Entre o cômico e o trágico, a prosa inteligente de Sebastião Nunes

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução
Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

 

Não deve ser fácil a vida de ficcionistas na república da delação premiada. É difícil concorrer com o enredo que se descortina no Brasil, sobretudo desde há pouco mais de um ano.

No texto de apresentação de Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo [Edições Dubolsinho, 2017, 176 p.], novo livro de Sebastião Nunes, o jornalista e poeta Fabrício Marques aponta Joaquim Silvério dos Reis como o patrono da delação premiada. Não à toa o traidor é personagem de um dos contos do livro: Quando Tiradentes arrancou um dente a Joaquim Silvério e o que aconteceu depois. O autor classifica os textos como crônicas, mas já que, como diria Mário de Andrade, “conto é tudo a que chamamos conto”, opto por esta classificação.

Os textos do volume são todos dedicados a encontros improváveis, a maioria absoluta fruto da fértil imaginação do escritor mineiro, um dos mais originais de nossas letras. Foram originalmente publicados em 2015 no jornal online GGN – ele continua colaborando periodicamente com o portal, quem sabe em breve não pinta um volume dois?

Escritor, editor e artista gráfico, Sebastião Nunes é responsável por tudo no volume, desde a invenção dos encontros, passando pela diagramação e ilustração das histórias, reunidas em volume da editora Dubolsinho, brava e resistente como o autor, um dos cotistas-fundadores de uma experiência fundamental para a (boa) literatura brasileira.

O escritor já desferiu petardos certeiros contra nossas ridículas publicidade e classe média, em livros tão fundamentais quanto pouco conhecidos: Somos todos assassinos e Decálogo da classe média.

Sebastião Nunes coloca seu arsenal a serviço das ideias que quer transmitir. Suas personagens são pinçadas de diversos campos artísticos, de literatura a música, passando por pintura, cinema e dança, além de mitologia, política e crime, áreas que mais do que nunca andam se atritando. Sua erudição – conhece a fundo diversos episódios da história do Brasil e do mundo – não aparece de forma gratuita nem torna enfadonhas suas narrativas, prestando-se a garantir-lhes verossimilhança.

A grande maioria das histórias é hilariante, com o sorriso do leitor penetrando na imaginação do escritor diante da (im)probabilidade de esta ou aquela cena ter mesmo acontecido. Por vezes nos pegamos pensando no quão reais são determinados diálogos. Ou poderiam ser.

Em O jantar de José Olympio em homenagem a Guimarães Rosa, o famoso editor, ao erguer uma taça para brindar, busca provocar uma intriga entre Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, presentes ao evento. Em Machado de Assis recebe, na ABL, o poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, este não fala em poesia, mas conta uma piada de brasileiro que faz rir confrades da Academia e leitores de Começa a envelhecer a mulher mais bonita do mundo.

Poucos são os momentos trágicos do livro, como em Machado de Assis colhe versos no túmulo de Carolina, O poeta Carlos Drummond de Andrade se despede da filha morta, Debaixo do pijama azul, uma camisa do Fluminense respingada de vômito, que acompanha os últimos dias de vida dos escritores maranhenses Coelho Neto e Humberto de Campos, e “Em que logar irás passar a infancia, tragicamente anonymo, a feder?!…”, em que o poeta Augusto dos Anjos lamenta a perda do filho.

O “rir pra não chorar”, o “seria trágico se não fosse cômico” da realidade atual também comparece à prosa elegante de Sebastião Nunes. Na seara política, Pedro Malasartes decide ser prefeito, com todas as regalias e vantagens da função, e JK, Chateaubriand e Zé Maria Alckmin divagam sobre a construção de Brasília.

Talvez seja fácil ser ficcionista no Brasil, onde abunda matéria-prima. O problema é que nem todo ficcionista se chama Sebastião Nunes (ou Nuvens).

Temporada Paulo Leminski 7

UM KAMIQUASE NA IDADE MÍDIA

Seu primeiro livro, Catatau, já chegou provocando, dinamitando os limites. Não é conto, não é romance, não é poesia. Nele, o personagem central é ninguém menos que Descartes. E ele tem uma luneta em uma mão e um cachimbo de maconha na outra. São dois símbolos?

É, são dois símbolos elementares. Um de distanciamento crítico e outro de integração. A luneta é o distanciamento, e o cachimbo de maconha é a integração. A maconha gera uma integração. Numa roda de gente queimando fumo gera-se um tipo de comunicação diferente daquele gerado num simpósio, por exemplo, sobre a metafísica e a psicologia de Jung. É uma comunicação via substância, não via palavra.

Esse tipo de experiência, de alguma forma, tem a ver com a experiência poética?

É até um lugar-comum a tradição de que os poetas criam de madrugada, de que são alcoólatras. Baudelaire, por exemplo, escreveu muitos poemas numa mesa de bar, sob efeito do absinto. A ideia de que o discurso poético se produz em estados anômalos é uma coisa normal, que rima com a própria natureza anômala da linguagem poética. O normal da linguagem é a função referencial. E ela se voltar sobre si mesma, como no caso da poesia, é uma espécie de hipertrofia. Escrever um livro inteiro em que prevaleça a função poética é um exagero, um excesso. Essa linguagem ocorre com os exagerados e os excessivos. A ideia de que os poetas são loucos é até absolutamente correta. Isso se tornou quase mitológico do romantismo em diante.

Voltando um pouco à ideia do “inutensílio”. Você pode explicar melhor isso?

A ideia da arte como um inutensílio é muito recente. Ela aparece no século XIX, com os simbolistas, com Mallarmé, Baudelaire. No Renascimento, não passaria pela cabeça de ninguém, de Rafael, de Leonardo da Vinci, de Caravaggio, que a sua arte não servia pra nada. Um mural pintado numa igreja no período renascentista não é apenas um jogo de cores, como seria um quadro impressionista, de um Manet, de um Matisse. Só pode aparecer a ideia da arte pela arte no momento em que ela se transforma em mercadoria.

O inutensílio é a negação da arte como mercadoria?

É muito complexo. O negócio é o seguinte: a arte ou é tutelada pelo Estado ou é tutelada pelo mercado. Um dos dois mandará na arte – essas são as leis que o real quer pregar. No Ocidente, é o mercado que determina a obra de arte. O mesmo escritor que acha indecente que em Cuba o Estado financie a arte não acha indecente que seu trabalho seja tratado como mercadoria. A ideia do inutensílio é uma negação de ambos. Ela afirma que a arte não serve pra nada justamente porque só serve para o engrandecimento da experiência humana. Apenas isso.

Até mesmo os poetas engajados acabam se transformando em mercadoria, não é?

Claro. Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Moacyr Félix, Affonso Romano de Sant’Anna vendem muito mais do que Augusto de Campos.

Você acredita que a arte pode causar revoluções?

Pode, claro. Mas revoluções não acontecem toda segunda-feira. As vanguardas do início do século surgiram quando a burguesia desabou, com a Primeira Guerra. A Europa passou para segundo plano como potência mundial, e a hegemonia foi assumida pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Na Segunda Guerra isso se consagrou. O que é a Europa hoje? É um imenso museu. Então, as vanguardas europeias, surrealismo, cubismo, futurismo, dadá, surgiram num momento histórico irrepetível. Hoje nós estamos vivendo numa época retrô: neoexpressionismo, neodadá, neocubismo. Não está acontecendo nenhuma revolução. High-tech não é revolução. As revoluções Francesa e Russa, sim. A chamada Revolução Americana não é revolução nenhuma. George Washington era um dos homens mais ricos dos Estados Unidos quando liderou a chamada Revolução Americana. Ele não alterou as relações de poder nem de propriedade. Não redistribuiu nada. A Francesa e a Russa, sim, alteraram profundamente as relações entre as pessoas. High-tech não revoluciona nada. Pode ser apenas uma re-carga dentro do poderio de uma classe dominante. É uma revolução entre aspas.

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Trechos da entrevista que o polaco-loco-paca concedeu a Ademir Assunção, em 1986, publicada no mesmo ano no jornal O Estado de S. Paulo e, em 1999, numa versão ampliada, na revista Medusa. Extraí os trechos acima de Faróis no Caos (p. 32-34), que Ademir publicou ano passado pela Edições SESC/SP.

“Antes mesmo que o gravador fosse ligado, disparou a falar e não parou depois que a fita chegou ao fim”, revela o jornalista em um texto introdutório à entrevista, complementar à cabeça original, publicada na imprensa. “Aqui está a versão mais próxima da integral. Foi o que consegui salvar da fita, que naufragou em um copo de vodca”.

O livro dá uma panoramizada na cultura brasileira dos últimos 30 anos em entrevistas de Ademir com, além de Leminski, Alice Ruiz, Antonio Risério, Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Augusto de Campos, Caetano Veloso, Chacal, Claudio Daniel, Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso, Grande Otelo, Haroldo de Campos, Heriberto Yépez, Hermeto Pascoal, Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Kaká Werá Jecupé, Lenine, Luis Fernando Veríssimo, Luiz Melodia, Marcatti, Márcia Denser, Mário Bortolotto, Monge Daiju, Nelson de Oliveira, Néstor Perlongher, Roberto Piva e Sebastião Nunes.