Vanessa da Mata volta ao disco

 

Vanessa da Mata esbanja feminilidade ao esvoaçar vestidos coloridos no encarte de Segue o som, sétimo disco de sua carreira, de título apropriado para quem retorna de uma experiência literária bastante interessante, A filha das flores (2013), seu romance de estreia.

O disco abre com Toda humanidade veio de uma mulher, faixa de título feminista-criacionista cuja personagem é uma menina que quer se divertir e ser feliz.

A faixa título é outro papo de amigos: “relaxe seu semblante e pense no que está se metendo”, adverte outra mulher que, ao que parece, não quer um relacionamento mais sério. “Dramas são sempre enrolados/ tome mais cuidado/ não vá sem razão”, prossegue advertindo.

Em Não sei dizer adeus um ouvinte desavisado poderia pensar numa participação especial, já que a voz da cantora muda sob efeitos, um dos problemas do disco o excesso de ruídos e um dispensável remix da faixa título, que o encerra.

Depois do bom disco dedicado à obra de Tom Jobim – Vanessa da Mata canta Tom Jobim –, do ano passado, a mato-grossense continua mostrando por que a exigente Maria Bethânia escolheu-a para intitular um disco seu há 15 anos – A força que nunca seca (parceria com Chico César). Rebola nêga, qual a música de década e meia atrás, retrata outra mulher cuja “vida é muito dura” e os “sonhos são livres e ela só/ dá surra de amor nos filhos”

Cantando e compondo também em inglês – a regravação de Sunshine on my shoulders, sucesso de John Denver, e My grandmother told me (Tchu bee doo bee doo), um dos destaques do disco – ela cerca-se de músicos da nova e velha guardas em canções de amor e despedida: Fernando Catatau (guitarra), Kassin (contrabaixo, guitarra, sintetizador, teclado), Liminha (contrabaixo, guitarra, violão), Lincoln Olivetti (piano rhodes), Marcelo Jeneci (teclado) e Stephane San Juan (bateria, percussão), entre outros. Pode não ser seu álbum mais inspirado, mas traz diversos bons momentos.

Vanessa da Mata estreia na literatura com romance carregado de força poética

A filha das flores. Capa. Reprodução

A mato-grossense Vanessa da Mata despontou no cenário musical brasileiro em 1999, quando Maria Bethânia batizou o disco que lançou aquele ano com o título da parceria daquela com Chico César, A força que nunca seca. A cantora e compositora estrearia em disco em 2002 e com sete discos lançados estreia na literatura, com A filha das flores [Companhia das Letras, 2013, 278 p., leia trecho].

Adalgiza – ou simplesmente Giza, como economizam parentes e amigos – é a personagem-título. Ela mora numa cidade do interior do Brasil, cortada por uma BR que leva a qualquer lugar. Romance de formação, o enredo acompanha a transformação de sua protagonista, de inocente menina, cuja diversão é caçar formigas e a obrigação é ajudar as tias com o trabalho no jardim-floricultura, em mulher consciente de seus desejos e do que precisará enfrentar para realizá-los. A filha das flores é uma história de amor.

Talvez influência de seu ofício na música, a narrativa de Vanessa da Mata é carregada de força poética. Uma pitada de humor é garantida quando Giza descobre a Vila Morena, reduto de bêbados e prostitutas, um bairro desprezado pela cidade, depois da “peste” que dizimou boa parte da população da região. É lá que Giza se faz mulher e adentra uma trama de desencontros, dúvidas, teimosias, traições e reencontros com o passado e o futuro.