queixando infâncias / infâncias queixando a vida”.
 
É desta cidade que não está nos postais destinados aos turistas que nos visitam, nem nas propagandas milionárias pagas com dinheiro público veiculadas a cada minuto nos meios de comunicação privados, que falamos. Da cidade dos becos e ladeiras, das palafitas e palmeiras, dos subúrbios e sobrados, que insistem em compartilhar a geografia humana de outros desenhos urbanos, excluídos das pranchetas dos planejadores do seu destino, para mergulhá-la numa insana especulação imobiliária, verticalizando a vida, entregue a sanha desenfreada dos automóveis.
 
“Um mundo dentro da ponte / desafiando a cidade / amarga sobre os instantes / as suas necessidades”.
 
A São Luís de um milhão de habitantes, que comemora oficialmente esta semana seus 399 anos, é uma cidade, sobretudo, excludente e desigual; despossuída do mínimo de políticas públicas voltadas para os grandes problemas que afligem a imensa maioria de sua população. O transporte de massas, decente e seguro, o saneamento básico e a água de qualidade, disponíveis principalmente para a população que vive nos grandes aglomerados urbanos que circundam a cidade, com toda a certeza, são os maiores desafios a exigirem urgentes soluções.
 
“A ponte que une dois lados / separa muitos caminhos / por cima, uns vão pisando / debaixo, outros sozinhos”.
 
A qualidade de vida nestas circunstâncias, até mesmo dos abastados é duvidosa, que dirá da imensa maioria dos habitantes da Ilha de Upaon-Açu, excluída dos processos decisórios e da condução dos seus próprios destinos, diante da falência das formas de representação política que já não representam mais nada no plano institucional, a não ser os interesses econômicos de gestores e parlamentares cada vez mais enterrados no mar de lama da corrupção, com seus tentáculos abarcando todas as entranhas dos podres poderes da nossa República Federativa.
 
“Calçando os pés com a esperança / agasalhada no escuro / entrando na fila imensa / que espera pelo futuro”.
 
E por falar em representação política, em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, na edição de 19/6/2011, intitulado Você no Parlamento, Oded Grajew, presenteou os leitores com a seguinte e notável reflexão:
 
“Os países que possuem os melhores indicadores de qualidade de vida são aqueles em que a democracia participativa mais avançou, nos quais a sociedade e as organizações sociais mais participam nas decisões e no acompanhamento das políticas públicas, fazendo prevalecer o interesse público acima dos interesses corporativos”.
 
Manchete do Jornal Pequeno deste último domingo, 04/09: Brasileiros organizam nas redes sociais ‘O DIA DA INDIGNAÇÂO’, programado para o 7 de setembro próximo. Quem sabe, poderá se transformar num grande momento para expressarmos nas ruas e avenidas deste País todo descontentamento da população contra o perigoso rumo que a nação está tomando, ajoelhada e perplexa diante do caos da corrupção; uns, acomodados pelo conformismo do discurso apocalíptico, enquanto outros justificando suas omissões pela inevitabilidade do particularismo de suas conveniências.
 
Nestas circunstâncias, cabe lembrar e fazer valer o providencial e atualíssimo discurso do líder negro e religioso Martin Luther King:
 
“O que mais preocupa não é o grito dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
 
[Com o texto acima, de Joãozinho Ribeiro, publicado na edição de segunda-feira (5) no Jornal Pequeno, este blogue presta sua homenagem à capital maranhense, tão maltratada pelos gestores públicos. Terá a Ilha-capital algo a comemorar? Os trechos em negrito-itálico são de poema (o livro Paisagem feita de tempo) e música (o choro Milhões de uns) do poeta-compositor-colunista]