Bolsonaro ontem e hoje (ou: Bolsonaro sempre o mesmo)

O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução
O cadete e o capitão. A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Capa. Reprodução

 

A terra plana não gira, capota. A frase de efeito, apesar de soar meme, expressa bem um equivalente contemporâneo (e talvez por isso piadista) do marxista “A história se repete como tragédia ou como farsa”.

Transcrevo, a seguir, entre aspas, trecho de O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel [Todavia, 2019, 253 p.], de Luiz Maklouf Carvalho: “A sessão secreta foi suspensa pouco depois das quatro da tarde. Na volta, 45 minutos de intervalo depois, a primeira a falar foi a advogada de Jair Bolsonaro, Elizabeth Diniz Martins Souto, com escritório em Brasília. Embora, dezessete dias antes, ao apresentar sua defesa escrita, ele tenha alegado não ter advogado por “oneroso para minhas condições financeiras” e “desnecessário [para] comprovar-me juridicamente honrado”, algumas semanas antes, no dia 3 de maio, a dra. Elizabeth havia pedido vista do processo e comunicado ao ministro relator que desejava fazer a sustentação oral no dia do julgamento. Ali estava ela, portanto, no final da tarde de 16 de junho, com direito a 20 minutos de fala, aumentados depois para 32 minutos.

“”Este processo constitui uma aberração jurídica”, disse, referindo-se ao relatório do primeiro Conselho de Justificação. Apontou a falta “de um fato causador de ofensa à ética”, acusando o Conselho de decidir não com convicção na prova dos autos, “mas por uma convicção pessoal e parcial”. Seu segundo argumento, calcado no que já dissera Bolsonaro em sua defesa escrita, foi sobre a perícia grafotécnica realizada nos croquis. A dra. Elizabeth mencionou dois primeiros laudos inconclusivos emitidos pela Polícia do Exército, referindo-se em seguida ao da Polícia Federal, que apontou seu cliente como autor dos croquis, classificando-o como “um laudo realmente encomendado” – acusação que nem mesmo Bolsonaro tinha ousado fazer. Por fim, citou que o laudo da Polícia do Exército havia mudado o resultado do laudo anterior, anulando-o, sem dizer, porém, que era um laudo de complementação. Sublinhou que as palavras contidas nele eram as mesmas do laudo da Polícia Federal, voltando a insinuar que tivesse sido encomendado: “não mudaram nem a vírgula”” (p. 219-220).

Quem diria que mais de 30 anos depois fosse justamente uma prisão injusta, seguida por uma avalanche de fake news (expressão modernóide para eufemizar a má e velha mentira), que o catapultaria ao Palácio do Planalto, após 30 anos de inutilidade enquanto parlamentar, primeiro em meio mandato de vereador pela capital do Rio de Janeiro, depois por sucessivos mandatos de deputado federal pelo mesmo estado.

O livro de Maklouf é inspirada e vigorosa reportagem sobre o período pré-política partidária de Jair Bolsonaro. Repórter experimentado, o autor reconta, sem monotonia, o julgamento de que o hoje presidente de extrema-direita sofreu por indisciplina, primeiro ao assinar um artigo na revista Veja, em 1986, reclamando dos baixos salários de militares; depois, a revelação, pela mesma revista, de um plano (incluindo os citados croquis), orquestrado por Bolsonaro e seus pares, de explodir bombas em unidades militares no Rio de Janeiro, como forma de pressionar o governo Sarney.

Curioso é que, à época, Bolsonaro já tenha se valido das estratégias que utilizou para se eleger e usa para governar: primeiro diz uma coisa para depois desdizer e acusar o interlocutor de mentiroso, em atitude claramente fascista (acusar o outro daquilo que ele próprio é): assim, negou as acusações da repórter Cassia Maria, que, ameaçada de morte pelo então capitão, chegou a aceitar um convite e mudar de emprego.

Maklouf teve acesso aos autos do processo, bem como aos áudios da sessão de julgamento e conversou com fontes diversas, devidamente citadas no volume (Bolsonaro e cia. sequer responderam às reiteradas solicitações de entrevista). A partir do episódio, Bolsonaro pavimentou sua carreira política, ainda que sendo um parlamentar medíocre: conseguiu, um a um, infiltrar os três filhos mais velhos na política partidária e, 30 anos depois, chegaria à presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva, seu mais robusto adversário e líder de intenções de voto em todos os cenários das pesquisas de opinião, retirado do jogo por obra de Sérgio Moro, que nas primeiras horas do governo Bolsonaro, se tornaria ministro da Justiça e Segurança Pública, comprovando o óbvio ao menos aos que ainda querem enxergar.

No livro de Maklouf, um dos superiores de Bolsonaro no exército, em relatório, chega a apontar a ganância e o desejo de realização financeira no então capitão, o que o teria levado a, em férias, ter ido conhecer um garimpo na Bahia, sonhando em bamburrar.

Eleito se valendo de um slogan bíblico que unia verdade e libertação e um discurso que se dizia contra a corrupção, o insubordinado Bolsonaro do passado guarda todas as semelhanças com o Bolsonaro de hoje. Seu comportamento público irresponsável acerca da pandemia mundial de coronavírus é demonstração inequívoca de que o militar da reserva se preocupa apenas consigo mesmo.

Seu apelido no quartel era “Cavalão”, o que também revela semelhanças entre o Bolsonaro de ontem e hoje: se naquela época por conta de seu desempenho em modalidades esportivas, hoje no trato com jornalistas, comunidade científica ou qualquer pessoa que se identifique como de esquerda ou oposição a seu governo.

Leia Raul!

Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução
Raul Seixas: não diga que a canção está perdida. Capa. Reprodução

 

Parafraseando Belchior, o outro biografado de Jotabê Medeiros, não espere que eu lhe faça uma resenha como se deve. Ora, o autor de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida [Todavia, 2019, 413 p.; R$ 69,90] é meu amigo pessoal, colega de Farofafá e não raro repito: meu maior professor de jornalismo fora da sala de aula.

Talvez isto devesse me afastar da tarefa de comentar seu livro. Mas não seria justo, tampouco honesto. O livro acaba por marcar, por assim dizer, o encontro de dois heróis meus, um no jornalismo e um na música. O elepê Maluco beleza, uma coletânea de hits daquele que acabou rebatizado pela faixa-título, foi um dos primeiros vinis de minha coleção (que o advento do cd acabou por fazer se perder no tempo) e ainda lembro de quando comprei Gita [1974] numa promoção da saudosa Lobras, com vinis vendidos a preços mais baratos justo por conta da popularização das bolachinhas lidas a laser.

Acompanhei as agruras, perrengues, negociações, bastidores, enfim, da escrita de Jotabê das biografias do cearense Belchior e do baiano Raul Seixas, tendo o privilégio de ser dos primeiros a saber que o jornalista se movimentava em seus por vezes pantanosos terrenos, mas perdendo o furo em nome da amizade.

Acompanhei o linchamento virtual de que Jotabê Medeiros foi alvo pouco antes do lançamento de seu novo livro, em novembro passado. Gente que sequer tinha lido a obra (pois ainda não havia sido lançada, frise-se) e passou a atacar o biógrafo por uma suposta acusação de dedo-durismo do biografado em relação ao escritor Paulo Coelho, seu mais famoso parceiro musical.

Demorei a mergulhar na leitura de Raul Seixas: não diga que a canção está perdida por saber, antecipadamente, tratar-se de livro que mereceria a atenção que eu queria dar em tempo quase integral, no que foi bem vinda a quarentena diante da ameaça mundial do coronavírus, pelo que a profecia do cantor e compositor tem sido sempre lembrada e O dia em que a terra parou quase alçada à condição de clichê.

Poderia dizer que Jotabê Medeiros reinventou, em seus dois livros do gênero, a escrita de biografias. Seus mais de 30 anos de jornalismo cultural – com foco na crítica musical – garantem um profundo mergulho na pesquisa e nas entrevistas com fontes, a checagem a que o simplificador control c control v nos desacostumou como leitores e não raro mesmo como jornalistas – há exceções, é claro, e o jornalista-escritor é uma delas.

Mas a reinvenção da escrita de biografias não se dá por isso, o que deveria ser obrigação de qualquer jornalista, escreva ele uma biografia de mais de 400 páginas ou uma resenha, como tento aqui, ou uma nota ou o que quer que seja. Se dá pelo fato de Jotabê Medeiros, com sua habitual escrita elegante, buscar equilibrar vida e obra, através da narrativa dos fatos daquela e da análise desta; sobre a primeira, não emite juízos de valor; sobre a segunda, pode eventualmente apontar desníveis onde o fã-clube enxerga apenas perfeição.

Se Roberto Piva, outro personagem cultural da predileção de Jotabê Medeiros, dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental, e a vida de Raul Seixas foi marcada pela brevidade (morreu aos 44 anos, vítima de pancreatite decorrente do abuso de drogas lícitas e ilícitas) e intensidade – deixou obra fecunda, a provar o que quero dizer aqui e o autor demonstra, tanto biografando Raul quanto Belchior: uma e outra se cruzam, em seus altos e baixos.

Guardadas as devidas proporções, Jotabê Medeiros sabia dos riscos que correria ao encarar o fã-clube mais chato do Brasil (expressão que usei quando eu e Suzana Santos o entrevistamos para o Radioletra, na Rádio Timbira, e negada por ele): qual um Philippe Petit ao realizar sua façanha-obra de arte, o autor não recuou diante de temas mais espinhosos, no entanto sem correr outros riscos: ele nunca é deselegante ou sensacionalista em nome de “vender a porra do livro”, como acusou-o numa rede social o autor de O alquimista.

Existem por aí muitos livros escritos sobre Raul Seixas, fora e dentro da academia. Boa parte escorada na suposta perfeição do mito (aqui na acepção real do termo, é preciso explicar nestes tempos) construído em torno do raulseixismo. Quem já assistiu a pelo menos um dos tributos anuais apresentados pelo cantor Wilson Zara em São Luís – a série teve início em Imperatriz, em 1992 – sabe do que estou falando: gente fantasiada, envergando camisas com a efígie do astro ou bandeiras com o símbolo da Sociedade alternativa, louvando acriticamente seu legado (embora o momento seja de festa e a culpa não seja de quem presta a homenagem, realizada sempre em torno do aniversário de falecimento do ídolo).

Um dos méritos da biografia de Raul Seixas escrita por Jotabê Medeiros é mergulhar num ponto quase sempre esquecido de sua trajetória: seu lado hitmaker de brega, que acabou por inventar um estilo até hoje copiado. Não basta lembrarmos de faixas como Tu és o MDC da minha vida, Você ou Sessão das 10, a faixa-quase-título do hoje clássico Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, de 1971, o segundo disco em que Raul Seixas aparece cantando – após a estreia com Raulzito e Os Panteras [1969] – dividido com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio.

É preciso dar os devidos créditos a hits absolutos, até hoje tocados em rádios Brasil afora: Ainda queima a esperança, sucesso de Diana, Doce doce amor, de Jerry Adriani, e Se ainda existe amor, de Balthazar: todos são composições de Raul Seixas – que à época assinava Raulzito (“Raul Seixas e Raulzito sempre foram o mesmo homem”, como cantou em As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor).

Jotabê Medeiros mergulha também no lado produtor do biografado: é importante conhecer o trabalho de Raul Seixas, antes da fama, em estúdios e gravadoras, que viria a ajudar a forjar sua identidade musical, levando-lhe a discos ou shows de Leno (da dupla com Lilian Knapp), Jerry Adriani e Odair José (todas as guitarras de seu primeiro disco são tocadas por… Raul Seixas).

Não hesita o autor em apontar também apropriações indébitas do ídolo, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, cujo cruzamento explica um bom bocado de sua obra. O livro coloca também em seu devido lugar as relações de Raul Seixas com nomes como Sérgio Sampaio (Raul produziu e assinou arranjos em Eu quero é botar meu bloco na rua, estreia solo de Sampaio, de 1973, que fechava com a vinheta Raulzito Seixas, homenagem do capixaba ao baiano), Cláudio Roberto (parceiro em Maluco beleza e numa pá de composições, O dia em que a terra parou, de 1977, é integralmente assinado pela dupla), Jards Macalé (Raul participou do show coletivo Banquete dos mendigos, posteriormente lançado em elepê, produzido por Macalé no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) e Marcelo Nova (não raro tido como oportunista, mas que acabou reerguendo Raul, dividindo uma série de shows antes da gravação do álbum derradeiro, A panela do diabo, de 1989, ano em que Raul viria a falecer, dois dias após o lançamento do disco), entre outros.

Não afeito a fofocas, Jotabê Medeiros não se furta de tocar em lendas criadas por Raul Seixas, como seu suposto encontro nos Estados Unidos com o beatle John Lennon ou o dia em que comeu lixo com um mendigo em Nova York (episódio cantado em Banquete de lixo), bem como as apresentações do roqueiro no garimpo em Serra Pelada, e a não decomposição do cadáver do artista – provavelmente em decorrência do consumo excessivo de antibióticos em vida –, percebida mais de 20 anos depois de seu falecimento, quando a família tentou transferir os restos mortais para uma urna.

Raul Seixas ganha uma biografia à altura do gênio que foi. Sem entregar o ouro (de tolo) ao bandido, Jotabê Medeiros revela, na introdução, a chave (de leitura e) de seu êxito na missão: “todo o meu esforço foi contar uma história, articular uma coreografia escorada no maravilhoso acervo de canções & riffs dessa figura já lendária, contraditória e deflagradora da cultura brasileira. Não me preocupei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho da eternidade”.

Um comovente acerto de contas com a própria história

Fun home. Capa. Reprodução

 

O subtítulo Uma tragicomédia em família não é estraga-prazeres em Fun home [título original: Fun home: a family tragicomic; tradução: André Conti; Todavia, 2018, 233 p.; R$ 55], título-trocadilho da nova graphic novel de Alison Bechdel: antes de traduzirmos por casa divertida ou algo que o valha, é preciso ter em mente que se trata de uma abreviatura de casa funerária, um negócio de família em cujos fundos, por assim dizer, a autora foi criada.

Nascida na Pensilvânia em 1960, Bechdel teve lançado no Brasil seu Você é minha mãe? [Companhia das Letras, 2013]. Fun home foi eleito livro do ano pela revista Time em 2006. A obra conta a conflituosa história de sua relação com seu pai, tendo por pano de fundo a estrutura familiar e as ocupações, obsessões e mistérios de Bruce Allen Bechdel.

Administrador da funerária que herdou, Bruce era professor de inglês, leitor compulsivo, restaurador por hobby, obcecado por decoração e um pai distante, frio e opressor, que enxergava nos filhos mão barata e sempre disponível a comandos que variavam de acordo com seu humor.

Pai e filha são homossexuais, mas ela só descobrirá este fato da vida do pai, após a morte dele, em situação que leva a crer em suicídio, quando ela própria decide revelar-se. Peças se encaixam, mas o pai distante segue misterioso para a filha.

O traço de união entre eles é o amor à literatura, com seus jogos, suas coincidências e citações que vão de F. Scott Fitzgerald a Marcel Proust e Albert Camus, passando por Kate Millet, Colette e James Joyce, longe de tornar seus quadrinhos herméticos para quem não os tenha lido.

Os tons esverdeados de Fun home são um marco das narrativas autobiográficas, sem restringir aqui meramente ao universo dos quadrinhos: Alison Bechdel é impiedosa consigo mesmo e com os que a rodeiam – ou rodearam –, sem tornar sua história sui generis piegas ou irreverente, vide os agradecimentos que faz aos familiares, de uma sinceridade comovente, como o enredo.

Bechdel traça com as tintas da delicadeza as incertezas e as descobertas da puberdade e da sexualidade, entre desenhos animados do Papa-Léguas e o escândalo do Watergate, no governo de Richard Nixon, símbolos, para o bem e para o mal, de uma época em que a homossexualidade era considerada doença.

Fun home é um acerto de contas com o passado, entre dolorido e hilariante, uma lição da qual não se pode fugir.

*

Assista ao trailer do livro:

Um olhar privilegiado sobre o maio de 1968

Um ano depois. Capa. Reprodução

 

O trunfo da prosa de Anne Wiazemsky (1947-2017) é nos tornar cúmplices dela e do então marido Jean-Luc Godard em suas perambulações pelos acontecimentos do maio de 1968.

À época com apenas 20 anos, a atriz conduz os leitores por um ângulo sui generis, tornando-nos íntimos, espectadores privilegiados, como a conviver com tantos personagens interessantes que aparecem ao longo das páginas de Um ano depois [Um na après; tradução: Julia da Rosa Simões; Todavia, 2018, 172 p.; R$ 50,00] – o livro foi adaptado ao cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard.

Godard era um ícone da esquerda francesa e de algum modo havia profetizado o mítico mês em que os estudantes tomaram Paris em seu filme A chinesa, lançado em 1967, com Anne Wiazemsky como protagonista.

A autora escancara sua intimidade com o cineasta, de modo poético, entre preferências gastronômicas, o mau humor quase infantil provocado por motivos prosaicos, o trabalho e o ciúme – o homem comum por detrás do gênio do cinema –, longe de soar fútil.

O cineasta se irrita, por exemplo, com a mulher indo à praia em plena greve. Ou com os donos da casa em que se hospedam durante determinada passagem, enquanto Paris literalmente pega fogo. Anne reconta também episódios marcantes como o boicote – liderado por Godard e François Truffaut, de quem se afastaria, posteriormente – ao Festival de Cannes, além do convívio com figuras como o filósofo Gilles Deleuze e o cineasta Bernardo Bertolucci, entre outros.

Em uma reunião em que se discute a gravação de um filme de Godard com os Beatles, o projeto acaba inviabilizado pelo humor de John Lennon. Anne e Paul McCartney enfiam-se debaixo da mesa para tomar chá e comer bolachas – para desespero de Godard, que não acredita muito na versão da própria esposa, ao menos não de cara.

Na sequência, o casal viaja para Londres, onde acaba gravando os Rolling Stones em Simpathy for the devil – as gravações foram interrompidas por um incêndio no prédio do estúdio e a escritora não retoma o assunto.

Anne Wiazemsky também aborda as insatisfações e desilusões de Godard com o cinema e sua ameaça em deixar de praticar a sétima arte – em determinada passagem chama a si mesmo de “Jean-Luc ex-Godard” – e seu quase suicídio motivado por… ciúmes.

A história é contada com rigor e sentimento, sem romantização, em uma prosa delicada, por quem esteve literalmente no olho do furacão. É um olhar inédito e instigante sobre os acontecimentos de maio de 1968, seus desdobramentos e, sobretudo, seus personagens, fundamentais para a vida cultural e política do planeta nos últimos 50 anos, homens e mulheres com seus defeitos e contradições, tão humanos quanto nós, meros leitores e admiradores de seu legado.

Cardume de talentos

Baiacu. Capa. Reprodução

 

O espírito libertário da poeta Hilda Hilst ronda a Casa do Sol, em Campinas/SP. O espírito libertário de Hilda Hilst e de seus 150 ou 160 cachorros, ninguém sabe ao certo.

A Casa do Sol abrigou uma residência artística, capitaneada por Angeli e Laerte, dois de Los Tres Amigos, grupo de quadrinhistas que a seu modo reinventou o panorama das HQs no Brasil entre o final da década de 1970 e início da de 80, com revistas como Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, na ativa até hoje – Glauco, el tercer amigo, foi assassinado, junto a seu filho Raoni, em 2010.

A residência artística reuniu, além dos pais de Bob Cuspe e Muriel, artistas dos traços e das letras. 10 participaram da residência, e a eles se somaram os editores e outros escritores e poetas. A escalação completa: André Sant’Anna, Anna Cláudia Magalhães, Bruna Beber, Daniel Galera, Diego Gerlach, Fabio Zimbres, Gabriel Góes, Guazzelli, Ilan Manouach, Juliana Russo, Laura Lannes, Mariana Paraizo, Mateus Acioli, Paula Puiupo, Pedro Franz, Powerpaola, Rafael Sica e Zed Nesti.

Esse timaço deu na Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.; R$ 84,90], bonito livro (ou revista?), batizada pelo peixe (venenoso) que “tem essa propriedade de inchar e ficar maior e assustar o tubarão que vem devorá-lo”, como afirma Laerte no editorial, um texto adaptado da abertura da residência artística, em 2017. “Mas o baiacu tem uma outra coisa, que é maravilhosa. O bicho faz uma mandala. No fundo do mar. Ele fica raspando a barriga na areia, horas e horas… Depois, visto de cima, é uma mandala, um círculo perfeito, com linhas geométricas indo para todos os lados. E ele faz aquilo por quê?… Por tesão”, continua.

Ou seja: a revista (ou livro?) já transpira arte desde o batismo, desde a capa (de Zed Nesti).

Na Baiacu a noção de autoria está diluída: são poucos os trabalhos assinados. É claro que há um índice ao final e você não é obrigado a lê-la (ou lê-lo?) na sequência. É possível saltar artistas, ir direto ao/à seu/sua predileto/a. Ou tatear às escuras: ler sem saber quem desenha ou escreve (é claro que, por exemplo, Angeli e Laerte, entre outros/as, têm traços característicos), tentando adivinhar.

Há cadernos de esboços, estudos, Mauricio de Sousa desquarado, ilustrações da casa, prosa, poesia. Arte e ficção dialogam e, imitando a vida, debatem, aqui e ali, o Brasil contemporâneo. A função da arte (ou sua inutilidade), o deslumbramento de novos ricos, o empoderamento de mulheres, negros/as e homossexuais, a violência, o Brasil sob a égide do golpe político-jurídico-midiático e machista que toma o país de assalto há quase dois anos, ideais de consumo como sinônimo de felicidade (enquanto humanos perdem empregos para máquinas), a própria dificuldade com os processos criativos ao longo da residência, direitos humanos, drogas, religião, vasto leque, sem abrir mão da ironia e do bom humor.

Gerações e vozes distintas numa encruzilhada artística cada vez mais rara. Não é todo dia que se vê um livro (ou revista?) tão volumoso(a), com (tanto) conteúdo (de qualidade), se inchando contra o vazio, o mau gosto, o bom mocismo, a isenção e nossas tristes mazelas. O agradecimento a Toninho Mendes, entre muitos/as outros/as, é mais que justo.

E a Baiacu ainda traz encartado o hilariante zine Pirarucu, argumento e arte de Diego Gerlach, complemento à altura, outro peixe poderoso, tirando onda com a residência, o ofício do artista de quadrinhos, o governo ilegítimo, sem poupar sequer o editor André Conti.

Após a/s leitura/s, a pergunta que não quer calar é: terá a revista (ou livro?) uma segunda edição? Quando?

Jotabê Medeiros sobre Belchior: “creio que ele é único no mundo inteiro”

Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

 

Lembrado em listas de melhores do ano e de mais vendidos, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017, 237 p.; R$ 49,90] foi sucesso absoluto de público e crítica em 2017. Um livro lido e discutido, debatido para o bem e para o mal – não demorou para uma irmã do biografado falar em tirar a obra, pioneira, de circulação.

O autor, Jotabê Medeiros, paraibano formado em Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e radicado em São Paulo há cerca de 30 anos, sempre lembra, em entrevistas, os tempos de estudante, quando três discos lhe faziam a cabeça: Desire (1976), de Bob Dylan, A peleja do diabo com o dono do céu (1979), de Zé Ramalho, e Alucinação (1976), de Belchior.

Até que um dia, com a ousadia e o faro que lhe tornariam um dos maiores jornalistas culturais do Brasil, escreveu um texto sobre o clássico The wall (1979), do Pink Floyd, e enviou à revista SomTrês, de que Maurício Kubrusly era editor-chefe. Foi contratado e passou a receber uma caixa de discos por mês, para resenhar, sendo pago para isso. Unia o útil ao agradável, a fome à vontade de comer.

Da SomTrês passaria por diversas redações, com destaque para Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, onde passou mais de duas décadas, e CartaCapital, de que é editor de cultura, além do site de jornalismo musical Farofafá, ancorado no da revista fundada por Mino Carta, homem-escola. Já colaborou com revistas como Globo Rural e Helena, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná. Antes de chegar às livrarias, Jotabê Medeiros publicou trechos de Belchior na Playboy e Piauí.

Começou a escrever a biografia de Belchior um ano e meio antes do falecimento do compositor cearense, ano passado, aos 70 anos, que pegou o país inteiro de surpresa. Jotabê estava na pista para localizar o artista, desaparecido há anos, mas uma surpresa desagradável, o falecimento de um irmão, adiou seus planos em uma semana e o tirou da jogada para sempre. A Jack, o irmão falecido, é dedicado o livro: “nosso Dean Moriarty, aquele que nunca cedeu à tentação de viver outra vida senão aquela que escolheu para si mesmo”, oferece.

Repórter incansável – por essas e outras é que encontrou Bob Dylan de casaco e gorro no calor de Copacabana, como contou em seu livro anterior [O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop, Lazuli, 2013, 215 p.], com foto para comprovar, ao contrário de certo julgamento farsesco na história recente da política brasileira –, Jotabê Medeiros embarcou para a capital Fortaleza e Sobral, cidade natal do bardo, para cobrir o velório para a CartaCapital e colher mais histórias para a biografia, cuja escrita estava quase no ponto final. Com estas andanças, o livro acabou ganhando um novo e surpreendente capítulo final, Inmemorial.

Li Belchior – Apenas um rapaz latino-americano imediatamente quando de seu lançamento, sem saltar mesmo os capítulos que já havia lido publicados previamente na imprensa ou o trecho lido pelo autor quando de sua participação na Feira do Livro de São Luís em 2016, em que comentou a feitura da obra numa mesa que tinha por tema “A desaparição do artista na era da superexposição: como Belchior cantou antes o que viveria depois”, que tive a honra de mediar. Havia acompanhado inclusive a mudança de título: originalmente o livro se chamaria Pequeno perfil de um cidadão comum, aludindo à parceria com Toquinho, de 1979. Fez mais sentido: nem o perfil é pequeno, nem é comum o cidadão.

Uma resenha pura e simples certamente não daria conta de dizer algo novo ou relevante sobre o livro, meses depois: a mim, tudo parecia já ter sido dito. Em uma entrevista que vai além do livro, e não poderia ser diferente, Jotabê Medeiros conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Renato Parada

Homem de vícios antigos – Jotabê, a ideia inicial de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano era uma oficina, em que os inscritos escreveriam uma biografia coletiva, a partir de um curso ministrado por você. Em que momento e por que você decidiu seguir sozinho?
Jotabê Medeiros – De fato, a oficina que propus visava a uma pesquisa coletiva, uma ideia colaborativa que tinha a intenção de questionar o personalismo da figura do biógrafo. Mas foi um fiasco: não teve inscrições suficientes e fui obrigado a postergar. Àquela altura, minha pesquisa já tinha começado e eu estava disposto a escrever o livro de qualquer modo. Não tinha editora ainda, mas fui em frente. É do meu temperamento não recuar ante a primeira dificuldade.

A escrita da biografia começou com esta primeira dificuldade e terminou com outra: o falecimento de Belchior, que levou a mudanças no livro, que já estava praticamente pronto, quando você estava por encontrá-lo. Em que medida o livro seria outro, caso você tivesse conseguido entrevistar Belchior?
Eu imagino que Belchior mantivesse sua disposição de não falar sobre seus planos e sua análise da vida contemporânea. Ainda assim, eu gostaria de ter podido provocá-lo. Sempre quis fazer um texto que, mantendo a equidistância necessária, contivesse o frescor de um avistamento, uma fagulha de proximidade.

Sua biografia é magra, vai ao cerne da questão, sem se prender a firulas ou apelar para fofocas da vida privada. Você já demonstrou incômodo com biografias que ganham volume com elementos que nada acrescentam à compreensão da vida e obra de determinados biografados. Você tinha essa consciência ao escrever?
Sim, tive essa preocupação. Só incorporei à narrativa elementos que têm conexão com a construção de uma personalidade e de uma obra. Claro que é preciso atenção. Há escaninhos da vida pessoal da gente que parecem irrelevantes, mas na verdade não são. Revelam coisas, obsessões, contradições expurgadas. Mas examinei tudo com os olhos da descoberta, tanto a obra quanto o homem. Por isso não invoco a condição de expert, de especialista em Belchior. Eu segui suas pegadas, apenas isso. Por sinal, continuo seguindo.

Recentemente, após a publicação do livro, uma irmã falou em tirá-lo de circulação. A outros, que desconhecem a origem de teu interesse pelo artista e da pesquisa que resultou no livro, este pode parecer oportunista, o que sabemos que não é, já que lançado poucos meses após o falecimento do cearense. Afinal de contas: por que Belchior?
Meu livro teve início um ano e meio antes da morte do artista. Eu me dei conta de que ele era um dos raros outsiders da música brasileira. Tinha conseguido escapar de todos os consensos e panelinhas. Era íntegro e ousado, politizado e independente, solitário e cheio de amigos. Seu rompimento e consequente autoexílio reafirmaram sua singularidade. Creio que ele é único no mundo inteiro.

Você já era reconhecido como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no Brasil. O sucesso do livro catapultou você a estrela de feiras e eventos literários em geral. Em que medida o jornalista ajuda e atrapalha o escritor e vice versa?
Acredito que o desafio é o jornalista aprender a se relacionar, como o escritor, com o seu leitor. Durante 30 anos, em redações, eu nunca soube quem era o meu leitor. Havia às vezes uma enxurrada de e-mails de leitores contrariados com uma crítica, uma reportagem, mas eles (os leitores) e eu nunca fomos apresentados. O livro aproxima, abre debate, derruba muros e fronteiras. Você é inquirido e pode se explicar. Eu não acredito no sucesso, acredito na consistência, na tarefa. Uma vez, finalista de um prêmio de jornalista, me perguntaram o que achava daquilo e eu respondi: “Jornalismo não é corrida de cavalos”. Ninguém ganha por chegar uma cabeça à frente. É preciso persistência, silêncio, concentração e fazer tudo de novo todo dia.

Outra característica que merece ser destacada em teu livro é o distanciamento da hagiografia. Como admirador confesso da obra de Belchior, foi difícil?
Creio que biografias laudatórias e chapas-brancas são um desrespeito para com o biografado. Se esse biografado é o Belchior, então é ainda mais desrespeito. Quando ele andou caminho errado, ele o fez pela simples alegria de ser [citando trecho da letra de Coração selvagem, de 1977]. Era um filósofo, um homem em questionamento contínuo de sua condição. Assim, nivelar sua existência por um padrão de homem médio, domesticado, inócuo, isso sim seria um desrespeito. A viúva de Belchior, Edna, deu um único depoimento após a morte do cantor em um teatro no Ceará. “Ele não era uma celebridade, era um artista renascentista”. Concordo com ela. O biógrafo seria um traidor se resumisse a sua vida a um corolário de fofocas – o contrário também seria uma traição, fazer dele um homem da família, um totem particular.

Fora Belchior, houve alguém que você gostaria de ter entrevistado para o livro e não conseguiu?
Acho que uma narrativa inclui os percalços e as negativas. Fagner não quis falar. Edna, a viúva, também não quis falar. Seus personagens, entretanto, estão colados à história quer eles queiram quer não. É como diz o maestro Ennio Morricone: os silêncios são parte integrante da música, não há música sem eles.

Também me chamou a atenção em teu livro a mistura de biografia com crítica musical, noutra demonstração do convívio harmônico do jornalista com o escritor em você. Além de contar sua versão da vida de Belchior, você analisa seus discos, sua obra. Foi algo consciente?
Pensei em criar uma biografia um pouco menos factual, com mais envolvimento, até alguma paixão. Sei que é perfeitamente possível fazer uma biografia empilhando fatos, não deixando nenhum de fora, mas creio que isso não me atrai. Não analiso todos os discos, ficaria chato e extensíssimo. Analiso os fundamentais, com alguma dose de informação nova sobre eles.

Após o ponto final, várias histórias já surgiram, como você compartilhou com os leitores em um texto para a revista Piauí. Você está colecionando estes causos? Pensa em fazer algo com eles, uma segunda edição ampliada?
Sim, estou colecionando esses causos. Já alimentei a fantasia de publicar um outro livro, A vida após a biografia, reunindo todas essas histórias. Mas ficaria feliz se pudesse, agora na segunda edição [prevista para março], acrescentar dois capítulos. Um deles seria somente para abrigar uma análise e a história de Baihuno [1993], o último álbum de inéditas de Belchior, cuja última canção se chama Até mais ver e é uma despedida (“Qualquer distância entre nós tornada em nada”). Além, é claro, de corrigir algumas coisas e acrescentar detalhes.

Sua vasta experiência no campo do jornalismo cultural me faz pensar em vários livros que você tem prontos na gaveta: uma coletânea de entrevistas, outra de reportagens, pelo menos, além da ficção A morte engarrafada, de que já publicou alguns capítulos em seu blogue, e deste A vida após a biografia. Noutras circunstâncias, Paulo César de Araújo fazendo escola [risos]. Seu livro de estreia conta causos a partir de fotografias de grandes nomes do pop em atitudes prosaicas. Você pretende publicar outros títulos?
Sim, é verdade. Os projetos às vezes são inevitáveis, noutras vezes completam um ciclo. O livro de reportagens seria uma espécie de balanço da carreira. Outro dia mesmo encontrei uma entrevista que fiz com Pierre Henry, compositor francês que morreu no ano passado. Creio que muitas delas têm alguma dose de atemporalidade, então daí a ideia. Mas é muito provável que, antes desses livros, eu publique uma obra para crianças. Tenho uma proposta e vou estudá-la.

Por falar em crianças, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano foi escrito com você se equilibrando entre a paternidade de dois filhos pequenos, a editoria de cultura da revista CartaCapital e frilas outros. O quanto essa dose de intranquilidade inspira e bloqueia, ajuda e atrapalha?
Bom, comecei exatamente quando nasceu Tito, meu filho menor, agora com dois anos. Ele não tem culpa da escolha do pai: eu vinha de um longo período de imprensa diária e queria abraçar um projeto que fosse o contrário da rotina, uma reportagem sem deadline e sem títulos e fechamento padronizado. Confesso que muitas vezes escrevi em situação insalubre, com fraldas a trocar, almoço a fazer, faxina atrasada, louça empilhada. Agora, tudo parece que foi pacífico e tranquilo.

Entre os projetos para o futuro, alguma outra biografia?
Tive a intenção de escrever a biografia não autorizada de um outro grande outsider, Luiz Melodia. Mas, até agora, as tratativas para ter acesso a acervo e a parentes não evoluiu muito, e acho mesmo que não vão evoluir. Uma pena, porque Melodia já está merecendo um exame que o traga para o centro do debate público, como artista e testemunha de seu tempo.

Você, a propósito, escreveu talvez o melhor obituário de Melodia e obituários não deixam de ser pequenas biografias. Vivemos tempos de grandes perdas ou é o fluxo natural das coisas e sempre foi assim?
Sou um otimista crônico. Experimento as perdas e choro as perdas, mas prefiro pensar que os ganhos estão em curso e vão trazer grandes contribuições ao futuro. As coisas que permanecem são as coisas vividas com intensidade, ousadia, eletricidade. Os reacionários não deixam legados.

Isso vale, por exemplo, para episódios como o julgamento de Lula e seu entorno, como o ódio cotidiano praticado nas redes sociais, mas não só?
Acho que se estende à política, ao comportamento, a tudo. O julgamento de Lula foi uma vergonha não só para nosso tempo, para o Brasil, mas para a História da humanidade. Como não há exemplos precedentes de recuo do autoritarismo, creio que vai piorar. Mas vejo o esforço de civilidade dos intelectuais, dos artistas, dos homens de ação, e sei que é algo que não vai triunfar.

Voltando a Belchior, esses retrocessos todos que estamos vendo e vivendo, ele, “cantador das coisas do porão” [verso de Conheço meu lugar, de 1979], que dizia “nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer, nunca reverenciar” [de Como o diabo gosta, de 1976], entre tantos outros versos, tem sua obra atualizada pelo triste contexto, não?
Na verdade, acho mesmo que ele anteviu todos os contextos, como convém a um grande visionário. Em Baihuno, seu derradeiro disco, ele canta sobre todos esses dilemas nacionais: “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação/ O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão” [versos da faixa-título]. Ou então: “Diz, América que és nossa/ Só porque hoje assim se crê/ Há motivos para festa?” [de Quinhentos anos de quê?]. O disco termina com uma versão de um poema de Iessiênin, o poeta russo suicida que escreveu: “Sim, está decidido: agora não há mais volta”. Ele transformou o poema em Até mais ver, que é sua despedida de um mundo irremediavelmente corrompido. Era uma decisão extrema, especialmente para um humanista e otimista como Belchior.