Em show hoje Karleyby Allanda reverencia Josias Sobrinho

A cantora Karleyby Allanda. Foto: divulgação
A cantora Karleyby Allanda. Foto: divulgação

 

As trajetórias de Josias Sobrinho e Karleyby Allanda guardam ao menos uma semelhança: se ele, moço, veio “de pra lá da Ponta d’Areia”, fixando residência na capital e tornando-se um dos mais reconhecidos compositores do Maranhão, ela, já gozando de certo prestígio em sua Imperatriz natal, há oito anos sentou praça na Ilha, onde torna-se cada vez mais conhecida.

Hoje (28), às 21h, ela sobe ao palco do Taberna da Bossa (Praça dos Catraieiros, Praia Grande) para apresentar o show O cancioneiro de Josias Sobrinho, em que interpretará 20 músicas do compositor, entre consagradas, lados b e inéditas.

Em Renascer, disco de estreia que deve lançar mês que vem, ela catou, no cofo do penalvense, Meu amanhã e Requebra no compasso, que o público conhecerá em sua voz, a intérprete somando-se ao vasto time dos que já gravaram sua obra: A 4 Vozes, Betto Pereira, Ceumar, Chico Maranhão, Cláudio Lima, Cláudio Pinheiro, Diana Pequeno, Flávia Bittencourt, Leci Brandão, Lena Machado, Papete, Salomão di Pádua e Xuxa, entre outros.

Com a faixa-título do futuro lançamento, de sua autoria, Karleyby Allanda foi recentemente classificada no Festival de Música do Sintsep. Aos poucos as coisas estão acontecendo para a artista que ama cantar e se divide entre os ofícios da música, do ensino (é professora da rede pública estadual) e da graduação em Direito, que cursa após ter se graduado em Letras e se especializado em Literatura Contemporânea.

Outra semelhança entre o compositor homenageado na noite de hoje e a intérprete está num verso de Terra de Noel, uma das músicas do repertório: “não vou tirar meu chapéu pra qualquer vagabundo”. Com seu chapéu e seu violão, Josias reverencia mestres como o Noel Rosa que homenageia já no título de uma de suas mais conhecidas criações. Karleyby lembra o ensinamento de outros ícones, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e dá a Josias “flores em vida”, como ensinou o par.

Completam a noite de celebração Wilson Zara – amigo de Karleyby desde os tempos de Caneleiros Bar, em Imperatriz, onde ela fez suas primeiras apresentações –, que fará o show de abertura, o também imperatrizense Chico Nô e Zé Paulo, que farão participações especiais. Karleyby Allanda sobe ao palco acompanhada de Carlos Raqueth (contrabaixo), Fofo (bateria), Guilherme Raposo (teclados) e Jayr Torres (violão, guitarra e direção musical). O couvert artístico individual custa R$ 10,00.

Tudo que ressoa é Oura

O cantor e compositor paraense Allan Carvalho. Foto: Camila Lima/ Portal Cultura
O cantor e compositor paraense Allan Carvalho. Foto: Camila Lima/ Portal Cultura

 

É uma lástima que o Maranhão não conheça seus vizinhos Pará e Piauí e uma tristeza que a recíproca seja verdadeira, embora algumas iniciativas contribuam, ainda bem, para mudar esta realidade.

O compositor paraense Allan Carvalho, por exemplo, se apresenta hoje em São Luís. Em show às 21h no Taberna da Bossa (Praia Grande), lança seu disco de estreia, Oura [2016] – isso mesmo, ouro no feminino –, com participações especiais de Djalma Chaves, Nosly, Luiz Cláudio e Anna Cláudia. A produção não informou o valor do ingresso. Os primeiros visitaram Belém com a turnê Andarilho Parador; os últimos são paraenses há muito radicados em São Luís; ela gravou três músicas de Allan em Bons ventos [2016], seu segundo disco, sobre o qual o blogue ainda se debruçará.

Espero que a Taberna da Bossa, charmoso bar nos arredores da Praça dos Catraieiros, lote para prestigiar o compositor e seus convidados. Oura, seu disco, revela um cantor e compositor refinado, que se apropria dos ritmos da rica cultura popular de seu estado natal esbanjando talento e versatilidade, mesclando-os a citações pop que permeiam o disco.

Oura. Capa. Reprodução
Oura. Capa. Reprodução

O título do disco surgiu ao acaso: Allan convidou seus filhos para cantarem com ele; o mais novo, de cinco anos, pronunciou no feminino o nome do metal precioso, toada de boi-bumbá que abre e batiza sua estreia, em diálogo com Bandeira de aço, o antológico LP de Papete lançado pela Discos Marcus Pereira há quase 40 anos – Allan não nega sua devoção por Cesar Teixeira e Josias Sobrinho. “Eu mandei fazer/ uma bandeira de ouro, amarela/ para hastear quando for mês de junho/ verão/ quero ver seus raios brilhantes/ na estrela do meu batalhão”, diz a faixa, dedicada ao Mestre Cardoso e Arraial do Pavulagem.

Outras referências aparecerão ao longo de Oura: o brega-rock Tá russo! cita Menudo e Arrigo Barnabé. O protagonista de Que brega é você? , escorada em Eleanor Rigby, dos Beatles, primeiro rock sinfônico da história, vai “ao show do Reginaldo” Rossi sem soar óbvio. John Lennon, Raul Seixas, Kurt Cobain e Pink Floyd aparecem em no rock melody tipicamente paraense Corticoide, de versos como “enquanto a vida nos vale/ beije e me trague/ deixe aceso os segredos em ti/ e revele tua aura pra mim”.

A balada cigana Sei lá, entende? é a mais desbragadamente romântica, sentenciando: “todo mundo, na boa/ tá sempre querendo/ viver de amor”. As referências voltam a aparecer em Tchê-tchê-tchê, reggae axé que cita Nelsinho Rodrigues (incidental com Jererê), os poetas Manuel Bandeira (incidental com Último poema) e Florbela Espanca, além de personagens como Joana d’Arc, Nero e o imperador chileno Augusto Pinochet, num rico jogo metafórico e onomatopaico: “ruína vai ser tu num ir/ um Nero aceso/ a Joana d’Arc/ não é só ficar dentro de tu/ pra te ruir, te Pinochet/ yo tengo cá, um pé de flor/ não vá sumir, meu Pererê/ e ai de ti se tu me jururu aqui/ esse cupim vai escangalhar com meu ipê”.

A balada Vai… é uma das gravadas por Anna Cláudia, outra música em que Allan Carvalho demonstra admiração pelas belezas de São Luís: “o teu beijo azulejando São Luís/ reinventando todas as luzes de Paris/ eu cantando em teu chuveiro temporal/ te deixando assim sem jeito agora”, diz a letra, carregada do romantismo nada fora de moda presente ao longo de todo Oura, arrematada por citação breve de Flores em você, hit do Ira!

Em Tudo, decreta: “tudo o que você quer é dengo… eu dou!”, para adiante tornar a passear por sua geografia sentimental, entre lugares, personagens e mimos: “tudo o que você quiser/ que eu seja, eu sou!/ santo, sonso, louco,/ um James Bond, o teu doutor/ tudo que te der prazer/ onde for eu vou apanhar/ lá na China, Ver-O-Peso/ Paraguai ou Marabá”.

Tá, meu bem?, que encerra o disco, é um manifesto bem humorado, que demonstra a possibilidade de abordar temas espinhosos sem “falar tão sério”, como os compositores a que Tom Zé se refere em sua Complexo de épico: “eu pago com meu vintém/ tudo que sou, como e sei/ se o mundo é hétero ou gay/ ninguém deve nádegas a ninguém”, protesta Allan Carvalho, num disco de tons cor-de-rosa, em que o compositor pinta (ou soa) andrógino. Mas sua música o deixa longe de qualquer rótulo ou estereótipo.