Um show impecável

Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro
Iluminados. Fotosca: Zema Ribeiro

 

Há quem não entenda o fato de eu gostar de assistir a shows “repetidos”. Como se todo show fosse igual. Todo show é diferente, cada show é um show. Mesmo discos, há aqueles tão bons que não se consegue ouvir duas vezes, com novas nuances percebidas a cada audição. Mas deixemos de abobrinhas.

Antes de adentrar o Teatro Arthur Azevedo na última quarta-feira (10) eu já sabia que encontraria um Pau Brasil diferente do que eu havia visto e ouvido há mais ou menos sete anos. Por diversas razões, entre as quais destaco duas: o repertório diferente e o próprio amadurecimento musical de seus integrantes.

Se naquela ocasião eles acompanhavam Monica Salmaso nas músicas de Noites de gala, samba na rua, disco dedicado à obra de Chico Buarque, agora, sem o ornamento da voz da cantora, dedicavam-se a um repertório instrumental rico e variado. Tocaram temas autorais (Pingue-pongue, de Paulo Bellinati, Caixote de Nelson Ayres, entre outros), Heitor Villa-Lobos (Bachianas Brasileiras nº. 4 – Ária e Cantiga, com que abriram o espetáculo), Moacir Santos (Agora eu sei e Coisa nº. 10), Tom Jobim (Saudade do Brasil) e Baden Powell (Pai, com que encerraram o espetáculo, sem direito a bis).

O concerto do Pau Brasil encerrava um ciclo: a comemoração de seus 30 anos de carreira, cuja turnê percorreu cidades em Minas Gerais, Mato Grosso, Pará e Maranhão. Bem humorados, disseram da felicidade de voltar ao palco “dessa maravilha que vocês têm aqui”, o Arthur Azevedo, e anunciaram a viagem que farão em sequência, para a Noruega, onde gravarão disco novo.

O bom público presente ao teatro pode ouvir em primeira mão algumas músicas que estarão neste novo trabalho, entre elas Caixote, xote de Nelson Ayres cujo título confunde-se com o Caixote que reúne sua obra completa – sobre o que brincou o baixista –, exceto o mais recente Villa-Lobos Superstar, ótimo disco dedicado à obra de Heitor Villa-Lobos com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do sempre inspirado cantor Renato Braz.

Nelson Ayres (piano), Teco Cardoso (flauta e saxofones), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), Ricardo Mosca (bateria) e Paulo Bellinati (violão) – da esquerda para direita na foto que ilustra este post – tanto na escolha quanto na execução das peças, mostraram ao público ludovicense por que são um dos grupos instrumentais mais interessantes do país que lhes empresta meio batismo.

Música Popular Pau Brasil

A música popular brasileira tornou-se uma sigla importante após os grandes festivais, tidos como sua era de ouro, nas décadas de 1960 e 1970. Nenhum país tem uma música popular tão interessante quanto o Brasil, justo pela sofisticação que carrega.

O que parece contraditório é o trunfo do longevo Pau Brasil, grupo que chega aos 30 anos neste 2014, cuja turnê comemorativa passa por São Luís nesta quarta (10), às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo.

O quinteto formado por Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão), Ricardo Mosca (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo) e Teco Cardoso (flauta e saxofones) é a perfeita tradução da ponte entre erudito e popular sem linhas de segregação que acabam por fazer da música o que temos de melhor.

Não é à toa que este grupo se chama Pau Brasil. A sequência é lógica e pode soar óbvia: desta árvore nativa extraiu-se o nome do país, da madeira vem a maioria dos instrumentos, deles a música, obtida a partir do virtuosismo destes gênios, de relevantes serviços prestados, em grupo ou sozinhos, aos ouvidos mais exigentes, ao longo destes agora devidamente celebrados 30 anos de carreira.

Noites de gala, samba na rua, de Monica Salmaso, é um destes casos, um bom exemplo: no disco da cantora, cujo repertório é inteiramente de Chico Buarque, o grupo fez a cama para que a cantora reinventasse o compositor, trazendo novidade e rara beleza ao que já parecia definitivo, as gravações já conhecidas de músicas que ela regravou. Particularmente lembro-me do show, no mesmo Arthur Azevedo, em que, num determinado momento, a cantora beijava Teco Cardoso, seu marido, celebrando o amor pela música, contaminando a plateia apaixonada – impossível manter-se impassível.

Quem não conhece o Pau Brasil certamente há de se apaixonar. O repertório longe do óbvio, além de composições dos membros do grupo, passeia por nomes como Ary Barroso, Baden Powell e, entre outros, Heitor Villa-Lobos, a cujo repertório é dedicado Villa-Lobos Superstar, seu mais recente disco, que lhe garantiu os troféus de melhor disco e melhor grupo instrumental no 24º. Prêmio da Música Brasileira. O disco conta com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do cantor Renato Braz. O show traz um breve panorama da história da música e dos ritmos brasileiros.

Também amanhã, às 18h, o Pau Brasil dialogará com o público interessado sobre a concepção musical e de arranjos, em interação com os presentes – músicos, professores e estudantes de música e público em geral. Tanto para a oficina quanto para o espetáculo as entradas são gratuitas, devendo ser retiradas na bilheteria do teatro a partir das 14h.