Há uma luz que nunca se apaga

The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução
The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução

 

Registro esta história pelas conexões envolvidas, tantos anos passados. Não fosse a quarentena, talvez fosse um texto que não passasse da ideia de escrevê-lo.

A memória é uma ilha de edição, nos ensinou Wally Salomão. E Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.

Apresentando hoje o Balaio Cultural, na companhia de Gisa Franco, remotamente, eu em minha casa, ela na dela, tive a honra de saber da audiência do amigo Nilsoaldo Castro Silva, o Capu, direto de Rosário/MA. Daqueles amigos que, como comentei com ele, pouco antes de o programa começar, mesmo que a gente demore a se ver, quando nos encontramos novamente parece que estamos continuando uma conversa interrompida ontem.

Foi Capu quem me apresentou The Smiths. Dois cds, totalizando 28 faixas, os dois volumes de uma coletânea do grupo britânico formado por Morrissey (voz), Johnny Marr (guitarras), Andy Rourke (contrabaixo) e Mike Joyce (bateria), os dois primeiros os compositores do repertório.

Eu era um adolescente com meu macarrônico inglês do colégio, mas conseguia, ouvindo os discos, acompanhar, por vezes sem saber o que diziam, as letras nos encartes, posteriormente dispensados: não demorei a cantar sem precisar ler músicas como This charming man e The boy with the thorn in his side, até descobrir There is a light that never goes out, minha preferida desde sempre.

Corta para a vida adulta, alguns meses atrás: a primeira vez em que ela veio ao apartamento em que hoje moramos, no comecinho do namoro, pediu: bota uma música. Eu já sabia que ela gostava de rock e arrisquei justamente There is a light that never goes out e, para minha surpresa, ela revelou a coincidência: trata-se também de sua faixa predileta do grupo.

Fiquei pensando nisso tudo enquanto apresentava o programa e combinei com Gisa Franco de tocar a música e oferecê-la a Guta Amabile. Mas acabei me embananando e mandando a música errada para o operador de áudio – a esta altura Francisco Nunes já substituía Vitor Nascimento –, que tocou The boy with the thorn in his side. Já era! A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior, já nos diria Belchior.

Como tudo se conecta e eu não queria perder a história – ou melhor, as histórias, das conexões e dos erros – faço este breve registro, oferecendo aqui a música certa.

Não sem antes lembrar de Leminski, em cujo poema erra uma vez nos ensina: “nunca cometo o mesmo erro/ duas vezes/ já cometo duas três/ quatro cinco seis/ até esse erro aprender/ que só o erro tem vez”.

5 de maio, dia dela

Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução
Familiares e amigos/as presentes ao parabéns virtual. Captura de tela. Reprodução

 

Um passarinho pousou e o outro ficou olhando, nem de perto nem de longe, mas certamente desconfiado. “Essa água é boa?”, perguntou o segundo. “É sim, pode confiar, pode vir”, respondeu o que já se esbaldava, matando a sede numa tarde “quente pra caralho”, como diria o poeta Celso Borges, sobre qualquer tarde em São Luís do Maranhão.

A história dos passarinhos, com o diálogo e a dramatização dos mesmos, quem me contou foi minha namorada, com quem tenho me alegrado ao ver os passarinhos pousando para beber a água – água que passarinho bebe, pura, sem qualquer adoçante, para o bem da saúde dos beija-flores e outros que têm aparecido – em uma flor de plástico que dependuramos na janela da sala, antes de a quarentena não mais nos permitir sair para comprar supérfluos.

Se o “papo de passarim” (evoé, Zé Renato e Xico Chaves!) foi real ou é invenção de sua imaginação fértil não sei dizer. Mas atesto a veracidade mesmo sem tê-lo ouvido – eu não estava na sala quando se deu e temos falhado sistematicamente na tentativa de fotografar algum passarinho bebendo água.

Compartilho esta história da intimidade da quarentena por que hoje é aniversário de Guta Amabile, companheira que me adoça a vida com esse tipo de delicadeza e o mel de seus olhos, que me fazem passarinho sempre embriagado de beber em sua flor.

Insisto em falar em quarentena não para dar um tom melancólico ao texto – do piegas, impossível escapar –, mas para dizer o quanto tem sido um período de aprendizado e ressignificação: escrevo esta espécie de declaração de amor em prosa enquanto asso um bolo de maçã no forno.

Em tempos de normalidade, muito provavelmente teríamos comprado um bolo num supermercado, panificadora ou coisa que o valha. Ou seja, a quarentena tem nos tornado uma espécie qualquer de artesãos nas mais diversas especialidades. Como li outro dia numa rede social: uma geração de chefs está surgindo. Certamente há gente pirando, sem saber lidar com a situação, como li, também outro dia, também numa rede social: vai ser good vibes assim no inferno! Como tudo na vida, cada um lida de uma maneira, da maneira que quer ou que pode.

Obviamente este 5 de maio não saiu como o planejado, mas o que saiu como tal neste 2020 cujo roteirista está caprichando nas surpresas? Lógico que eu adoraria, após nossos expedientes e a aula dela, passar para parabenizar pessoalmente minha sobrinha Mayara, que também aniversaria hoje e, na sequência, encontrar parentes e amigos num bar. Mas termos que nos virar em casa mesmo não significa que o natalício dela tenha sido cercado de menos amor e carinho.

Pela manhã, por exemplo, conseguimos reunir virtualmente alguns parentes e amigos, entre os que iriam ou não ao bar, por um motivo ou outro. Entre os “parabéns a você” e sinceras declarações de afeto, vi a emoção em seu sorriso e me emocionei como se fosse meu próprio aniversário – mas a este cronista, no rumo dos 40, basta um por ano.

“A vida é a arte do encontro”, viva Vinícius, que certamente ergueria o copo, saudando-nos com um brinde e desejando felicidades, após ouvir a história de como nos conhecemos, provavelmente contada conosco sentados às mesas na mesma calçada em que a vi pela primeira vez, quando noutra tarde quente de domingo, vi-a passar, como se desfilasse e transformasse a Godofredo Viana numa passarela, ela desde então miss universo de meu coração.

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

Obra do acaso, este deus que nos rege desde então, hoje um camaleão po(u)sou na árvore que contemplamos “da janela lateral do quarto de dormir” (Lô Borges e Fernando Brant). Se ainda não tivemos sucesso em fotografar as avezinhas, com o réptil a história foi diferente.

Em tempo: o dia ainda não acabou, mas hoje já ouvimos duas vezes o Clube da esquina (1972), o antológico encontro de Milton Nascimento, Lô Borges e toda a patota mineira que deu nome ao disco e ao “movimento”, que tem sua música predileta na história da música popular brasileira: Um girassol da cor do seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges).