Galeria

Pedaco duma asa. Capa. Reprodução
Pedaco duma asa. Capa. Reprodução

 

Geralmente incorre em clichê o crítico que escreve sobre um disco dizendo tratar-se de uma pintura. Incorre em quê, então, o crítico que escreve que determinado disco é uma galeria? Depende. Mas se o disco for Pedaço duma asa [Brisa, 2015], de Mariana Aydar, é justamente isso, por reunir diversas pinturas.

Explico: o artista plástico Nuno Ramos assina quase a totalidade do disco. 11 das 12 faixas são dele: cinco em parceria com o também artista plástico Clima (que assina sozinho a única música que não é de Nuno, Samba triste), quatro sozinho, uma em parceria com a própria Mariana Aydar (Poeira) e uma em parceria com Rômulo Fróes, responsável por apresentá-los, o Barulho feio que batizou um disco do compositor.

No entanto, “o primeiro Nuno Ramos que eu conheci foi o da música, desconhecia sua vida ligada às artes plásticas”, adverte a cantora, logo no início do texto do encarte.

Mamãe papai, que abre o disco, é uma espécie de pedir a bênção aos pais, mesmo após uma carreira consolidada – Pedaço duma asa é seu quinto disco. “Mamãe/ papai/ dá licença de tentar/ eu cantar/ mal não faz”, começa a letra. Mariana Aydar é filha do músico Mário Manga (ex-Premeditando o breque) e de Bia Aydar, que já produziu um vasto leque de artistas brasileiros.

É o disco mais rock (a guitarra é quase onipresente) e mais axé (vide Dedo duro e Dentro das rosas, que dialoga com o carnaval das tribos de índio) de Mariana Aydar, mas o samba também segue firme e forte (vide Atrás dessa amizade, Samba triste e Caia na risada), destacando-se a guitarra de Guilherme Held, a percussão de Maurício Badé e a presença do esposo Duani em diversos instrumentos (contrabaixo, programação, violão, teclados, órgão).

Pedaço duma asa, a faixa-título, resume bem o disco: “eu vi o amor brilhar/ pedaço duma asa/ parecia carnaval/ zumbido em meu ouvido/ a voz que me dizia/ saber de mim o que eu já não sabia/ não sei tudo o que eu sonho/ talvez o que eu componho/ respondo ao que eu não sei mas sei, seria/ maior que a natureza/ que o som e que a beleza, que a arte, o canto, o sol/ e o bem maior, bem maior/ eu vi o amor cantar”.

Ouça Mariana Aydar em Dentro das rosas (Nuno Ramos/ Clima):

Uma homenagem honesta e inovadora

Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook
Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook

Nelson Cavaquinho (29/10/1911-18/2/1986) é dono de uma das líricas mais particulares da música popular brasileira. Sua obra é mórbida, permeada de morte e amores desfeitos – o que não deixa de ser uma espécie de morte.

Rei vadio. Capa. Reprodução
Rei vadio. Capa. Reprodução

Aos 30 anos de sua morte, o mangueirense recebe tributo à altura, de Romulo Fróes, admirador confesso: Rei vadio – As canções de Nelson Cavaquinho [Selo Sesc SP, 2016]. O cantor e compositor é um dos nomes mais festejados no cenário da música brasileira dos últimos 15 anos, como integrante do grupo Passo Torto ou em carreira solo, esta marcada, desde o início, pela reverência ao ídolo de cabelos prateados – em Cão [2006], seu segundo disco, já regravava Mulher sem alma [Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito], que volta a aparecer neste tributo.

Além da predileção por temas sombrios, outras características marcam a obra de Nelson Cavaquinho, quando interpretada por ele mesmo: seu jeito de tocar as cordas (de arame farpado) do violão, beliscando-as com dois dedos, como se usasse um alicate, sua voz fanha e rouca, forjada em álcool, tabaco e noites de sono perdidas, causam uma sensação incômoda em ouvintes desavisados ou neófitos. A “beleza difícil” que Romulo Fróes aborda em texto à guisa de introdução desta valorosa homenagem.

Certamente a mesma estranheza causada nele ao ouvir o ídolo pela primeira vez. Como acrescentar algo novo a obra tão singular? Um dos caminhos foi não se contentar com o óbvio: a homenagem de Romulo Fróes não é best of vulgar, mas um trabalho de pesquisa – marcado também pelo afeto – de quem conhece profundamente o terreno em que está pisando. Tanto que o disco traz o choro Caminhando, originalmente de Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia, com letra de Nuno Ramos e voz de Ná Ozzetti – que já dividiu disco com o Passo Torto –: “Essa rua era minha/ eu cantava sozinho/ no meio da praça/ e vencia sozinho/ com a minha cachaça/ mais o meu cavaquinho”, diz trecho da letra.

Nuno Ramos, originário das artes plásticas, é compositor importante no universo de Fróes, de quem é parceiro, e assina um baita artigo sobre o homenageado no encarte do disco – originalmente publicado no número inaugural da revista serrote [março/2009], do Instituto Moreira Sales.

Outros convidados são Criolo (em Luz negra, de Nelson Cavaquinho e Amancio Cardoso) e Dona Inah (em Eu e as flores, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), espécie de voz feminina de Nelson Cavaquinho, noutro sentido que não o atribuído se falássemos em Beth Carvalho e Clara Nunes, para citarmos duas de suas grandes intérpretes.

Outra opção estética de Fróes para evitar o óbvio foi adentrar o estúdio sem nenhuma ideia pré-concebida: os arranjos foram tomando forma no ato da gravação, o que garante às 14 faixas de Rei vadio o frescor do improviso, como se jazzificassem Nelson Cavaquinho, o que é fortemente percebido nas intervenções do saxofone de Thiago França.

Também comparecem ao excelente time de músicos nomes como Allan Abbadia (trombone), Curumin (bateria em Mulher sem alma), Guilherme Held (guitarra), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (contrabaixo elétrico), Rodrigo Campos (violão, cavaquinho e guitarra), Wellington Moreira “Pimpa” (bateria e percussão) e a Velha Guarda Musical de Nenê de Vila Matilde (Clara, Irene e Laurinha, coro em Vou partir, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), entre outros.

Como a obra do homenageado, Rei vadio é um disco de tons cinzas, como entrega o projeto gráfico, cujas imagens são frames do antológico curta-metragem Nelson Cavaquinho [1969] de Leon Hirszman. Não é um disco para ouvidos acostumados com música fácil e descartável, mas fundamental para quem deseja compreender dois momentos distintos e importantes da música popular brasileira: a obra de Nelson Cavaquinho, contemporâneo de Noel Rosa (citado na letra de História de um valente, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro) e Cartola, para citarmos dois gigantes do samba, e esta turma nova, que já vem movimentando a cena há algum tempo, tem também uma voz particular, mas não tem vergonha de dizer o nome de seus ídolos.

Com respeito, reconhecimento e admiração

Gosto de Gilberto Mineiro. E gosto de algumas produções de Gilberto Mineiro. O apresentador do Companhia da Música, às quintas-feiras, 20h, na Rádio Universidade FM, foi o responsável por vindas à Ilha de Ceumar, Tiê e, agora, no próximo dia 14 de agosto, de Tulipa Ruiz, que lançará no palco do Arthur Azevedo seu segundo disco, Tudo tanto.

Numa capital em que ou as coisas nunca chegam ou chegam com bastante atraso é digno de elogios o trabalho de Gilberto Mineiro, ao incluir a capital quatrocentona (há controvérsias) no roteiro de lançamentos de uma artista independente, isto é, com penetração não patrocinada no mundo jabaculezado das rádios brasileiras. O radialista certamente é um dos que não pedem mais que discos em troca de executar bons nomes, daqui e de fora, em seu programa.

“IMPERDÌVEL! Mais uma vez os produtores de música ruim, a exemplo do show da Tiê, comentam que não existe público na ilha para música inteligente. Galera, vamos lotar o T.A.A. e mostrar para esse [sic] bucéfalos que existe vida além do curral deles. IMPERDÌVEL!”

Juro que não entendi o despropositado entre aspas acima, que catei no perfil do elogiado produtor no Facebook. Algumas perguntas que me ocorrem imediatamente: Tiê faz música ruim? O show dela é/foi ruim? (não assisti: liso, na ocasião, não fui, como nunca sou, agraciado com cortesias pela Musikália. Ou é Musicália?) É o próprio Gilberto Mineiro quem comenta que “não existe público na ilha para música inteligente”?

A postagem do produtor é confusa e o deita em contradição, ele que vez ou outra tira a carapuça de “blindador de cabeças” tão alardeada em seu programa de rádio para produzir shows de qualidade duvidosa à guisa de levantar uns trocados.

“Raiva é energia”, como aprendi com o rock’n roll e com meu amigo irmão Reuben da Cunha Rocha. Mas como aprendi com o dito popular, “tudo o que é demais é sobra”. É claro que uma porrada de coisa ruim me incomoda na música produzida no Brasil hoje em dia (a trilha sonora da novela Avenida Brasil, da Rede Globo, é um exemplo; os babacas com seus porta-malas abertos em cada bar, em cada praia, em cada esquina, outros); prefiro, em vez de perder tempo falando mal de Michel Teló e quetais, elogiar (e tentar conquistar fãs e ouvintes para) Tulipa, Tiê, Ceumar, Renato Braz, Curumin, Criolo, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e tantos outros que merecem ser ouvidos por cada vez muito mais gente.

Espero, sinceramente, ver o teatro lotado para prestigiar a produção de Gilberto Mineiro e o talento de Tulipa, que vem provando que Efêmera era mesmo apenas o título de seu disco de estreia. Espero não ter problemas de agenda (tenho viajado um bocado a trabalho) e de grana e poder estar lá, cantando junto, reafirmando postulados poéticos, “a ordem das árvores não altera o passarinho”.

Mais três grandes discos de 2011 para você baixar em 2012

Mas não espere tanto e baixe agora!, os três disponíveis nos sites de seus autores; ao longo do post há outros, não (só) do ano passado

Passo TortoRômulo Fróes é um pensador da música contemporânea. Cantor e compositor de indiscutível talento, com excelentes discos no currículo – Calado (2004), Cão (2006), o duplo No chão sem o chão (2009) e Um labirinto em cada pé (2011) –, é, além de tudo, das poucas figuras que se dispõem a pensar a música contemporânea. Digo, entre os que estão produzindo música contemporânea.

Mas Passo Torto não é um disco de Rômulo Fróes, que tem o talento somado aos de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos (do ótimo São Mateus não é um lugar assim tão longe, de 2009) e Marcelo Cabral. O último é contrabaixista e produtor, os outros três, compositores. O grande lance da experiência é que aqui eles compõem juntos. É uma tradução de experiências anteriores, em que uns tocam no disco do outro, outros participam do show de um etc. Referência comum aos trabalhos-solo dos moços: o samba. Mas dizer que se trata de um disco de samba seria diminuí-lo. É samba, do bom, mas é bem mais que isso.

Serafim – Conheci o mineiro Sérgio Pererê, cantor, compositor e multiinstrumentista, através de sua conterrânea Ceumar, sua Onde qué, gravada em Sempreviva! (2003). Depois ele participaria de Meu nome (2009), disco dela, todo autoral, gravado ao vivo, antes de mudar-se para a Holanda: Pererê canta em Gira de meninos, parceria dos dois, já gravada por Rubi (Paisagem humana, 2008).

De seu disco novo, a primeira música que ouvi foi o samba Brilho perfeito: “Creio em seu amor e é por isso/ que conheço as curvas da estrada/ nunca me atirei num precipício/ e nem me perdi na encruzilhada”, entre as 16 a minha predileta.

Em seu site, o ouvinte pode escolher quanto quer – se quer – pagar pelo disco e ainda como quer – se quer – o encarte, se colorido ou p&b.

SetembroJunio Barreto demorou sete anos entre o bom disco de estreia e este ainda melhor. Nesse meio tempo, o “Caymmi de Caruaru”, como é chamado, foi gravado por nomes como Gal Costa, Lenine, Maria Rita, Roberta Sá e Rubi, entre outros, embora seja ainda um quase completo desconhecido, para muitos.

Muitos que certamente lembram de versos como “vim, vim, vim/ eu vim, oi/ atendi teu pedido e vim”, de O pedido (Junio Barreto e Jam Silva), que abre o belo Que belo estranho dia pra se ter alegria (2009), de Roberta Sá. Ou de Santana, gravada por Junio Barreto em sua estreia (2004) e regravada por Gal Costa (Ao vivo, 2006), Lenine (Acústico MTV, 2007), Rubi (Paisagem humana, 2008) e Maria Rita (Elo, 2011): “A santa de Santana chorou sangue/ chorou sangue/ chorou sangue e era tinta vermelha/ a nossa santa padroeira chorou sangue”.

Ao contrário da personagem de sua música mais gravada, você, como o blogueiro, certamente vai rir de alegria ao ouvir Setembro. Mas não espere o mês-título chegar: como os outros recomendados neste post, é disco pra se ouvir o ano inteiro, começando por agora.