Duas coisas

Ontem bebi no Retão. Sim, reabriu. Funcionará, agora, apenas de quinta a sábado, sempre à noite. O garçom me disse que vão meio que ver no que dá, terminar 2012, avaliar se vale a pena e, se for o caso, alugar o ponto ano que vem. Torço pra que continue, vida longa ao Retão!

Tratei equivocadamente, por puro esquecimento mesmo, o disco A obra para violão de Paulinho da Viola como um disco dele. Não é. É um dos volumes de Brasil Instrumental, disco-brinde duplo distribuído por uma empresa mineira de mineração a clientes, amigos, parceiros, fornecedores e que tais em fins de 1985. No primeiro volume, o violonista maranhense João Pedro Borges executa 10 peças instrumentais de autoria de Paulinho da Viola, acompanhado por este ao cavaquinho e César Faria, pai do compositor, ao violão. No volume 2, Brasil, sax, violão, cello e trombone, um encontro sui generis, um quarteto, no mínimo inusitado, tanto quanto talentoso: Paulo Moura (sax, clarinete), Raphael Rabello (violão sete cordas), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Zé da Velha (trombone). Brasil Instrumental nunca chegou ao formato digital, ao menos não oficialmente. Mas seus dois volumes podem ser abracadabaixados.

Obituário: Retão

O Retão: saudades e lembranças, após mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da Ilha

Localizado na Avenida Vitorino Freire (entre Camboa e Areinha), na altura da Vila Passos, o Restaurante Retão era um espaço por que tínhamos muito carinho, onde costumeiramente íamos beber, eu e minha esposa – que chegou a comemorar um aniversário no recinto –, nós e os pais dela, mamãe e alguns amigos iniciados em nosso particularíssimo roteiro de baixa gastronomia – às vezes este grupo inteiro somado, de uma vez.

“E aí, meu patrão?!”, sempre me saudava o garçom da noite, logo que eu lhes pisava a calçada, onde em geral ficávamos fugindo da parte interna, sempre mais abafadiça e barulhenta – a exceção eram as noites de chuva (o Retão sempre funcionava à noite, algo em torno de entre 18h e meia noite). Depois dos apertos de mãos e abraços, tanto faz termos ido ali ontem ou há muito sem aparecer, já devidamente instalados em uma mesa ao vento, saltava o pedido: “o de sempre!”. E cervejas começavam a ser enfileiradas enquanto o tira-gosto era preparado.

Espaço simples, mas muito agradável, sua calçada e vento era o que havia de bom na região, com sua cerveja gelada e tira-gosto de vitamina B3, os três bês de bom, bonito e barato – sempre ótimas pedidas seus pratos de alcatra, frango e carne de sol, entre outros, porções “consideradas”, sempre acompanhadas de batatas fritas, salada e farofa. As contas, trazidas por seus garçons oficiais, os dois únicos que se revezavam nas noites, sempre nos assustavam. “Só isso?”, indagávamo-nos entre os comensais, sempre esperando uma conta mais cara, diante de tantas garrafas vazias enfileiradas aos pés da mesa e um ou mais pratos já recolhidos por Humberto e George, eles, os dois garçons no revezamento noite após noite.

A música não era o seu ponto forte e o aparelho de DVD podia exalar tanto um forró de plástico da pior qualidade quanto uma coletânea “momentos de amor” anos 70-80 e até mesmo apresentações de manifestações juninas de nossa cultura popular, ao longo dos festejos de São João.

Era, às vezes, nossa esticada natural após fazer a feira semanal, nas noites de quinta. Ou a parada obrigatória na sexta, para um papo qualquer, extensão do trabalho ou apenas bobagens para descontrair e aliviar a seriedade da vida, sempre tão corrida, após mais uma semana de missão cumprida. Canto de matar o calor que castiga a Ilha cotidianamente, mesmo quando a noite já caiu.

Depois de mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da capital maranhense, o Retão fechou as portas. Sem maiores detalhes, Humberto confidenciou-me prejuízos que sua mãe, proprietária do local, estaria tendo. O espaço está lá, fechado e bem localizado. Torço para que renasça feito Fênix pelas mãos de alguma alma bondosa que queira ver contentes alguns habitués dali. Do contrário, restarão boas lembranças e saudade – as que me ocorrem todo dia, toda vez que passo ali em frente. Como hoje, com este obituário já escrito, quando parei defronte para tirar a fotografia que o ilustra.