Solidariedade e agricultura familiar em pauta

17 grupos produtivos em 12 municípios maranhenses são beneficiados com iniciativa. Pautados pela solidariedade, eles superam problemas simples com soluções idem.

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: ACERVO CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL MARANHÃO

Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís
Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís

Com mais de 60 anos de atuação no país, a Cáritas Brasileira tem um sólido legado na organização de grupos e comunidades, pautada por princípios solidários, sustentáveis e de autogestão.

Recentemente, através de um projeto apoiado pela Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão está apoiando ações que culminam na criação de um fundo rotativo solidário, cujo montante chega a 130 mil reais, beneficiando 17 grupos produtivos de agricultores familiares em 12 municípios maranhenses.

O regulamento do fundo prevê a devolução de 100% dos valores recebidos, acrescido de 4,5% de juros – valores estes que serão reinvestidos em ações produtivas de outros grupos. Algumas diferenças básicas entre este tipo de empréstimo e os comumente oferecidos por instituições financeiras são autogestão (a taxa de juros, por exemplo, foi definida pelos próprios trabalhadores que acessam os recursos) e a carência – que varia conforme a atividade produtiva: seis meses para horticultura, polpa de frutas e beneficiamento de farinha, um ano para criação de animais, e 18 meses para o plantio de mandioca.

O engenheiro agrônomo Marciel Bento dos Santos, 36, destaca a permanência das pessoas na terra a partir de uma iniciativa muito simples. “A partir deste projeto, os trabalhadores produzem para consumo e comercialização, realizada em feiras locais e territoriais”, comenta.

Ele também aborda as diferenças entre a operacionalização do fundo rotativo solidário e de um empréstimo comum, num banco. “Quando é no banco, se vê a atividade que as pessoas vão fazer, mas já chega um prazo tabelado; o banco é engessado; você chega ao banco, pega ficha de vida, se é de família tradicional, se tem posição, para poder o banco lhe dar o empréstimo”, compara.

O grupo produtivo que ele integra acessou 9.680 reais para plantar mandioca e adquirir motor, bomba, mangueira e tubulação para irrigar, além de estacas e arame para cercar a área. Começará a devolver o recurso a partir de setembro de 2020.

Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras

A agricultora familiar Antonia Pereira de Sousa, 57, vive em Nova Descoberta, povoado de São Raimundo das Mangabeiras. Através do projeto para acessar os recursos do fundo rotativo solidário, na ordem de 10 mil reais, seu grupo plantou melancia, banana, caju, acerola, milho, feijão, arroz e mandioca, além de adquirir material de irrigação e conseguir escavar um reservatório para 120 mil litros de água oriundos de um poço artesiano. Apesar de a carência ser de seis meses, o grupo já começou a devolver os recursos ao fundo.

“Já venho acompanhando a Cáritas e já conhecia seu trabalho em outras comunidades. Antes, aqui, a gente não podia expandir [as atividades] por que a bomba era fraca”, explica. A venda da produção é realizada diretamente na praça da cidade, pelos mais de 80 membros da cooperativa. “É muito melhor. Não tem burocracia para acessar [os recursos]. É rápido. Por bancos, assentamentos não conseguem acessar. Não conseguia na época de Lula e Dilma, imagina com esse aí”, diz, referindo-se ao presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Antonia lembra ainda de um crédito obtido através de empréstimo junto a um banco, cerca de um quinto do valor acessado através do fundo da Cáritas/IAF. “Só cerquei o quintal e nem os animais eu consegui comprar. A terra não é dividida, é no nome da associação, aí o banco não quer trabalhar de jeito nenhum”, explica.

Elmir Eurides dos Santos Andrade, 56, mais conhecido como Bebé das Lagoas, é lavrador em Belágua. O grupo produtivo de que é membro acessou 7,9 mil reais em fevereiro de 2019 e plantou seis hectares de mandioca, com colheita prevista para agosto de 2020. A expectativa é produzir cerca de 3 mil quilos de farinha. “A ideia é passar a produzir para vender, não apenas para comer, e tentar vender direto na cidade, sem a figura do atravessador”, afirma ele, que continua plantando milho e arroz para consumo.

“A estratégia da Cáritas está em um processo de fortalecimento de ações que ela já desenvolve com a Rede Mandioca. O fundo de crédito constituído tem a perspectiva do fortalecimento da agricultura familiar como um horizonte maior: fortalecer as ações junto a grupos produtivos de agricultores familiares e extrativistas, articulando uma rede de agricultores e agricultoras, com a perspectiva de envolvimento comunitário, geração de trabalho e renda, fortalecimento do trabalho coletivo, de ter alimento saudável na mesa, de segurança alimentar para o campo e para as cidades”, afirma Lucineth Cordeiro, assessora de Desenvolvimento Solidário e Sustentável da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“O fortalecimento dessas iniciativas é uma forma também de contribuir para que essas comunidades tenham condições de permanecer em seus territórios, de fortalecer sua resistência, sua identidade e seus modos de vida”, complementa Lena Machado, secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“Quando se fala de um projeto todo mundo se empolga”, reflete o lavrador Josemar da Conceição Oliveira, 37, do município de Água Doce. “Somos capazes, mas precisamos nos empenhar para alcançar os objetivos”, continua. E provoca: “se se faz um empréstimo num banco e de um jeito ou de outro se paga, por que não um valor desse, que vai beneficiar outros grupos?”.

Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce
Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce

O forte da produção do grupo integrado por ele é a mandioca, mas Josemar afirma ter um escape: “é o peixe, algo fácil de fazer um troco mais rápido”, revela o lavrador que também cria tambaquis em cativeiro. O peixe ele vende de porta em porta, sob encomenda. Com 7,5 mil reais seu grupo produtivo construiu quatro tanques, que receberam 2.000 alevinos. Ele finaliza: “a palavra-chave é solidariedade, é se preocupar com o próximo que irá receber [os recursos]”.

Lenine canta hoje (4) em São Luís

Músico visitou projeto socioambiental em Lago do Junco e conheceu ainda experiências de São Luís e do Delta do Parnaíba. Show no formato voz e violão acontece às 20h30, no Patrimônio Show. O espetáculo é gratuito – ingressos foram distribuídos ontem (3), no local

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Após 10 etapas realizadas pela turnê Música e sustentabilidade numa só nota, Lenine revelou-se surpreso com os projetos que tem visitado em diversas regiões do país. “Eu sou um felizardo, por que eu trabalho com música e a música é um passaporte. Ela te leva pra muitos lugares. Eu achava que eu conhecia o Brasil, mas eu tenho certeza que eu não conheço nada”, confessou. “É muito bom constatar que tem uma turma do bem espalhada por esse Brasil, apesar de uma turma do mal jogando contra”, provocou.

O músico chegou com cerca de 20 minutos de atraso ao Patrimônio Show, onde se apresentará logo mais às 20h30 encerrando sua passagem pelo Maranhão. Despojado, trajava sandálias havaianas, bermuda branca e a camiseta Mãe Terra – desenvolvida especialmente para a turnê pela designer Marceli Mazur –, mimo do kit de imprensa distribuído aos jornalistas presentes. Lenine usava um brinco em cada orelha, dois cordões, três pulseiras e dois anéis, no braço e mão direitos – do lado esquerdo uma tornozeleira.

Ontem (3) ele esteve em Lago do Junco, onde visitou projeto desenvolvido por quebradeiras de coco babaçu, com apoio da Petrobras – que patrocina a turnê, dentro do Programa Petrobras Socioambiental. “Eu voltei lavado. E não foi só por causa do sabonete [de coco babaçu] que elas me deram”, elogiou o projeto, dividindo com os meios de comunicação presentes suas dificuldades, incluindo a de deslocamento. “Foram oito horas para ir e sete para vir, estou até agora com a bunda quadrada”, disse sorrindo.

Antes da entrevista coletiva, representantes da Petrobras apresentaram o Programa Petrobrás Socioambiental. Além do projeto anfitrião, desenvolvido pela AMTR, a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais, de Lago do Junco/MA, também os projetos convidados, Biomade – Biodiversidade Marinha do Delta, que trabalha a preservação ambiental na região do Delta do Parnaíba – e o Mara-kizumba – desenvolvido pela ONG Mandingueiros do Amanhã, sob a batuta do Mestre Bamba –, também patrocinados pela Petrobras, apresentaram suas experiências e revelaram-se muito contentes com a presença de Lenine, valorizando seus trabalhos. “Minha ideia com essa turnê é justamente colaborar para dar visibilidade a estas iniciativas e favorecer trocas, já que muitas vezes temos projetos fazendo coisas parecidas, apoiadas pelo mesmo programa, sem dialogar entre si. Precisamos ter uma visão mais holística de tudo”, disse o músico.

Bem humorado, Lenine confessou não gostar da expressão meio ambiente. “Gosto do ambiente inteiro, com o ser humano inserido nele”. Orquidoido, como se autodetermina quando o assunto é sua gigantesca coleção de orquídeas, ele não é um neófito quando se trata da questão. Sua preocupação com a preservação ambiental e com as injustiças sociais permeia sua obra desde o distante Baque solto, seu primeiro disco, lançado em 1983, dividido com o parceiro Lula Queiroga.

Lembrei-me do samba de 1992 do Suvaco do Cristo – agremiação carnavalesca carioca que teve o pernambucano em sua ala de compositores –, quando o Brasil sediou a Eco 92 [a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento], intitulado cacofonicamente Eco no ar. Perguntei-lhe se não estava faltando humor para lidar com estes temas. Ele sorriu e respondeu: “Tá até bem humorado. Às vezes é bom não ter tanta sisudez. Mas o problema é sério, por mais que a gente brinque, tem um momento de seriedade. A gente [o Estado brasileiro] podia estar dando uma resposta para o mundo, uma resposta bela, verde, desde o Eco 92. E a gente não deu”.

A palavra cultura não aparece nas linhas de ação do Programa Petrobras Socioambiental – produção inclusiva e sustentável; biodiversidade e sociodiversidade; direitos da criança e do adolescente; florestas e clima; educação; água; e esporte – nem nos eixos transversais – equidade de gênero; igualdade racial; e inclusão de pessoas com deficiência. Lenine diz que o show não faz essa ponte, que seu encontro musical, no formato voz e violão, com a plateia é uma forma de ele agradecer a vivência e o aprendizado: “Eu queria retribuir a essas pessoas de alguma maneira. Estou retribuindo da melhor maneira que eu sei, que é fazendo música”.

Sempre simpático e sorridente, ele não adiantou o repertório: “[O show] é mais livre, por conta desse formato [voz e violão]. O mais importante é a intimidade, é estar ali, próximo. Pra mim também é uma experiência bacana de mostrar a canção como ela foi feita, sem roupagem, sem nada. Essa desnudez tem a ver com isso tudo. A iluminação também é toda solar, tem uma série de coisas que envolveu todo esse processo de a gente fazer isso”.

Ainda provoquei-lhe, “de repente dá pra lembrar uns sambas do Suvaco”: “É, quem sabe, no calor das coisas, da hora. O negócio é memória. Eu compondo há mais de 30 anos, às vezes umas letras quilométricas, às vezes eu pago mico”, sorriu sem se esquivar, antes de posar para fotos oficiais com membros dos projetos e a tietagem.