Semana Sérgio Sampaio #4

Por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982), de Sérgio Sampaio, pelo selo Saravá, de Zeca Baleiro, este blogue ofereceu a seus poucos-mas-fieis leitores a Semana Sérgio Sampaio, que se encerra com este post, que traz a entrevista, inédita, que Rodrigo Moreira, autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua (2000, esgotada), concedeu a este blogueiro, por e-mail, em 10 de abril de 2007.

Não há merchandising na parada: a Semana Sérgio Sampaio é a soma de forma e ocasião de eu desovar material inédito que ficou na gaveta. Penso que Sampaio e seus fãs mereçam! Espero que tenham gostado (tirei daqui o recorte que abre o post).

ENTREVISTA: RODRIGO MOREIRA

ZEMA RIBEIRO – O que te levou a escrever a biografia de Sérgio Sampaio?
 
RODRIGO MOREIRA – Bem, eu sempre fui fã, e como todos os demais fãs, não muito esclarecido sobre como foi mesmo a trajetória dele. Isso fez crescer a curiosidade, que aliada à vontade de fazer algo por seu resgate, acabou me levando a começar a pesquisa, cerca de dois anos depois de sua morte.

Quais as principais dificuldades enfrentadas? Na verdade, eu até que tive sorte, pois logo no início de tudo conheci Sérgio Natureza, amigo e parceiro dele, que já tinha delineado o projeto de resgate Balaio do Sampaio. Ele facilitou bastante meu trabalho, me apresentando diversas pessoas importantes na vida de Sampaio, como familiares, ex-mulheres, músicos, produtores etc. Minha maior dificuldade foi mesmo não ter conhecido Sérgio Sampaio pessoalmente, talvez se tivesse sido amigo dele eu pudesse ter muito mais informações.

A que você credita o quase total desconhecimento dele por parte da população brasileira? Bem, ele realmente não chegou a se tornar um artista conhecido em larga escala, apesar de ter tido uma música de sucesso que marcou época, que foi o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua]. Acredito que o fato daquele sucesso não ter tido uma continuidade, uma permanência maior, ele acabou sendo esquecido, ficando apenas na memória de uma parcela mais retrita do público, que são os fãs, que acompanharam e curtiram suas outras obras e foram aos seus shows ao longo dos anos.

Qual a importância de iniciativas como o Balaio do Sampaio, de Cruel e de tua biografia no sentido de preservar a memória de Sérgio Sampaio e de torná-lo conhecido das gerações mais jovens? Na realidade, todas essas iniciativas não foram isoladas, foram meio que interligadas. Primeiro foi o cd, depois minha biografia, ambos correndo paralelos, e mais à frente o Cruel, a pilastra definitiva do resgate. Pelo menos pra mim tudo faz parte de um mesmo projeto (de uma mesma ideia pelo menos), que foi o Balaio do Sampaio. Acho até que deveríamos ter criado um logotipo, ou coisa assim, que estampasse as capas desses trabalhos. Bem, acho que todo esse esforço serviu para, ao menos, chamar a atenção de parte da mídia e do público para a obra que o Sérgio deixou. Inclusive ele estava inédito em cd até a época que saiu o Balaio (1998), depois disso o Charles Gavin editou em cd o primeiro disco (na época troquei informações com ele, na realidade chamei sua atenção para o Tem que acontecer, já que ele estava trabalhando na ocasião com os arquivos da Continental/Warner, mas ele acabou fazendo o primeiro disco). Depois saiu uma coletânea (Warner 25 anos), que contém todas as músicas do Tem que acontecer, mais algumas raras músicas de compactos.

Semana Sérgio Sampaio #3

"Colônias de abutres colunáveis/ gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais", cantaria Sampaio na letra do parceiro Natureza

Temo ficar me repetindo em depoimento sobre o Sampaio mas, pra mim, ter sido parceiro dele é um marco na minha vida de autor, algo que muito me honra e envaidece, mesmo porque fui o único parceiro (dos poucos que ele teve) que ele gravou cantando, e cujo resultado – fizemos poucas canções, em quase todas ele letrou textos meus – suplantou minhas expectativas e teve excelente resposta de quem as ouviu, de quem teve contato com elas. Para mim, a obra dele mantém até hoje um fescor, uma autencidade, uma assinatura – tanto do ponto de vista do autor/compositor como do intérprete – incomparáveis. É impressionante ver a receptividade, o entusiasmo das novas gerações ao tomar contato com o trabalho dele: sentem-se imediatamente envolvidos com os temas, as melodias, o canto do Sampaio – mesmo quando os termos, as gírias, as citações ficam, de certa maneira, datadas. Ainda assim há uma identificação da moçada com as propostas dele, como se houvesse um estranhamento magnético, algo tão carismático que transcende o hiato temporal, a aparente facilidade melódica/harmônica, o coloquial das letras – textos que, por outro lado, evidenciam um artista informado, antenado, de muita leitura, culto (sem ser necessariamente acadêmico) – enfim… Sérgio Sampaio foi (e é) para mim um exemplo de que é possível, ao mesmo tempo, ser autodidata, intuitivo e, ainda assim, refinado – sem nunca deixar de ser popular. Muito há ainda por ser revelado para se fazer justiça à obra tão particular, tão rica na sua simplicidade – que é tudo o que um artista popular busca… e raramente encontra. Sérgio Sampaio encontrou, fez esta ponte, esta síntese. Cabe a nós reencontrá-lo. Ter, modestamente, participado do trabalho do Sampaio, me é muito gratificante.

Depoimento que Sérgio Natureza deu a este blogueiro por e-mail, dia 12 de abril de 2007. Ao lado do de Celso Borges e da microentrevista com Zeca Baleiro, devia ter me ajudado a escrever uma matéria sobre o “sampaio seis ponto zero” (assim estava escrito no campo “assunto” dos e-mails que trocamos), que acabou não saindo e cujos elementos resgato agora por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982) pela Saravá Discos.

Natureza, parceiro de Sampaio em Cabra cega (de Sinceramente), Velho bode (de Tem que acontecer, 1976) e Roda morta (do póstumo Cruel, 2005), assina o texto do encarte do disco ora recolocado na “roda viva” pelo selo de Baleiro. Saravá!

Arrisco uma correção ao e-mail/depoimento de Natureza: outro parceiro gravado por Sampaio em vida foi Raul Seixas, em disco que o capixaba e o baiano gravaram ao lado de Miriam Batucada e Edy Star, o Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez (1971), hoje cultuado por sampaiófilos, raulseixistas e outros apreciadores de boa música.