Reencontro

Retrato: Guta Amabile
Retrato: Guta Amabile

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, nos ensinou um antigo compositor baiano, sobre o tempo.

Ontem ele veio me visitar, após meses nos falando apenas por videochamadas, imposição do isolamento social, por sua vez imposto pela pandemia da covid-19. Novos tempos, novos hábitos.

Distância não é sinônimo de ausência.

Mas as videochamadas não me permitiam perceber o quanto meu filho cresceu nesse tempo. Como está comprido, admirou-se a avó, que, no passeio ligeiro com ele, levei para visitar, ela também há tempos sem vê-lo pessoalmente.

Ele riu o trajeto inteiro, para minha surpresa – achei que fosse estranhar mais, diante da quebra da rotina. Em casa, da janela lateral do quarto de dormir, vimos a ponte e suas luzes com seu trânsito como se (já) estivéssemos em dias normais, vimos a árvore e as plantinhas; infelizmente não vimos os passarinhos, pois já era noite.

Brincamos um pouco com um Cebolinha “vintage”, um boneco que eu tenho desde que tinha mais ou menos a idade do menino, um boneco que você abaixa a aba do boné e ele muda as feições – são quatro, do alegre ao zangado. Como o menino, que da gargalhada mais gostosa, muda para o aborrecimento, a reivindicar os vídeos com as músicas que tanto aprecia.

Deu tempo de verouvir Vanguart, Beatles, Partimpim e os Muppets relendo o Queen – juro que a rima não foi intencional (mas as coisas se deram exatamente nessa ordem).

Saindo de casa apenas por extrema necessidade, vejo muita gente a descumprir as normas sanitárias de uso de máscaras ou distanciamento social – certamente gente que não perdeu nenhum parente ou não sentiu saudade de um filho.

Subiu o amigo Celso Sampaio

Em Baracatatiua, Alcântara, em momento de descontração no intervalo de alguma atividade

Faleceu na noite de ontem (29) o advogado Celso Sampaio (foto), assessor jurídico da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), em decorrência de complicações após uma cirurgia realizada para a retirada de um tumor no intestino, detectado durante sua luta contra o câncer.

Celso Sampaio estava internado no Hospital Universitário Presidente Dutra (HUUFMA), em São Luís. Após várias desmarcações, o procedimento foi realizado semana passada. Ele não resistiu ao quadro de hemorragia e comprometimento pulmonar e veio a falecer.

Figura conhecida pelo excesso de zelo quando o assunto era higiene, exageradamente cuidadoso, sempre carregava, em viagens, uma escovinha para limpar as unhas e as roupas não tinham uma dobra sequer, tudo engomado com muito capricho – quase um Monk. Mesmo trajando apenas camisa e bermuda, era a elegância em pessoa. O que não o impediu de mergulhar no Maranhão profundo, em que muitos municípios não possuem, por exemplo, saneamento básico e não lhe garantiam as condições mínimas exigidas pelo “padrão Celso de qualidade”. Ciente de sua missão, embarcava rumo aos rincões para embates contra os poderosos que querem apossar-se do Maranhão – reza a lenda que sobreviveu a 18 acidentes automobilísticos.

Um forte, um bravo. Um homem que nunca havia ido ao médico sequer para tratar de uma unha encravada, como ele mesmo gostava de dizer, do alto de sua luta contra o câncer. Poucas vezes o vi chorar e suas lágrimas tinham dignidade. Era extremamente devotado à mãe, com quem gostava de ir à Feira do João Paulo: enquanto ela consertava panelas e utensílios de cozinha em geral, ele refestelava-se com um saboroso mocotó.

Em uma brincadeira com o seu zelo por estar sempre alinhado e cheiroso, iniciamos, eu e uma turma de amigos da SMDH, a chamada rota da baixa gastronomia, em que mostrávamos a ele estabelecimentos diferentes de lojas de conveniência que ele tanto adorava: conhecia praticamente todas as de São Luís e lhes atribuía notas avaliando critérios como espaço, temperatura do ar condicionado e da cerveja entre outros.

Da última vez em que bebemos juntos, em dezembro passado, durante uma confraternização de fim de ano da SMDH, ele agradeceu-me bastante por fazê-lo conhecer o Chico Discos, então cenário de nosso amigo secreto. “Assim que eu terminar o tratamento e estiver novamente liberado, serei um habitué”, prometeu. Infelizmente não deu tempo.

De outra, antes, ele esteve em minha casa, em um aquecimento carnavalesco – bebemos um bom bocado antes de sairmos rumo ao Carnaval de Segunda do Laborarte. Durante a conversa, ele revelou: era a primeira vez em que ele se sentia à vontade em frequentar a casa de um colega de trabalho, de alguém das fileiras dos movimentos sociais. “Caro escriba” era como gostava de me chamar.

Celso Sampaio será sepultado em Vargem Grande/MA, sua terra natal. Seu exemplo aguerrido certamente inspirará muitos militantes de Direitos Humanos por aqui. Sua cabeça pelada contrastará com os fartos cabelos e barba de Deus, que certamente saberá bem recebê-lo em suas fileiras.

Tomarei umas cervejas e ouvirei My way na voz de Frank Sinatra, uma de suas músicas prediletas, para senti-lo por perto. Mais que nunca, Celso é de Deus e feito ele está conosco.