“O sol nas bancas de revistas”

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

No editorial do número 2 da Mais55Mag, o jornalista Ronaldo Bressane escreveu uma verdadeira declaração de amor às revistas – “Revista nunca enguiça. É só não encher linguiça”, o texto, está reproduzido em seu blogue.

Longe de comparar a minha à de Umberto Eco, citado no início do aludido texto, estes dias, arrumando o quarto do apartamento que chamamos pretensiosamente de biblioteca, deparei-me com algumas revistas. Confesso não colecioná-las, em geral leio e passo adiante, ao menos a maioria, ao contrário de livros e discos, mas guardo aqui e acolá, um ou outro exemplar, por algum motivo especial.

Os exemplares da Helena, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná, os poucos números da Pitomba!, a saudade da Coyote e da Trip que encartava cds, uma ou outra Cult, piauí, CartaCapital, Caros Amigos, serrote, Zum! e os quadrinhos: Chacal, Ken Parker, Tex Willer.

Este, meu vício mais antigo: leitor compulsivo há mais de 30 anos. Sempre comento que minhas primeiras idas a sebos foram no extinto Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, à época na Rua dos Afogados, quando meus pais se separaram e eu e meus irmãos fomos morar no Centro, com mamãe, na Rua de Santaninha – em um rápido L percorríamos o trajeto de casa até o sebo, onde comprei meus primeiros vinis dos Beatles.

Mas antes, ao lado da parada de ônibus do antigo Armazém Alencar Diamante (“é diamante que nem ladrão acaba”, lembram do reclame?), na calçada de onde hoje funciona a Estácio São Luís (Rua Grande, Canto da Fabril) em que estudei, havia um sebo – para mim, à época uma criança, uma imponente banca de revistas onde era possível trocar, além de comprar.

Levei alguns gibis da Turma da Mônica e troquei por exemplares de Tex – numa base mais ou menos de dois por um –, que eu havia começado a ler um pouco antes, por ter achado uma velha coleção de meus tios.

Colecionei Tex enquanto pude e um de meus orgulhos era o exemplar coincidentemente intitulado “A carta misteriosa”, que trazia uma carta de leitor assinada por este que vos perturba, com o endereço rosariense de meus avós. Eu perguntava algo como o porquê de Tex e Carson se zoarem tanto – camelo velho, satanás etc.

Colecionei Tex até uma desilusão causada por cupins: eles comeram mais da metade de minha coleção e, num gesto impetuoso de desapego, vendi num sebo (talvez o Rui, na Praça Deodoro) os exemplares que restaram. Passei um tempo afastado e só fui me reencontrar com o ranger após a leitura de Breganejo blues – novela trezoitão, de Bruno Azevêdo, cujo protagonista é um taxista/detetive leitor compulsivo do herói, que tem alguns quadrinhos usados na composição gráfica da obra.

Mas devo admitir e advertir o paciente leitor: este texto não era para ser uma declaração de amor a Tex, mas a revistas em geral.

O fato é que há algum tempo minhas revistas prediletas têm tido certa dificuldade em  chegar às bancas da ilha. Só tenho conseguido ler Tex em exemplares usados adquiridos em sebos. CartaCapital, piauí e Cult, entre outras, nunca mais vi, nem folheei, já só ouço falar.

Quando vi circular pelas redes sociais a capa do exemplar de agosto da última, com o poeta Paulo Leminski na capa, corri às bancas, numa missão sem sucesso, ao menos até agora. Nada substitui o prazer de ir até às bancas, embora elas sejam cada vez mais raras e assinar pudesse ser uma saída (sobretudo em tempos de pandemia), mas algumas editoras não facilitam a vida do assinante (ou pretendente), seja em termos de parcelamento ou de bancos conveniados.

Nem sempre é fácil manter os vícios antigos, tarefa que “me enche de alegria e preguiça”.

Umberto Eco, Jean Wyllys, Cleidenilson, “jornalismo” e linchamentos

Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução
Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução

 

Tenho certeza que todos/as os/as coleguinhas que passaram pela faculdade de jornalismo viram O nome da rosa, de Jean-Jacques Annaud, baseado no livro de Umberto Eco.

Há quase um mês o escritor italiano declarou que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade””.

Recorro ao mestre – que talvez me localizasse nesta “legião de imbecis” – para tratar do assassinato de Cleidenilson Pereira da Silva, de 29 anos, segunda-feira passada (6), por volta de meio dia, no Jardim São Cristóvão.

O caso já é por demais conhecido, sobretudo após ganhar repercussão nacional: depois de uma tentativa de assalto a um bar na região, Cleidenilson foi rendido, amarrado a um poste, despido, e assassinado a socos, chutes, pauladas, pedradas e garrafadas, sangrando em via pública até o óbito.

Nada justifica o ato selvagem, a barbárie nossa de cada dia, a “vingança” coletiva – São Luís tem uma média de um linchamento mensal, embora nem todos ganhem a mesma repercussão. O ato, além de tudo, foi extremamente covarde, já que a vítima estava imobilizada.

A maioria dos comentaristas de internet faz jus à sentença de Eco: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Quase nenhum deles consegue ir além das tentativas de justificar o crime pela exceção: “e se invadissem sua casa?”, “e se estuprassem sua filha?”, “leva pra casa!” – este último comentário em relação ao adolescente que sobreviveu à turba enfurecida que assassinou Cleidenilson. A maioria não apenas concorda, como teria ajudado a linchá-lo se lá estivesse presente. E além: ajudarão a linchar qualquer um/a em qualquer circunstância, se no futuro tiverem oportunidade.

De minha parte, prefiro acreditar no – e lutar pelo – aperfeiçoamento dos sistemas de justiça e segurança pública, entre outras políticas públicas garantidoras de direitos, para que não existam Cleidenilsons – não no sentido de aniquilá-los, mas no de que deixem ou sequer ingressem no mundo do crime – nem linchadores, com suas práticas medievais em pleno século XXI.

À “legião de imbecis” que aplaudiu o linchamento – segundo o carioca Extra, que deu uma bela capa hoje (8) sobre o assunto, 71% dos que comentaram a notícia no perfil do jornal no facebook são a favor da prática – soma-se agora a que critica o deputado federal Jean Wyllys (PSol/RJ), justamente por ele ter emitido opiniões contrárias à manada enfurecida que bate/u palmas para o preto tingido de vermelho sob o sol inclemente de São Luís do Maranhão em pleno meio dia.

Uns revoltaram-se com as expressões “turba de psicopatas” e “multidão surtada de fascismo”, usadas por ele. “A carapuça só assenta na cabeça de quem usa”, já diria minha sábia vozinha. Acham ilegítimas as manifestações do parlamentar pelo fato de ele ser baiano, ter sido eleito pelo Rio de Janeiro e pouco visitar o Maranhão (à distância só se pode incentivar o linchamento?).

O diabo não é o “idiota da aldeia” ou a “legião de imbecis”: estes são o autointitulado “cidadão de bem”, propagador do senso comum – alimentado pelos programas policialescos de rádio e tevê, cabe lembrar – de que “bandido bom é bandido morto”. O diabo é jornalistas e veículos ditos “sérios” embarcarem no tom monocórdio, em vez de separar o joio do trigo.

A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução
A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução